Arquivo da categoria: Pequim 2008

AO OURO

SÃO PAULO (não vai acabar nunca) – Suponho que durante o mês olímpico esse vídeo tenha circulado à farta pela internet, mas como eu ainda não tinha visto, e dei boas risadas, por que não dividi-las? Quem me mandou foi o canalha do Marcelo di Lallo. Para mim, o melhor é o cara do ciclismo. O do salto com vara leva um pódio.

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ISSO PODE?

PEQUIM (ui) – Eu não ia mais falar de Olimpíada, mas é que essa foto… Quem mandou foi meu guru Carlos Leonam, questionando a liberalidade dessa tal de luta livre. “Pode tudo, até isso?”, pergunta. Se alguém descobrir os nomes das moças, agradeço. E se alguém souber quem ganhou a luta, agradeço mais ainda. E se alguém adivinhar o que a de cima está falando para a que está embaixo, beleza pura!

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MEU OURO

PEQUIM (fiquei em último) – Eu, Fábio Sormani, Maurício Teixeira e Nara Alves, o quarteto do iG em Pequim (que neste exato momento é um time de um só, porque o trio já se foi), fizemos um quadro de medalhas particular, escolhendo as “conquistas” de cada um nas diversas arenas em que acompanhamos as competições. Assim, por exemplo, Sormani foi à final do vôlei feminino e contou um ouro para ele. A Nara assistiu a todos os recordes do Phelps e, sem grande cerimônia, apoderou-se dos oito ouros do americano. Maurício fez uma salada geral, contabilizando as medalhas do Usain Bolt, da Maurren Maggi e da Elena Isinbaeva. Os três também se apropriaram de algumas pratas e bronzes no judô, basquete, vôlei de praia e ginástica. A Nara apelou até para o arco e flecha.

Meu desempenho foi horroroso, porque acabei escolhendo os esportes errados para eleger meus favoritos. Terminei os Jogos com uma prata, da seleção feminina de futebol do Brasil, e um ouro da Hungria na final do pólo aquático masculino (mas pelo menos fiz um vídeo da “minha” medalha!). Essa performance colocaria Gomeslândia em 46º no quadro de medalhas, ao lado de Bélgica, República Dominicana, Estônia e Portugal. Um vexame.

Vou aguardar a chegada do trio a SP para que eles me mandem as listas completas de suas medalhas. Aí vamos ver quem foi o campeão, ou a campeã, nesta competição desigual entre minha pequena nação socialista e as potências Sormaniland, com conexões americanas, Teixeirópolis, com fortes ligações no interior do Paraná, e Narásia, uma estrela esportiva do Pacífico.

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TODOS AQUI

PEQUIM (chove lá fora) – Enquanto meu avião não sai, e é só amanhã, vamos tentar colocar a vida bloguística em dia… Mas, antes, algo que eu eu queria mostrar aqui desde o dia em que cheguei a Pequim, mas acabei esquecendo. Os mais velhos se lembram que em São Paulo, antes de a Telefônica comprar a Telesp e pintar tudo de amarelo-camisa-reserva-do-Palmeiras, os orelhões de todo o Estado eram cor-de-laranja.

Pois eles sumiram do mapa, e fui encontrá-los lépidos e faceiros na capital chinesa, vejam só… A foto do original, abaixo, eu emprestei deste ótimo blog fotográfico de Alexandre Gabriely.

E notei que está tão difícil de achar fotos de orelhões antigos na internet quanto na ruas. Mas consta que alguns laranjões ainda resistem bravamente, principalmente em bairros de periferia.

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FIM

PEQUIM (hi, London) - A China termina seus Jogos como campeã absoluta nas medalhas de ouro, com 51, mas perdendo para os EUA no total: 110 x 100. Assim, a imprensa americana dirá que os EUA ganharam, e o resto do mundo dirá que a China ganhou.

O que não tem a menor importância.

Serão muitos os balanços baseados em números, todos muito interessantes, que vão pipocar na imprensa especializada nos próximos dias: o crescimento de um país, a queda de outro, a relação medalha/habitantes, ouros per capita, recordes, PIB, IDH, tudo. Digo que são interessantes porque o esporte, em muitos casos, é o espelho de uma nação. E, normalmente, os países mais desenvolvidos acabam à frente daqueles que ainda têm coisas para resolver.

Oh, grande novidade.

A novidade é que não é sempre assim. O Brasil, por exemplo, terminou os Jogos de Pequim à frente da Dinamarca, da Suíça, da Finlândia e da Bélgica. Não quer dizer que seja um país mais aprazível para se viver do que esses todos. E ficou atrás da Jamaica, do Quênia e da Etiópia. Sendo muito sincero, eu não trocaria as ruas esburacadas da minha querida e problemática São Paulo pelas ervas jamaicanas, pelos rinocerantes quenianos ou pelo famélico landscape etíope.

O resultado final de um país numa Olimpíada indica, na maior parte das vezes, como ele se preparou esportivamente, e qual o grau de prioridade com que distingue certas modalidades. Só isso. A Dinamarca e a Finlândia, por exemplo, estão cagando e andando para os 100 m rasos ou para o futebol. Mas vai ver o que eles fazem nos Jogos de Inverno com esquis e patins. É tudo uma questão de prioridade.

