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O DRAMA DO KARMANN-GHIA

SÃO PAULO (pé no saco) – Tenho um Karmann-Ghia 1963. Em 2010, licenciei o carro pela internet como faço todos os anos. No ano passado, teria de submetê-lo às atrocidades da inspeção veicular levada a cabo na cidade pela empresa Controlar, cujo contrato com a Prefeitura está sob suspeita e não sei bem por que a Justiça não suspende de vez e mete todo mundo na cadeia. Em alguns casos, simplesmente cagam na cabeça do Ministério Público. É o que está acontecendo com a Controlar. Os caras mostram as irregularidades, provam, pedem que suspendam tudo, que devolvam o dinheiro, mas não acontece nada. O prefeito diz que é tudo mentira e fica por isso mesmo. Se eu fosse promotor público, enfiava o dedo no cu e rasgava, de raiva. O desserviço deveria estar suspenso, tantas são as suspeitas, mas continuam arrecadando alegremente a grana de todos os donos de carros licenciados na cidade.

Bem, por conta dessa zona toda, no ano passado não levei o Karmann-Ghia para inspeção nenhuma e deixei o carro na garagem. Aí, no final do ano, baixaram uma portaria isentando carros fabricados até 1965 da inspeção. Lindo. Não sei por que escolheram 1965, e não 1899 ou 1943, como marco libertador dos carros antigos. Mas vá lá. Entrei na internet e paguei o licenciamento de meu carro para 2011. Tentei pagar também o licenciamento de 2012, mas o sistema não aceitou o pagamento porque antes teria de liberar o documento de 2011.

OK. Fiquei esperando a chegada dos documentos em casa para, então, pagar 2012. Mas eles não chegaram. Chegou, sim, uma cartinha do Detran dizendo que o documento não foi liberado porque faltava a inspeção de 2011. Como não estava a fim de explicar a ninguém que focinho de porco não é tomada, resolvi, então, “zerar” minha situação com a Controlar. Tentei agendar a inspeção atrasada de 2011 (é possível fazer isso, pagando uma taxa extra, claro) para, com o documento liberado, fazer o licenciamento de 2012 e gozar da alforria recém-adquirida com a portaria do fim do ano passado que isenta os carros fabricados até 1965.

Entrei no site da Controlar, digitei o Renavam e… Não foi possível agendar a inspeção porque o carro, segundo a portaria número tal, é isento. Assim, estou com o licenciamento de 2011 bloqueado pelo Detran por falta de inspeção, mas não posso agendar a inspeção atrasada porque o carro é isento. E sem o documento de 2011 não posso licenciá-lo para 2012.

No dia 16 de fevereiro, liguei para um certo Disque Detran, no dia em que recebi a cartinha do órgão estadual. Protocolo 02/02079. Expliquei tudo. Me prometeram uma resposta em até dez dias. Claro que não recebi nenhuma. Liguei agora. Informaram que eram dez dias úteis, sem contar feriados. O prazo para me dizerem algo termina amanhã, segundo a atendente. Protocolo 376389, o da ligação de hoje. Pedi para pelo menos verificarem em que pé está a situação. Ela disse que se até amanhã ninguém me disser nada, devo entrar em contato de novo.

Consultei a Controlar pelo Twitter, solicitando que enviem ao Detran a liberação do meu carro para licenciamento. Me informaram que isso é com a Secretaria do Verde e do Meio-Ambiente. Liguei lá, no departamento responsável pela isenção de veículos especiais. O rapaz, muito gentil, me disse que no caso desses carros até 1965 quem cuida é outro setor, um, ou uma, tal de CAFIN. A moça na, ou no, CAFIN disse que a Secretaria ainda está acertando os ponteiros com o Detran, que não conseguiram ainda fazer com que os sistemas se entendam em relação a esses carros até 1965. E quando poderemos licenciar nossos carrinhos?, perguntei. Não há previsão, senhor. Obrigado.

É fácil a vida em São Paulo, a locomotiva da nação.