Dos 204 comitês olímpicos nacionais inscritos para os Jogos, 87 foram agraciados com ao menos uma medalhinha. 55 ganharam medalhas de ouro. Sete ficaram com apenas um bronzezinho, e acho que cada um desses sete merece uma lembrança: Afeganistão, Egito, Israel, Moldávia, Ilhas Maurício, Togo e Venezuela. No total, foram distribuídas 958 medalhas, 302 de ouro, 303 de prata e 353 de bronze.

O Brasil ficou em 23º no quadro de medalhas, com três de ouro, quatro de prata e oito de bronze. Pelo critério de total de medalhas, as 15 brasileiras colocam o país em 17º. Igualou-se o recorde particular de Atlanta/1996, também com 15. Mas não o desempenho de Atenas em ouros, cinco.

Isso tudo, de um ponto de vista muito pessoal, também não tem a menor importância. Alguém haverá de dizer, se já não disse, que o Brasil foi demais, nunca chegou a tantas finais, está na cara que está crescendo “a nível internacional” e tudo mais. Alguém haverá de dizer que foi uma merda completa, que a ginástica foi um fiasco, que o judô deveria ter trazido um ouro, que a natação foi um embuste, tirando o Cesar Cielo, que o futebol foi uma vergonha e todo mundo terá razão, tanto aquele que achou que foi demais, como aquele que achou uma bosta.

Eu não achei nem uma coisa, nem outra.

Achei que um mês de China iria me encher o saco, porque ando meio impaciente, ultimamente, com quase tudo. Achei que um mês de China seria um transtorno que colocaria minha vida de ponta-cabeça, porque no fundo ando me preocupando com muita coisa irrelevante, ultimamente. Achei que um mês de China, no fim das contas, para quem já fez tantas coisas na vida, seria apenas isso: um mês num país que não me diz nada de especial.

Mas não foi.

Cheguei há pouco mais de 20 dias, e quando tento me lembrar desse distante dia 1, parece que foi em outra vida. O primeiro contato com o apartamento, com minha nova cama, meu novo banheiro, a vista da janela, a gaveta dos talheres, o açucareiro improvisado, o prato da manteiga, a torradeira, o café solúvel, a textura da toalha, a visita ao supermercado, o cálculo dos preços, a nova portaria, o novo elevador, a mão das ruas, os cheiros das calçadas, os sons das buzinas, o encontro com os colegas da TV, a primeira visão do Parque Olímpico, a imersão nos estúdios, o lugar na sala de imprensa, o gosto da comida, a chegada do trio, o pub da primeira noite, o restaurante da segunda, os bares da terceira, e grava, e escreve, e entrevista, e telefona, e vai até ali, e volta para cá, e encontra um, e encontra outro, e tudo começa a ficar familiar, uma nova vida vai se construindo a cada minuto, a cada visão pela janela do táxi, a cada caminhada sob o sereno da madrugada pelas alamedas de Chaoyang.

Como se vê, é muito mais do que um evento, mas um mergulho mesmo numa nova vida, em que não há dois dias iguais, porque eles são pautados por aquilo que não é a sua vida normal, um dia é um jogo, no outro é um salto, e depois um mergulho, e uma cesta, e um saque, e uma decisão, e um choro, e uma explosão de alegria, estamos aqui para isso, afinal. E quando o dia termina, e esticamos o dia ao máximo, esperando que mais novidades nos sejam apresentadas pelo acaso, porque só as agendas esportivas já não nos bastam, o sono passa a ser quase um estorvo, porque aí queremos mais e mais, sugar os dias até o bagaço, como sobreviventes de uma catástrofe nuclear que sabem que em algumas horas estarão deformados e mortos, e por isso cada segundo, cada um deles, tem de ser muito especial.

Foi isso, a minha Olimpíada. Não me comovi com recordes, mas me comovi com a noite calada das ruas de Pequim e com a maciez da pele de algodão nos bancos dos táxis que começavam e terminavam meus dias admiravelmente novos. Não me comovi com medalhas, mas me comovi com passeios que imagino terem sido longos por um parque onde algumas pessoas ainda andam de mãos dadas. Não me comovi com vitórias, mas me comovi com a simplicidade de um gesto, de um olhar e de um sorriso oriental. Não me comovi com derrotas, mas me comovi com a redescoberta da cumplicidade entre amigos velhos e novos.

Me comovi com os longos silêncios e com o reencontro comigo mesmo, com algumas lágrimas e gargalhadas que não julgava mais ser capaz de.

Me comovi porque aconteceram tantas coisas que eu achava que não aconteceriam mais.

Olho para o lado agora e tenho a impressão de que só eu tenho essas idéias distorcidas de algo que, provavelmente, não passa do que é. Que estou ficando piegas e bobo, que deveria fazer o que todos ao meu lado fizeram nestes dias, trabalhar mais, furiosamente, ver tudo, estar em todos os lugares, vibrar, socar o ar. E por isso fico de novo com a sensação de que fiz muito menos do que todos, muito menos do que poderia, muito menos do que deveria.

Mesmo assim, quando voltar levando tal remorso na bagagem, sei que vou chegar e sentir um vazio no estômago. Talvez o mesmo vazio que esta cidade vai sentir amanhã, quando tantas vidas que vieram até aqui com dia marcado para ir embora começarem a partir.

E as minhas 20 e poucas vidas novas de 20 e poucos dias diferentes em Pequim irão aos poucos se transformar em lembranças que com o passar do tempo ficarão esfumaçadas, difíceis de enxergar e de compreender, o que é uma pena, porque eu queria lembrar de tudo para sempre.

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E O VÔLEI PERDEU…

PEQUIM (cada segundo valeu) - Foi de manhã, já é de noite, mas o dia foi cheio e estranho, e até final do pólo aquático cobri, daí a demora. O vôlei masculino perdeu o ouro para os EUA, o que não foi propriamente uma surpresa. Desde a primeira derrota, para a Rússia, a blogaiada já vinha falando dessa possibilidade.

Mas o vôlei brasileiro continua sendo forte como sempre, perder faz parte do jogo, os EUA foram muito bem e não sei nem por onde começar a avaliar técnica e taticamente uma partida de vôlei. Notei que os jogadores lutaram, e se não deu, não deu.

Talvez surjam algumas polêmicas sobre Bernardinho, Ricardinho, Bruninho e outros inhos, mas não diria que elas serão mais eloquentes do que as discussões sobre o meião do Roberto Carlos na Copa da Alemanha, por exemplo. O que a equipe percebeu é que não é imbatível, como não foi na Liga Mundial.

Uma curiosidade… Nesse post linkado acima, do dia 14, surgiu nosso querido Confúcio no blog. Mas hoje ele está meio down, sem vontade de falar nada. “Eles vão todos embora, não vai ter mais ninguém aqui amanhã para me ouvir, vou dizer o quê?”, queixou-se ao seu fiel discípulo Gah-Fang-Yotung, cabisbaixo. “Então eu posso falar alguma coisa?”, perguntou Gah-Fang-Yotung todo espevitado. E Confúcio, desanimado, respondeu: “Fica quieto, você só fala besteira”.

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TÉCNICO SUPERPODEROSO

PEQUIM (ainda rolando o outro…) – E se você ainda não leu, leia no trabalho do Fábio Sormani a entrevista de José Roberto Guimarães depois de conquistar seu segundo ouro olímpico no vôlei, agora com a seleção feminina. Em 1992, todos lembram, ele era o técnico do masculino em Barcelona.

Não sei como vai acabar a final dos meninos (o jogo está muito duro), mas sei que o vôlei é o único esporte realmente bem-sucedido no Brasil nos últimos anos. Tem técnicos excepcionais, jogadores idem, um campeonato forte, apesar da exportação de talentos, renovação constante, patrocínios, dinheiro.

Tem tudo que precisa, enfim. É um negócio que deu certo, e que começou lá longe, nos anos 80, com aquela turma ótima de quadra e muito boa de mídia, Bernard, William, Xandó, Jornada nas Estrelas, Viagem ao Fundo do Mar, jogo no Maracanã, os clássicos entre Pìrelli e Atlântica Boavista…

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MENINO SUPERPODEROSO

PEQUIM (que acorda cedo) – E se as meninas brasileiras merecem todos os aplausos, o mesmo vale para o australiano Matthew Mircham, ouro nos saltos ornamentais, que não tem o menor problema em assumir sua condição de homossexual. É mais um que entra na categoria “o cara” dessa Olimpíada.

Que está chegando ao fim. Foi estranho olhar para o céu de Pequim pela manhã e perceber que tudo acaba hoje.

Eu não queria.

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MENINAS SUPERPODEROSAS

PEQUIM (dá-lhe!) – As duas medalhas conquistadas hoje, por Natália Falavigna e pelo vôlei feminino, bronze e ouro, fazem de Pequim/2008 a melhor Olimpíada das meninas brasileiras em todos os tempos. Elas são responsáveis por seis das oito ganhas pelo Brasil até o penúltimo dia dos Jogos.

Um pouquinho de estatísticas, antes de fazer odes a estas moças, lindas moças, que tudo merecem de bom. A melhor Olimpíada feminina para o Brasil tinha sido a de Atlanta, em 1996: um ouro (vôlei de praia), duas pratas (vôlei de praia e basquete) e um bronze (vôlei). Até hoje, aqui, eram um ouro (Maurren Maggi no salto em distância), uma prata (das meninas do futebol) e dois bronzes (um no judô, de Ketleyn Quadros, e outro no iatismo, classe 470, de Fernanda Oliveira e Isabel Swan).

A estas quatro medalhas juntaram-se hoje as do taekwondo de Natália e a incrível conquista do vôlei, que fechou o torneio derrotando os EUA por 3 a 1 na final. As meninas dirigidas por José Roberto Guimarães perderam apenas um set durante todos os Jogos. Zé Roberto, figura discreta e tranquila, autor de façanha rara: bicampeão olímpico, com o time masculino em Barcelona/1992 e com as garotas agora. Palmas para ele.

E para todas elas. Até os Jogos de Atenas, as mulheres tinham conquistado apenas dez das 76 medalhas que foram parar em peitos brasileiros na história olímpica. A primeira demorou muito, só veio em 1996, e foram quatro no total daquela Olimpíada. Em 2000, Sydney, mais quatro. Na Grécia, duas.

Não é preciso dizer que as mulheres, como sempre, estão mostrando que são melhores que os homens. OK, a superioridade numérica ainda é masculina, mas é preciso colocá-la em perspectiva. O Brasil disputa os Jogos desde 1920, em Antuérpia. A primeira delegação a levar uma mulher, uma só, foi a de 1932, em Los Angeles. Até 1976, em Montreal, pode-se dizer que as participações femininas eram praticamente nulas. Houve Jogos em que apenas uma menina representou o Brasil, como em Melbourne (1956), Roma (1960) e Tóquio (1964).