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MELHOR QUE NADA

SÃO PAULO (por que 65?) – O Nê Lemos, fuscólogo juramentado, encontrou a novidade no Diário Oficial de ontem, terça. Carros fabricados até 1965, mesmo sem placa preta, estão isentos da picaretagem municipal chamada inspeção veicular.

O trecho da Portaria-06 /SVMA.G/2012 baixada pelo secretário de Verde e do Meio Ambiente que trata do assunto é esse aí embaixo:

Art. 1º São objetos da inspeção anual de que trata o Programa de Inspeção e Manutenção de Veículos em Uso – I/M-SP, instituído pela Lei nº 11.733, de 27 de março de 1995, alterada pelas Leis nº 12.157, de 9 de agosto de 1996, e nº 14.717, de 17 de abril de 2008, as seguintes classes de veículos automotores, independentemente do sistema de propulsão e do combustível utilizados:
I – ônibus, microônibus, vans e demais veículos similares usados para o transporte público de passageiros;
II – caminhões e demais veículos similares usados para o transporte de cargas;
III – camionetas de uso misto, vans, peruas, utilitários, picapes e automóveis;
IV – motocicletas, motonetas e triciclos de uso urbano.
Parágrafo único. Ficam isentos da inspeção ambiental veicular os veículos equipados com motor dois tempos, veículos movidos apenas por gás metano, veículos híbrido (movido por motor a combustão interna e elétrico) veículos de coleção, veículos cujo ano de fabricação seja igual ou abaixo do ano de 1965, os veículos concebidos unicamente para aplicações militares, agrícolas, de competição, tratores, máquinas de terraplenagem e pavimentação e outros de aplicação ou de concepção especial sem procedimentos específicos para obtenção de Licença para Uso da Configuração de Veículo ou Motor – LCVM.

Como os meus abaixo de 1965 ou têm placa preta, ou são dois tempos, não muda muito minha vida. Na verdade, o Karmann-Ghia 1963 entra nessa brincadeira, o que é ótimo. De qualquer forma, é melhor do que nada. Os carrinhos mais antigos que não têm placa preta (nem todo mundo liga para isso) estão livres do assalto anual. Não sei de onde tiraram 1965 (e não 1970, ou 1975, ou 1982 para dar os 30 anos dos carros de coleção), mas se fosse 1968 o ano escolhido, eu livrava também a cara do 2CV. Continuam proscritos, na minha coleção, um Passat, um Corcel, dois Ladas, dois Gols e um Fiat 147.

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DESCONTROLAR

SÃO PAULO (sem mais) – Reproduzo, na íntegra, desabafo de blogueiro sobre essa maldita inspeção veicular de São Paulo, conduzida por gente despreparada e mal-intencionada. O relato do Walter Serer Jr. é estarrecedor. E lembro que prefeito e secretário de meio-ambiente estão sendo investigados por irregularidades contratuais com a empresa responsável.

Publico por achar que a gente não pode ficar calado diante de tanto autoritarismo e arbitrariedade, mesmo sabendo que a chance de isso resultar em alguma coisa prática é quase nula. E faço-o depois de perder quatro horas no trânsito hoje para ir de Moema à Faria Lima e da Faria Lima à Paulista. Esta é a cidade que diz que cuida do meio-ambiente. Um lixo completo. Leiam e julguem vocês.

Olá Flavio,

Gostaria de compartilhar contigo o que ocorreu comigo hoje na famigerada inspeção veicular de SP.

Agendei minha inspeção para as 13:34 de hoje no Controlar Tatuapé, que segundo o Sr. Prefeito, é o maior centro de inspeção veicular do mundo.

Palmas para o Sr. Prefeito.