Foi em Los Angeles/1984 que, pela primeira vez, as mocinhas passaram das duas dezenas entre os marmanjos brasileiros: 22. E aí o número foi crescendo: 35 em Seul/1988, 51 em Barcelona/1992, 66 em Atlanta/1996, 94 em Sydney/2000 e 122 em Atenas/2004. Aqui, 127.

Elas vão dominar o mundo.

Não vejo a hora.

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A NBA E O FUTEBOL

PEQUIM (pena que acaba) – Terminou hoje no começo da tarde o torneio masculino de futebol e a Argentina, que nos “profissionais” não ganha nada faz tempo, conseguiu o bi olímpico com Messi & cia., depois de muita discussão sobre a participação de jogadores com mais de 23 anos nos Jogos. Na repetição da final de 1996, os vizinhos do Rio Grande derrotaram a Nigéria por 1 a 0, gol de Di Maria. Há 12 anos, os africanos levaram o ouro com uma vitória por 3 a 2. Hoje, até que tentaram repetir a dose. Mas esbarraram numa equipe melhor.

O Brasil ficou com o bronze, ontem, ao passar fácil pela Bélgica, 3 a 0, em Xangai. Felizmente a CBF não permitiu que se repetisse o vexame de Atlanta/1996, quando a seleção não apareceu na premiação para receber suas medalhas, conquistadas um dia antes da final. Hoje, todos foram direitinho ao Ninho, e Ronaldinho Gaúcho, cada vez que aparecia no telão, era aplaudido animadamente pela chinesada toda.

E a polêmica do futebol em Olimpíadas vai se alastrar logo, logo para o basquete, depois que alguns jogadores que atuam na NBA se machucaram em Pequim, prejudicando as franquias americanas (é um horror chamar times e/ou clubes de “franquias”, mas é isso mesmo que são as equipes da NBA; no que diz respeito à sua posição na economia de mercado, o Detroit Pistons está muito mais para Burger King do que para, sei lá, Real Madrid).

Ontem, na semifinal do basquete masculino entre EUA e Argentina (101 x 81 para os americanos), um dos astros da NBA, o argentino Manu Ginobili machucou feio o tornozelo e pode ser que tenha de operar. Ele joga pelo San Antonio Spurs, que não se conforma com a contusão do rapaz. Assim como o Los Angeles Clippers lamenta a contusão do alemão Chris Kaman, o Milwaukee Bucks chora a lesão do australiano Andrew, o Chicago Bulls reclama do que aconteceu com o argentino Andre Noicioni…

A NBA considera que uma Olimpíada exige demais de seus pobres jogadores, o que não é verdade, porque numa temporada regular do campeonato americano os caras jogam 82 partidas por ano. Os times que vão aos playoffs sofrem mais ainda. É um massacre. Na Olimpíada, são oito jogos no máximo. Num período curto, é verdade, mas não acima da média do torneio dos EUA.

A FIBA, que vem a ser a Federação Internacional de Basquete, já vem sendo pressionada para, por sua vez, pressionar o COI a fazer com o basquete o mesmo que faz com o futebol: estabalecer uma idade máxima para os jogadores disputarem o torneio olímpico, talvez 23 anos, o que baixaria bem o nível técnico da competição, sem dúvida, e não colocaria em risco as estrelas da NBA.

No mundo, talvez apenas os EUA sejam capazes de formar uma seleção muito forte apenas com garotos de até 23 anos. É só catar a molecada nos campeonatos universitários. Os outros países dificilmente teriam condições de montar equipes boas o bastante para competir com os americanos. É discussão que virá à tona assim que terminarem os Jogos de Pequim. E não deve demorar muito para que se chegue a alguma conclusão. A NBA quer que já na Olimpíada de Londres, em 2012, seus jogadores sejam apenas espectadores.

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AOS NANICOS

PEQUIM (por hoje deu) – Hoje não sai mais medalha alguma por aqui. Para o Brasil, foi o dia mais fértil, com o ouro de Maurren Maggi (salto em distância), uma prata (Márcio & Fábio) e um bronze (Ricardo & Emanuel) no vôlei de praia e um bronze no futebol masculino (Dunga & demais anões). Quatro das 12 conquistadas pela delegação do COB — duas de ouro, três de prata, sete de bronze, que deixam o Brasil em 26º no quadro de medalhas, entre o Quênia, à frente, e a Dinamarca, atrás, e esse é nosso eterno dilema: adoraríamos ser uma Dinamarca, mas não conseguimos e vivemos flertando com a condição de Quênia sul-americano (grande besteira, mas a esta hora há de ser perdoada).

Pelo jeito, vêm mais dois ouros por aí, nos vôleis de quadra, já que ambas as equipes estão nas finais e jogando bem. Há uma chance, também, no taekwondo feminino, com Natália Falavigna amanhã — ela foi quarta colocada em Atenas, prata no Pan, campeã mundial em 2005, tem um bom currículo. E, talvez, algo na maratona, mas aí é difícil prever, em maratona e em jogo da Portuguesa, tudo pode acontecer.

Uma dúzia de medalhas. Com as duas garantidas no vôlei, no mínimo de prata, são 14, o que será o melhor resultado do Brasil, em total de medalhas, desde as 15 de Atlanta em 1996. Em ouros, porém, vai ser difícil superar os cinco de Atenas/2004.