A coisa começou mal quando eu, com medo do trânsito da época de Natal, resolvi sair mais cedo do trabalho e deixei de almoçar para encarar uma marginal engarrafada da Zona Sul até a ponte do Tatuapé e acabei chegando ao local com 45 minutos de antecedência. 47, para ser mais exato. E aí o rapaz da entrada não queria me deixar entrar, pois 30 minutos de antededência pode, mas 47 não, mesmo o maior centro de inspeção veicular do mundo operando abaixo de sua capacidade, cheio de funcionários (pagos por nós, aliás) sentados batendo papo. Usei isso como argumento e o infeliz disse que nesse caso, abriria uma exceção se eu “colaborasse” com ele. Entendi perfeitamente que ele me pediu suborno, grana, propina, e blefei dizendo que a conversa estava sendo gravada com a câmera do meu celular e o idiota acreditou. Disse que nesse caso abriria uma exceção, mas que da próxima vez, meio que antevendo o que aconteceria, eu deveria chegar 30 minutos mais cedo ou mais tarde, porque 47 não pode.

Meu carro, um Voyage 1.6 2010 com todas as revisões e trocas de óleo em dia, passou bonito na emissão dos poluentes, os tais microgramas, picogramas, nanogramas, sei lá. Mas foi reprovado na inspeção visual, veja você. Perguntei então do que se tratava a tal inspeção visual. Tem um amassadinho do lado, ele estava meio sujo, achei que fosse isso. Mas não. Era uma mangueirinha de bosta que estava desconectada, a mangueirinha do respiro do motor. E então eu reconectei a mangueirinha com as mãos mesmo, já que nem de abraçadeira ela precisa, e achei que meu problema estava resolvido. Segundo o “técnico”, o Sistema, aquela entidade suprema, como bem definida por você, não permite que seja feita outra inspeção sem que eu volte para casa, faça outro agendamento e perca um tempo precioso do meu dia para levar o carro até o quinto dos infernos. Eu ainda perguntei por que ele não me avisou da bendita mangueira antes de fechar a inspeção, já que se tratava de um item muito simples. Ele me respondeu que o Sistema, esse Ser superior, não permite que seja feita nenhuma intervenção no veículo uma vez que o mesmo se encontre estacionado sobre a área azul. Segundo ele, o Sistema filma tudo. Para mim ficou claro que o rapaz da entrada cantou a bola para o “técnico” desconectar a mangueirinha e me reprovar na inspeção.

Aí eu perdi a razão e comecei a bater boca com o sujeito. Errado, mas nada além de um “então vão se foder todos vocês, vocês são uns bostas”.

Saí cantando pneu e, de repente, vários brucutus brotaram do chão e começaram a cercar meu carro com cones, pois não queriam me deixar sair.

Atropelei todos eles (os cones, não os brucutus) e chegando ao portão de saída, o brucutu da vez, aparentemente seguindo ordens de não me deixar sair a qualquer custo, fechou o portão de ferro na lateral do carro que estava à minha frente, um Monza vinho super bem conservado que me deu até pena, achando que o meliante fosse ele. O cara do Monza ficou puto, saiu do carro sem entender nada, e eu aproveitei a brecha e escapei pela Marginal Tietê, repleta de ônibus e caminhões soltando fuligem pelo escape.

Essa é a inspeção ambiental de SP, orgulho do nosso prefeito. Agora estou aqui, esperando o Sistema, esse Ser supremo, me multar por excesso de velocidade na área azul, ou quem sabe me processar por pertubar a ordem nesse inferno que é a cidade de SP.

É isso. Se você achar pertinente, ficaria feliz se publicasse no seu blog. Quem mora em SP, paga imposto e cumpre as leis não pode aceitar esse escândalo que é o Controlar passivamente. Acredito que qualquer forma de divulgação é válida.

Obrigado por ler até aqui. Admiro muito o seu trabalho.

Um abraço,

Walter

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FINALMENTE

SÃO PAULO (pausa na F-1) – Nada a ver com Interlagos, mas não posso deixar de registrar aqui a notícia importantíssima. O Ministério Público Estadual pediu o afastamento do prefeito de SP e a interrupção imediata das inspeções veiculares fajutas feitas pela Controlar, a maior fábrica de imprimir dinheiro fácil jamais vista no país.

Vejam abaixo o que diz o texto do “Estadão”:

“O problema, segundo o MPE, não é a ideia da inspeção, mas a forma como ela foi executada na cidade. Desde a constituição da empresa Controlar até as sucessivas prorrogações do contrato teriam sido feitas por meio de fraudes, como a apresentação de garantias falsas, documentos e informações falsas e, além de possíveis fraudes tributárias e fiscais. A ação foi apresentada no Fórum Helly Lopes Meireles, sede das Varas da Fazenda Pública de São Paulo.”

Como se vê, infelizmente não está sendo contemplado o absurdo técnico dessas inspeções, o equipamento usado, os critérios nebulosos, os resultados diferentes para o mesmo veículo dependendo do local e do dia em que a inspeção é feita, o despreparo dos funcionários, a falta de transparência quando se trata do destino do valor arrecadado, oa resultados práticos dessa aberração, nada. A Controlar é apenas mais uma máquina de tirar dinheiro dos cidadãos, controlada pelos consórcios que tomam conta de muitos serviços públicos no Estado — como pedágios e gestão de estradas, obras viárias e o escambau a quatro; consórcios que, na prática, são o caixa de campanha dos partidos que administram SP há quase duas décadas.

A motivação do MPE é outra: fraudes e mais fraudes. Que caiam todos, que essa arbitrariedade seja mesmo suspensa, e que um dia tenhamos governantes realmente preocupados com o meio-ambiente. Esses aí só se preocupam em criar sacanagens que nos tirem dinheiro e paciência. Porque já pagamos um imposto específico sobre a propriedade de veículos, e o mínimo que os governos deveriam fazer era usar esse dinheiro todo para cuidar de tudo que diz respeito a eles, veículos. Como zelar pelas estradas (e não “vendê-las” à iniciativa privada que vive de administrar bens públicos, construídos com dinheiro público), fiscalizar emissão de poluentes, tapar buracos, manter semáforos funcionando, melhorar a sinalização, treinar agentes de trânsito etc etc e etc.

Não tenho muita esperança de que algo concreto vá acontecer, mas seria lindo ver essa gente cair de podre.

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SÓ VENDO…

SÃO PAULO (vixe, que dia longo) – Não levo muita fé, mas não custa registrar. O deputado Ruy Pauletti, do PSDB do RS, pretende agendar na semana que vem (agendar NA semana que vem, não PARA a semana que vem) uma reunião com o Contran para apresentar uma proposta de nova placa especial para carros no Brasil. Seria uma placa amarela para veículos especiais como réplicas, triciclos e talvez até clássicos com menos de 30 anos. Algo que daria a esses veículos um tratamento diferente, inclusive nessa palhaçada da inspeção veicular que só serve, pelo menos em SP, para reforçar o caixa da CCR, dona da Controlar. Como ficou muito claro nos comentários e testemunhos de dezenas de pessoas nestes posts aqui, a inspeção paulista é fajuta, imprecisa, uma porcaria.

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BOICOTE JÁ

SÃO PAULO (nem ficam vermelhos) – Nem preciso dizer que sou o maior entusiasta do mundo de eventos de carros antigos. De todos, dos menores aos maiores. Pois eis que fico sabendo que dos dias 10 a 12 de setembro vai acontecer no Pavilhão de Exposições do Anhembi o primeiro salão internacional de veículos antigos da cidade, batizado com o nome besta de “São Paulo Fashion Car 2010″. Quem promove é o Automóvel Clube do Brasil.

Vamos malhar o Judas, agora. Segue parte do release, do jeito que me mandaram:

O Automóvel Clube do Brasil tem o prazer em convidar aos Amigos Colecionadores e Admiradores do Antigomobilismo a participarem do primeiro “Salão Internacional de Veículos Antigos” da Cidade de São Paulo, em parceria com a Reed Alcântara Machado, Prefeitura Municipal de São Paulo e SP Turismo; Trata-se do São Paulo Fashion Car 2010, que será realizado de 10 a 12 de Setembro no Pavilhão do Parque de Exposições do Anhembi.