No quadro geral, a China continua lavando a égua com 47 ouros, 17 pratas e 25 bronzes, totalizando 89. Os EUA têm 31 de ouro, 36 de prata e 35 de bronze (102 no total). A URSS, que vimos monitorando aqui desde o início, teria 123 se ainda existisse. Suas repúblicas somam até agora 29 de ouro, 35 de prata e 59 de bronze.

São 77 os países que estão levando medalhas para casa até agora. Na ponta de baixo da tabela, nove conseguiram apenas um bronze e estão felizes da vida. Entre eles, o mutilado Afeganistão (estou lendo um livro lindo sobre o país e por isso fico contente por eles) com Nikpai Rohullah, no taekwondo, o Egito (que é bom de pirâmide, mas péssimo de esporte) com Mesbah Hesham, no judô, Israel (que não tem tempo para isso) com Zubari Shahar, na vela, e a gloriosa República da Moldávia, que faturou sua medalhinha no boxe com Gojan Veaceslav.

Este post, para fechar o dia, é então dedicado aos “nanicos”, em especial a Rohullah (na foto ao lado e nas páginas dos jornais de Cabul), que conquistou para os afegãos sua primeira medalha olímpica.

Não é nada fácil conseguir as coisas por aqueles lados.

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MARLEY, CLIFF & BOLT

PEQUIM (dá pena dos outros) - A equipe de velocistas da Jamaica fechou com chave de ouro sua participação em Pequim, com mais um ouro acompanhado de recorde mundial, no revezamento 4 x 100 m (37s10). O time: Nesta Carter, Michael Frater, Usain Bolt e Asafa Powell, pela ordem de entrada na pista. Colocaram quase 1s no quarteto de prata, de Trinidad & Tobago. Os brasileiros ficaram em quarto, muito perto da medalha, com 38s24 (os japoneses, bronze, fecharam a prova em 38s15).

Bolt, depois de passar o bastão a Powell, continuou correndo, me relatou o Maurício Teixeira, direto do Ninho. Acompanhou o colega por alguns metros, gritando e incentivando. Foi o máximo. São o máximo, esses caras. E a pequenina Jamaica, de Bob Marley e Jimmy Cliff, está em 11º no quadro de medalhas, com seis ouros, três pratas e um bronze.

Vou homenagear a Jamaica esta noite. Ouvindo reggae, canalhas, não é nada do que vocês estão pensando!

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O OURO DA MAURREN

PEQUIM (a história dela) – “Fazer história” é expressão que se usa muito na crônica esportiva, deu uma banalizada, como “sentiu a pressão” ou “o time precisa de uma referência no ataque”.

Mas no caso específico de Maurren Maggi, agora há pouco no Ninho, fez história mesmo, porque desde que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil uma mulher brasileira nunca havia conquistado uma medalha de ouro em prova individual de Olimpíada.

Outra moça já havia, vá lá, feito história aqui, logo no começo dos Jogos, Ketleyn Quadros, com um bronze no judô. Foi a primeira brasileira a ganhar medalha, qualquer medalha, em competição individual.

Assim, temos a história sendo escrita por duas moças, Maurren e Ketleyn, nomes pouco comuns e de trajetórias idem. Maurren passou um bom tempo suspensa por doping, um caso esquisito atribuído, por ela, a uma pomada para depilação. Em muitos casos, eu diria que na maioria deles, atletas pegos em exames antidoping, em qualquer modalidade, têm enorme dificuldade para voltar a competir em alto nível. Não bastasse o tempo parado, há também a desconfiança dos colegas, a lembrança que sempre vem à tona, essas coisas.

Maurren voltou a saltar há pouco tempo e pouca gente acreditava nela. Foi, saltou e ganhou. Isso é bem legal, a menina está de parabéns. E só precisou pular uma vez, a primeira, 7,04 m. Foi o bastante. Ganhou da russa por um mísero centímetro.

Curiosamente, dos 277 atletas da delegação brasileira que vieram a Pequim, Maurren era a única com quem eu já tinha conversado na vida. Não que eu seja um seguidor xiita de provas na pista do Ibirapuera, ou especialista em Troféu Brasil. É que Maurren foi casada com Antonio Pizzonia, piloto da Jaguar pelos idos de 2003, quando ela estava suspensa. Sem nada para fazer, ainda namorada já acompanhava o amazonense a todos os GPs. Mulher muito bonita, mas calada e desconfiada, Maurren aparecia no mesmo ponto do planeta que eu, em média, a cada 15 dias. E nessa convivência acaba nascendo, no mínimo, um conhecimento mútuo — dei toda essa volta para dizer que somos o que se chama de “conhecidos”

Curiosamente, também, Maurren está na galeria de atletas que, algum dia, já pisaram no meu modesto escritório na avenida Paulista. De vez em quando um ou outro piloto aparece por lá para uma entrevista, coisas assim, e quando o Pizzonia foi mandado embora da Jaguar, quebrou o silêncio depois de alguns meses indo à sede da minha holding de uma sala só para contar o que havia acontecido na sua temporada de estréia na F-1.

A Maurren foi junto. Ela não estava dando entrevistas, depois da história do doping. Perguntei, ao final da conversa com o Antonio, se queria dizer alguma coisa. Ela falou que não, e os acompanhei até o elevador e, depois, ao térreo para me despedir, desejando a ambos boa sorte.