O “São Paulo Fashion Car” será um evento cultural onde teremos o resgate histórico Automobilístico através dos Automóveis Clássicos Antigos, da Moda, da Música e de Palestras técnicas sobre o tema Designer, o evento foi inserido no calendário oficial da cidade e será realizado todos os anos na semana da Pátria.

Veículos Clássicos com mais de 30 anos e em impecável estado de conservação, poderão participar da exposição, do leilão e concorrer a um dos prêmios que será oferecido aos melhores de cada categoria e ao prêmio máximo, “São Paulo Fashion Car”; Participe da Pré seleção.

Não eliminei erros ortográficos, nem de pontuação, nem a interessante palestra sobre “Designer” (não seria “design”?). Os organizadores que contratem um revisor, ou alguém que saiba escrever em português.

Não vou participar desse negócio, claro. Aliás, acho que todos os colecionadores e proprietários de clássicos deveriam boicotar esse evento. Como é que a Prefeitura tem a cara-de-pau de patrocinar um encontro de carros antigos no momento em que ela, Prefeitura, é a grande algoz dos colecionadores com essa picaretagem da inspeção veicular?

Picaretagem porque, insisto, a inspeção discrimina os carros antigos. Não contempla a diferença. Exige que carros de coleção sejam tratados como carros de uso normal. “Ah, mas os que têm placa preta são isentos”, dirá alguém. Verdade. Mas colocar placa preta nos atira nas garras dos clubes, das vistorias, dos despachantes. Se eu tenho um carro com mais de 30 anos de fabricação, deveria ter o direito de não colocar placa preta nele, não? Coloco se quiser. Se tiver grana para pagar todas as taxas. Se quiser ser sócio de um clube.

Por que a Prefeitura não aproveita o ensejo para montar um posto de inspeção da Controlar no Anhembi para colocar o selinho nos carros antigos? Ou para isentar todos os que se apresentarem, tenham placa preta ou não? Ou para discutir uma legislação específica para carros antigos em bom estado?

Não vão fazer nada disso, claro. Então, boicote ao evento. É tudo que posso sugerir àqueles que estão sendo tratados como inadimplentes pelos governos municipal e estadual porque não conseguem passar com seus clássicos por essa máfia da inspeção veicular.

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ALÔ, CONTROLAR

SÃO PAULO (não me surpreende) – Digamos que o post da semana passada sobre a reprovação do meu Gol 82 modelo 83 na inspeção veicular teve uma certa repercussão. Muito obrigado aos que se solidarizam com minha condição de cidadão reprovado pelo Sistema. Mas não sou o único, e recebi várias mensagens interessantes sobre o tema.

Uma delas foi do blogueiro Euclides Bimbatti Filho. Ele permitiu que usasse seu nome, e apenas tive o cuidado de apagar a placa e o Renavam de seu carro, uma Mercedes SLK 2008/2009.Bem mais novinho que meu Gol 82 modelo 83.

A denúncia é grave. E espero que a Controlar, que faz essa papagaiada, se manifeste. Mostra que os equipamentos usados para a inspeção são uma porcaria. E seus resultados, portanto, pouco confiáveis. E a bravata de que “estamos cuidando do meio-ambiente” não passa disso, uma bravata.

Vejam:

Em 13/05/2010, conduzi meu veículo ao posto de vistoria veicular do Jaguaré, o qual foi reprovado por excesso de emissão de COc (% vol.), conforme a imagem ao lado.

O veículo é um Mercedes Benz ano 2008/2009 SLK 200. Esse veículo tem 14.000 km e só é abastecido com gasolina Podium, sempre no Posto Petrobras da Rua Hungria, logo após a Ponte Cidade Jardim.

Remarquei a vistoria para 26/05/2010 .