Lembrando daquele dia, eu poderia dar uma cascateada ótima aqui, hoje. Vejam se vocês não acreditariam:

“Maurren é uma das poucas atletas que conheço, e a única sobre quem posso dizer que vi nos olhos, um dia, a gana e a vontade de dar a volta por cima fazendo aquilo que tiraram dela: o direito de competir. Há cinco anos, esteve no meu escritório acompanhando o namorado, Antonio Pizzonia, e ficou em silêncio ouvindo a entrevista do piloto. Vi aquele brilho no seu olhar, apesar da quietude. Tenho uma poltrona retrô amarela em meu escritório. Amarela como o ouro que está no seu peito agora. Foi ela que Maurren escolheu para se sentar e esperar Pizzonia falar sobre corridas e sobre F-1. Naquele momento, olhei para ela e tive a certeza absoluta de que aquela carreira não tinha terminado, não. Seria retomada mais dia, menos dia, e com o brilho do amarelo daquela poltrona. Lembrei disso ao vê-la no pódio hoje, e me senti um pouco dono daquela medalha.”

Bom, o que aconteceu, na verdade, é que de fato ela ficou esperando o Pizzonia na poltrona amarela. Primeiro, porque é uma dama e a poltrona é confortável, de fato. E a única que temos. No mais, algumas poucas cadeiras de escritório, feias e sem graça alguma. Me lembro também que tirei minha jaqueta da poltrona, que serve de cabide na maior parte do tempo, para a Maurren se sentar.

E não lembro mais nada.

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ÊNIS, ÔLEX

PEQUIM (lá como cá) - Consta que o governo tinha dado um perdido nessa turma, os camelôs que infestam Pequim quando não tem Olimpíada (esse período de recolhimento dos ambulantes, historicamente, acontece sempre por 17 dias a cada 5 mil anos).

Mas eles voltaram e estão pelas calçadas do Parque Olímpico vendendo bonés, camisetas e relógios Rolex. Lá em São Paulo eles passam sempre pelas ruas puxando carrinhos de feira cheios de tênis e relógios, e dizem “ênis, ôlex”, mas eu nunca comprei nenhum. Não desses na rua, que não confio muito. Nos standcenters da vida, cansei de comprar.

Devia fazer o mesmo aqui, pelo menos são falsificações originais, direto da fonte.

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O PEDRÃO SABE

PEQUIM (perguntem a ele) – Só para registrar, uma das esperanças de medalha para o Brasil no atletismo, o celebrado Jadel Gregório, ficou em sexto ontem à noite na final do salto triplo, com 17,20 m. Em Atenas, quatro anos atrás, saltou 17,31 m e ficou em quinto. Jadel chorou, como é praxe, e disse: “Não sei o que aconteceu, trabalhei o ano inteiro, não sei o que deu errado”.

O Pedrão talvez saiba.

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GATINHA

PEQUIM (feio será) – No futebol, gato é aquele cara que rouba na idade para cima, e assim pode jogar nas categorias menores e dar botinadas na molecada mais nova sem ser incomodado. Na ginástica, é o contrário. A menininha tem 14 anos, mas diz que tem 16 para poder competir. Ela, não; no caso de He Kexin, medalha de ouro por estas bandas pequinesas, quem diz que ela tem 16 anos é o Comitê Olímpico Chinês. Mas Kexin não tem cara de uma garota de 16 anos, e muita gente desconfiou (o Maurício Teixeira, aqui do iG, foi um dos primeiros a levantar a bola, logo no início dos Jogos).

Um desses desconfiados de plantão foi um cara nos EUA, que começou a vasculhar arquivos pela internet e chegou a uma página chinesa que teria os dados corretos da pequena Kexin: 14 anos e 220 dias. A página já sumiu da internet, claro.

Acusação feita, polêmica instalada, o COI mandou abrir uma investigação formal. Se a pequena Kexin for gata (gatinha ela é, como não?), perde a medalha. E fica feio para a China. Bem que Confúcio dizia a Gah-Fang-Yotung, nas suas longas jornadas pelas estradas da Mongólia Interior: “Nunca queira parecer mais jovem do que és. A experiência é um farol que levamos às nossas costas, para iluminar o caminho dos que vêm atrás”.

E como Gah-Fang-Youtung olhou para ele intrigado com aquela história de farol para iluminar quem vem por trás, Confúcio apressou-se em desfazer suas dúvidas: “Se vieres por trás de mim dou-te uma cotovelada no saco, mais respeito, rapazinho!”.

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FÁBRICA DE MEDALHAS

PEQUIM (dia lindo aqui, sô!) - Acordei e abri logo o computador para saber quanto foi a Lusa. Perdeu de novo, caminha a passos de Usain Bolt para a Série B de novo (até que era bom, jogos de terça e sexta, só time ruim, quem sabe?), mas pelo menos o clube teve uma idéia simpática hoje. Como a partida com o Vasco foi em Santa Bárbara d’Oeste, porque o time foi punido com a perda de um mando de campo, convidaram o Cesar Cielo para dar o pontapé inicial. E deram a ele a camisa mais linda do mundo.