Não foi feito absolutamente nada no veículo, ou seja, não houve regulagem, limpeza de bicos, troca de velas ou qualquer outra providência. Dessa vez a Controlar mediu 0% de emissão.

Faço esse depoimento, pois entendo que como usuários pagantes de um serviço imposto e punitivo estamos sendo forçados a nos submeter, e a nossos veículos, a equipamentos sem padrão de uniformidade de calibração e a funcionários despreparados, o que leva muitos motoristas a promever em seus veículos revisões e troca de peças desnecessárias, na esperança de serem aprovados na inspeção veicular.

A par disso, continuamos sem iluminação pública, sem sinalização adequada em nossas ruas, sem policiamento preventivo e amigo, sem pavimentação , sem quase tudo o que cabe ao poder público.

Temos, porém, todos os deveres, que na verdade se resumem a: pagar, pagar e pagar — IPVA, IPTU, taxa de iluminação, taxa de lixo, taxa de licença para funcionamento, seguro obrigatório, taxa de licenciamento, taxa de fiscalização e TAXA DE INSPEÇÃO VEICULAR.

Agradeço sua atenção.

Um fraternal abraço

Euclides Bimbatti Filho

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REPROVADO

SÃO PAULO (dura, a vida) – Fiz minha estreia na Inspeção Veicular. Descobri que os carros com placas pretas realmente estão isentos, o que é uma ótima notícia, porque o sistema, incrível, reconhece isso. O Sistema. Chamá-lo-ei a partir de agora, o Sistema, assim, como entidade superior: começando com maiúscula.

Tenho alguns carros cuja placa termina em 1 e o prazo expirou, ou está expirando. Sei que recebi uma intimada para levar meu Gol 82/83 a ar para a Inspeção, igualmente outra entidade, maiúscula.

Levei. Agendei, só tinha data disponível lá na puta-que-o-pariu-sem-número, onde os terrenos são mais baratos e a empresa que faz isso gasta menos em aluguel. Peguei o carro do jeito que ele é. Um carro que nos últimos três anos rodou 1.500 km, mas está com óleo novinho, todas as luzes funcionando, freio em dia, cinto de segurança e rádio que pega até AM. Nada de errado com meu Golzinho, por isso não fiz uma “pré-inspeção”, como muita gente faz, porque essa merda virou outra indústria de tomar dinheiro dos trouxas, nós.

Paguei a guia pela internet, fui à  puta-que-o-pariu-sem-número e percebi que estamos, mesmos, fodidos por causa do Sistema. Na entrada, um cara me disse uma frase de  sete palavras: “Escolha uma linha e espere na fila”. Nem bom-dia, boa-tarde, seja-bem-vindo. Escolhi uma fila. Um outro cara se aproximou, de máscara, e disse apenas: “Retire seus objetos pessoais, abra o capô e espere na faixa amarela”. Foi o que fiz, retirei meus objetos pessoais, abri o capô e fui esperar na linha amarela. Mas devo dizer que deixei alguns objetos pessoais no porta-luvas. E desliguei o motor. Não sei se podia.

Enquanto esperava na faixa amarela, outro robô de máscara pegou meu carro e o levou até o box, ou sejá lá que nome tem essa merda. Abriu o capô que quase arrancou a tampa, o desgraçado. Começou a procurar alguma coisa no motor para conectar uns cabos. Não encontrou, provavelmente porque nunca viu um Gol com motor a ar e dois carburadores na vida. Depois, passou um espelho por baixo do carro. Como fazia a Stasi em Checkpoint Charlie, para ver se tinha alguém pendurado no assoalho para fugir para Berlim Ocidental.

Aí enfiou um tubo no escapamento, ligou o carro e ficou acelerando feito um alucinado. E eu na linha amarela com meus objetos pessoais.

Isso feito, desligou o carro, fechou o capô como se fosse a geladeira velha da casa dele, tirou um papel de uma impressora, entregou a outro robô de máscara, que tirou o carro do box e me chamou com um gesto. Fui até ele, com meus objetos pessoais, e recebi um papel e uma explicação. Não entendi porra nenhuma. Mostrou que o HCc (ppm vol.) estava muito alto e me mandou levar o carro numa oficina.