Como estamos em tempos olímpicos, o mesmo que falei das universidades vale para os clubes brasileiros. Eles têm um monte de isenções fiscais, levam dinheiro da Timemania e o escambau a quatro. Deveriam garantir uma contrapartida esportiva coletiva. Nada de investir só no futebol. Todos têm piscinas, quadras, tatames. O governo deveria obrigar todos os clubes a terem equipes de x esportes, a fazerem convênios com escolas públicas, a ter y professores e técnicos contratados.

O governo deveria obrigar todo mundo a fazer um monte de coisas, os governos dão muita moleza a todo mundo!

Falando em governo, se vocês ainda não entenderam por que a China fabrica bons atletas em massa, leiam esta reportagem especial da Nara Alves no iG. E olhem bem para essa garotinha aí do lado. Daqui a quatro anos ela estará ganhando medalhas em Londres.

Se não for ela, vai ser alguma parecida.

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O PERSONAGEM

PEQUIM (never forget Beijing) – Faltam só três dias para acabar. Vou voltar com a sensação de que nada mais será igual. Tempo e distância fazem isso com a gente. Mas depois falo disso, ainda faltam três dias. Melhor esperar terminar tudo. Começo, meio, fim. Falta o fim.

Ao longo destes dias, que na minha escala de tempo foram algo como 5.000 anos, alguns personagens desfilaram por este blog. Vamos eleger o principal deles, então. São seis candidatos. E a blogaiada vai votando.

Começando com Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, ouro e recordista mundial nos 100 m e nos 200 m rasos, o homem que levou o Ninho ao mais autêntico delírio. E que deixou atordoados todos os especialistas, e se mordendo de inveja os adversários, que já não insinuam mais nada, têm certeza: o cara estava dopado. Para mim, o doping dele se chama alegria. É nosso personagem número 1 nesta que será uma acirradíssima eleição.

Depois dele, Michael Phelps, o peixe, que derrubou a marca histórica de sete medalhas de ouro de Mark Spitz em Munique/1972 até chegar a oito douradas, um fenômeno aquático e midiático, que será lembrado para sempre dentro daquele cubo azul. É o número 2 na nossa cédula eleitoral virtual.

O terceiro é chinês, Liu Xiang, grande esperança da nação vermelha nos 110 m com barreiras, que se machucou antes da largada e, primeiro, calou o Ninho; depois, inundou-o com as lágrimas de 1,3 bilhão de pessoas. O maior drama de Pequim, nosso personagem número 3.

Drama também viveu Fabiana Murer, gatinha brasileira, candidata a medalha no salto com vara depois de conseguir bons resultados no ano, que na hora de saltar descobriu que a vara que precisava para aquela altura não estava no estádio, estava sabe Buda onde, e foi uma agonia vê-la procurando por todos os cantos, até estancar à frente de uma competidora chinesa como se fosse uma estudante na Praça da Paz Celestial disposta a brecar no braço uma coluna de tanques. Acharam a vara depois, bem longe dali, na Vila Olímpica. E acabaram os Jogos para a menina. Fabiana é a número 4 de nossa pequena eleição.

E enquanto Fabiana se desesperava, perto dali, debaixo de uma cabana feita de toalhas brancas, se isolava do mundo Elena Isinbaeva, musa incomparável, esculpida por mãos sacras, uma mulher alada que conversa com o céu antes de saltar, e quando salta voa, flutua, e vai quebrando recordes e espalhando sua perfeição e seu sorriso para milhões de pessoas atônitas com tanta beleza. A russa, que tem um Lada cor-de-vinho (se não tem, dou um para ela) é a número 5 e penúltima personagem olímpica.

Por fim, o único que não disputou prova alguma, não quebrou recorde algum, não ganhou nenhuma medalha, não teve de justificar derrotas ou de se preocupar em como celebrar vitórias.

É o sábio dos sábios, aquele que passou as últimas semanas iluminando nossos obscuros e tortuosos caminhos com seus ensinamentos seculares de profundidade inquestionável, um sopro de lucidez e serenidade num mundo tão voraz e competitivo, que com sua voz suave e firme ao mesmo tempo nos fez refletir sobre a alma humana em sua essência.

Nosso personagem número 6 é o milenar Confúcio, que sobre a liberdade de escolha dos povos e dos blogueiros um dia disse a seu fiel e inseparável discípulo Gah-Fang-Yotung: “Votai, votai, escolhei o melhor, o mais belo, o mais forte, aquele que toca teu coração”. E diante da clara irritação de Gah-Fang-Yotung, porque aquele era seu único fim de semana de folga no ano, consentiu: “Tudo bem, se não der pra votar justifica e pode ir pra praia, mas olha lá quem vai levar, não quero zona no meu apê”.

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DÓI MENOS

PEQUIM (e é do jogo) – Perder lutando machuca menos. Escrevo ainda do Workers Stadium, o pódio sendo montado para a premiação em instantes. Ouro para os EUA, prata para o Brasil e bronze para as loironas e loirinhas alemãs, que ganharam do Japão na preliminar.

Não dá para analisar um jogo de futebol feminino com o mesmo rigor que um de futebol masculino. Como já disse outro dia, é muito mais correria e coração do que qualquer outra coisa. E isso deve ser dito: não vi uma garota, em time algum, fazer corpo-mole. Todas dão a alma pela vitória e isso é legal de ver em qualquer esporte.