No papel, o veredito: VEÍCULO REPROVADO – ANO EXERCÍCIO 2010.

O Sistema reprovou meu Gol para o Ano Exercício 2010 e acabou. O Sistema tem valores de referência para emissão de poluentes. O Sistema não tem na sua memória, porém, dados sobre emissão de poluentes permitidos em 82, modelo 83. Meu carro não é obrigado a se comportar como um Corolla ou uma Tucson. Meu carro tem carburadores. O Sistema é burro, e não me dá chance de argumentar com os robôs. Argumentar que meu carro não pode emitir os mesmos poluentes que um Corolla ou uma Tucson. Argumentar que meu carro rodou 1.500 km em três anos e poluiu menos o planeta do que o inspetor do meu carro depois de comer uma feijoada. Argumentar que é um carro de coleção. A gente não pode mais falar com ninguém, porque o Sistema não fala. Ele te fode e pronto.

Saí sem saber o que fazer e cantei os pneus como forma de ridículo protesto. E caí na Marginal do Rio Pinheiros me sentindo um pária, reprovado pelo prefeito, pelo governador, pelo secretário do Meio-Ambiente. E fui refletindo sobre esta minha nova condição, de cidadão reprovado, que terá seu nome incluído na dívida ativa do Estado, porque no ano que vem não conseguirei licenciar meu carro que roda 1.500 km a cada três anos.

Foi quando me vi neste aprazível local abaixo.

Marginal do Rio Pinheiros, circa uma da tarde. Trânsito parado. Não é horário de pico, não houve nenhum terremoto, mas o trânsito estava parado, claro. Carros demais, transporte público de menos, caminhões enormes em perímetro urbano, motoqueiros nos “corredores” entre as faixas…

Quer saber? Decidi reprovar o trânsito. Reprovado, pelo meu Sistema, pela minha Inspeção Veicular. Reprovei o prefeito, o governador e o secretário. Não dá para aguentar um trânsito assim, gasta-se muito dinheiro, perde-se muito tempo, polui-se demais o ar. Mais do que meu Gol 82 modelo 83. Bem mais. Reprovado.

Quando olhei para a esquerda, oh, que bela paisagem. Parei numa baia apropriada e fiz o seguinte retrato:

Eis o rio Pinheiros, que corta a cidade e que deveria, como em qualquer cidade civilizada, ser um núcleo de vida, beleza, natureza. É um puta esgoto do caralho. Urubus, garrafas pet, lixo e merda por todos os lados. Um cheiro de vomitar. É um espaço público.

Quer saber? Decidi reprovar o rio Pinheiros. Está reprovado, monte de merda que não é tratada, que infecta o ambiente e as pessoas, criadouro de doenças, gosma nauseante para a qual o prefeito, o governador e o secretário que reprovaram meu Gol 82 modelo 83 estão cagando e andando. Vou-me embora. Mas, ôpa, o que é isso aqui?

Ora, ora, ora… Lixo na baia, muito lixo. Tem até um pneu lá na frente, estão vendo? Água parada ali é dengue na certa. Quem seria o responsável pela manutenção dessa avenida? Por recolher o lixo, carpir o mato? O Sistema? Não sei, é impossível conversar com o Sistema. Mas é feio, uma sujeira da porra, coisa mais nojenta, desleixo absoluto.

Quer saber? Decidi reprovar a Marginal do Rio Pinheiros e aqueles que são os responsáveis por sua limpeza, pelo asseio, pelos bons costumes em logradouro público. Está reprovada, Marginal. E nem venha falar comigo, meu Sistema está inoperante. Fale com o prefeito, com o governador ou com o secretário.

Vamos seguindo. Mas… Êpa, o que é isso?