As brasileiras não jogaram mal. Perderam alguns gols, criaram chances, esbarraram numa goleira boa, Hope Solo, e deram o azar de levar um gol quando estavam melhor no jogo. A Bárbara, goleira do Brasil, mulata de olhos verdes, me deu a impressão de que escorregou e poderia ter defendido. O campo estava molhado, choveu e parou o dia todo em Pequim.

Mas é justo apontar o dedo e dizer para uma que falhou no gol ou para outra que deveria ter passado quando chutou, ou chutado quando passou?

No futebol feminino, não. As meninas, de todos os países, não só do Brasil, enfrentam dificuldades para viver do esporte, que não arrasta multidões em canto algum.

Foi uma final dramática, repetição da de Atenas, e as americanas levaram de novo. As meninas jogam bola em massa nos EUA, as universidades têm campos e equipes ativas (todas elas, pela lista que recebi aqui, são vinculadas a universidades: Washington, Flórida, Monmouth, Notre Dame, North Carolina, Rutgers, Virgínia, South California, Stanford, Hawaii, Santa Clara, UCLA e Portland), e assim fica mais fácil montar uma seleção.

No Brasil, como se sabe, o futebol feminino vive à míngua, são raros os clubes que investem alguns trocados nas garotas, as universidades não têm nada de esporte (isso é uma coisa que o governo deveria fazer: já que montar uma universidade é a coisa mais fácil do mundo, e todas são fábricas de dinheiro e diplomas, o governo deveria obrigar cada uma a manter um puta departamento esportivo, de alto rendimento, coisa de gente grande; isso mudaria a cara do esporte brasileiro em cinco anos). Os campeonatos, quando existem, não têm público e é assim e pronto. Por isso, algumas vão jogar fora do país.

Elas vão choramingar bastante hoje, reclamar da vida e da falta de apoio, e toda aquela ladainha que seria ouvida também se tivessem vencido (foi assim no Pan). Respeitemos. Mas está ficando um pouco cansativo ouvir esse papo. As pessoas que vivem do futebol feminino no Brasil precisam começar a ter idéias e fazer com que elas funcionem. Senão, vai ser a mesma coisa a cada quatro anos. E o resto do mundo esportivo não se preocupa muito com os problemas dos outros.

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A VELA DO MUNDO É NOSSA

PEQUIM (acabando…) – Vamos ver… fim de tarde aqui, vocês devem estar tomando o café da manhã. Então, para lhes poupar a leitura dos jornais, saibam que na madrugada o Brasil ganhou uma medalha de prata, na vela, classe star, com Roberto Scheidt e Bruno Prada — que tem nome de bolsa, o cara já vem com patrocínio embutido.

A prata da “nossa vela” (como dirão os apresentadores de TV hoje) levou a delegação do COB à 35ª posição, neste instante, no quadro de medalhas. O Brasil está entre Turquia e Bulgária. Vamos ver se me lembro de cabeça: ouro na natação (Cielo), prata na vela e cinco bronzes, sendo três no judô (Tiago Camilo, Ketleyn Quadros e Leandro Guilheiro), um na natação (também do Cielo) e um na vela (as meninas da 470, Fernanda e Isabel). O bom de nascer em país fraco em esportes é que as medalhas a gente decora. Imagine se eu fosse australiano, por exemplo. Seriam 37 para lembrar. Até agora.

Assim, temos judô 3 x vela 2 x natação 2. São as modalidades que ganharam medalhas para o Brasil em Pequim. Restam duas chances no vôlei de praia masculino, já que há uma dupla na final e outra lutando pelo bronze (no feminino, as meninas perderam hoje na decisão do bronze), duas no futebol (o feminino decide o título hoje com os EUA e o masculino pega a Bélgica pelo bronze) e talvez duas no atletismo, no salto triplo com Jadel Gregório e no salto em distância com Maurren Maggi. Há quem acredite no revezamento 4 x 100 m, mas acho difícil.

O hipismo, juro que não estou acompanhando direito. Desde que disseram que aquele cavalo do Rodrigo Pessoa, cujo nome era muito complicado de pronunciar, “amarelou” numa competição, preferi deixar as coisas equestres para quem gosta de montaria. Pobre do cavalo. E, claro, tem os “vôleis de gente”, como um amigo chamou hoje o vôlei de quadra, com boas chances para as duas seleções, que são ótimas.

Garantidas mesmo, portanto, nove medalhas: as sete já conquistadas e duas nas finais do vôlei de praia e futebol feminino — no mínimo, prata. Pelas minhas contas, a delegação do COB deve fechar os Jogos com 14 ou 15 medalhas, mas não sei se será fácil igualar as cinco de ouro de 2004.

A vela, com a medalha de Scheidt e Prada hoje, chega a 16 conquistadas em todas as Olimpíadas. O judô faturou 15. O atletismo, 13. A vela tem também o brasileiro com a maior coleção de medalhas olímpicas, Torben Grael, ouro em 1996 e 2004, prata em 1984 e bronze em 1988 e 2000, o que faz deste o verdadeiro esporte nacional do Brasil, que futebol que nada! 

No quadro geral, são 79 países medalhados, e foram distribuídas 221 de ouro, 222 de prata e 253 de bronze. No total, 696. A China segue liderando com 45 de ouro (81 no total), seguida pelos EUA com 27 douradinhas (83 no total).

Mas a líder de verdade no total é a URSS (a Rússia e as antigas repúblicas soviéticas), claro, com 108 medalhas conquistadas, sendo 26 de ouro, 32 de prata e 50 de bronze. Um show.

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