Esse prédio enorme não é aquele cuja construção foi embargada séculos atrás? Porque o prefeito aprovou a planta e a construtora fez mais alto do que devia? Porque prejudica os aviões que vão pousar em Congonhas, colocando a segurança dos voos em risco? O que é que está fazendo aí, ainda? A Justiça não mandou derrubar, ou desmontar os últimos andares? Sim, mandou. E aí, prefeito? E aí, governador? E aí, secretário?

Quer saber? Reprovei o prédio. Está reprovado, inapelavelmente. Nem adianta reclamar, meu Sistema não conversa com ninguém. Mas, pelo jeito, andaram falando com outros Sistemas, não com aquele que transformou meu Gol 82 modelo 83 num risco à população, mas com outros mais maleáveis, afinal o prédio ainda está aí, pintadinho da silva, alguma coisa está acontecendo com esse Sistema que, para alguns, é mais maleável do que aquele que condenou meu Gol 82 modelo 83.

Mas vamos trabalhar, o dia segue. Rua Tabapuã, Itaim-Bibi, chiquérrimo. Ei, o que é isso aí?

Me parece uma rua com faixa exclusiva de ônibus, mas tem um ali que está na outra faixa. Concessão municipal, o serviço de ônibus, não é mesmo? Esse ônibus não pode estar aí. Atrapalha o trânsito, espreme todo mundo. Onde estão os agentes de trânsito? Os caras que deveriam multar esse motorista mal-educado? Ou orientar o coitado atravessando a rua no meio das motos, dos carros, dos ônibus?

Quer saber? Decidi reprovar o ônibus, o sistema municipal de transportes e os agentes de trânsito. Estão todos reprovados no meu Sistema, se quiserem se queixar, que procurem o bispo. Meu Gol 82 modelo 83, convertido em vilão nacional pelo prefeito, pelo governador e pelo secretário, trafega pela faixa correta. Respeita as leis. Mas é um cão-danado, aos olhos do Sistema.

Estava ficando irritado, disposto a não pensar mais nessas coisas, quando…

Um saco de lixo não recolhido? No meio da calçada? Onde estão as lixeiras? Onde está o serviço municipal que recolhe os sacos de lixo? Se começar a chover e uma enxurrada levar esse saco até uma boca-de-lobo, vai ter enchente. E se meu Gol 82 modelo 83 estiver passando pelo local alagado, pode pifar. Pode submergir. Posso perder meu Gol 82 modelo 83. Será que é isso que querem o prefeito, o governador e o secretário? Eliminar meu Gol 82 modelo 83 porque ele foi reprovado pelo Sistema?

Quer saber? Decidi reprovar o serviço de coleta de lixo da cidade. É ruim, porco, deficiente, superfaturado, uma merda. Meu Sistema, hoje, estava rigoroso. Reprovando tudo. Mas, felizmente, estava chegando ao meu destino, onde poderia pensar com um pouco mais de calma sobre o que fazer com meu Gol 82 modelo 83. Foi quando vi isso aí.

Sim, é um homem estendido no gramado. Um morador de rua. Que não tem onde viver, onde dormir, o que comer. Derrotado pelo Sistema, jogou-se na grama com seus objetos pessoais, um cobertor velho, alguns sacos plásticos de supermercado, trapos imundos cobrindo seu corpo sujo e maltratado, talvez tenha uma caneca, um maço de cigarros, uma garrafa de cachaça.

A ele, nem o prefeito, nem o governador, nem o secretário deram atenção hoje. Preocuparam-se com o HCc (ppm vol.) acima da média do meu Gol 82 modelo 83.

E decidi reprovar os três mais uma vez, e nem quero nada de nenhum de vocês três, prefeito, governador e secretário, com relação ao meu carro e aos meus problemas mundanos como o trânsito, o rio fétido, o pneu largado na avenida, o prédio que derruba aviões, o ônibus na faixa errada, o lixo na calçada.

Tirem esse homem da rua. Se o fizerem, eu juro que farei de tudo para reduzir o HCc (ppm vol.) do meu Gol 82 modelo 83.

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