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MÍSSIL

Acidente entre uma Ferrari e um táxi em Cingapura. As imagens são fortes. Não costumo colocar essas coisas aqui, mas mostra o que é uma porrada em altíssima velocidade. Para entender por que acho que carros desse tipo não podem ficar na mão de qualquer um.

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VOLTOU

SÃO PAULO (o que compraremos?) – Leio que, finalmente, com novos donos, a Gradiente está de volta ao mercado. Por enquanto com poucos produtos: um tablet para crianças e um “toca-tudo” (DVD, Blu-Ray e o escambau a quatro). Gostei desse “toca-tudo”. Sempre tive produtos Gradiente, de TVs a aparelhos de som e até celular, se não me equivoco. Nem todos eram/foram bons, mas por algum motivo curtia a marca. Coisa de consumidor meio bobo, admito. Mas que se explica, talvez, por comerciais como esse aí em cima, que acho bárbaro.

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SAVE THE PLANET

SÃO PAULO (irei antes) – Infelizmente não anotei o nome de quem mandou este vídeo semanas atrás, mas guardei para assisti-lo quando tivesse tempo. É longo, quase uma hora. Mas fundamental para que todos tenhamos uma ideia do que nos espera no futuro. E de como esse futuro foi traçado um século atrás, na Revolução Industrial. Trata, o documentário, de algo conhecido como Obsolescência Planejada. É um conceito autoexplicativo e simples de resumir em poucas palavras. Com o advento dos meios de produção em massa, cada vez mais produtos passaram a ser produzidos em menos tempo, e cada vez mais passou a ser necessário gente para consumi-los. Mas isso jamais funcionaria se os produtos fossem duráveis, tão duráveis a ponto de as pessoas não precisarem comprá-los mais. Sendo assim, o que fazer com a produção cada vez maior e mais rápida? Onde arrumar gente para comprar as coisas, se elas já teriam essas coisas?

A partir do caso de um rapaz em Barcelona que ficou puto quando sua impressora travou e ele descobriu que seria muito mais barato comprar outra do que mandar consertar, os autores do filme voltaram no tempo e chegaram a um sinistro conluio de fabricantes de lâmpadas no início do século passado que concluíram que se seus produtos fossem cada vez melhores — as lâmpadas durassem cada vez mais — estariam dando um tiro no pé. É uma lógica simples de compreender. Àquela altura, Philips, Osram e outras já eram capazes de fabricar lâmpadas que aguentavam 2.500 horas de funcionamento. E os caras decidiram estabelecer um novo limite de vida útil: mil horas e não se fala mais nisso. O acordo, conhecido como Phoebus, previa até multas para os fabricantes que desrespeitassem a norma. Precisavam que as lâmpadas queimassem mais rapidamente, para que as pessoas comprassem, comprassem e comprassem.

O documentário usa para ilustrar como os fabricantes foram filhos da puta o exemplo de uma atração turística da pequena cidade de Livermore, na Califórnia, onde uma lâmpada fabricada em 1901 e instalada no pequeno quartel do Corpo de Bombeiros continua acesa até hoje. Foi pauta de várias reportagens no ano passado, quando a tal lâmpada completou 110 anos de bons serviços.

O exemplo das lâmpadas foi seguido pela indústria em geral, e é assim até hoje. As coisas não podem durar muito, porque se durarem ninguém compra outras coisas e a economia trava. Dê uma olhada em volta. Quantos celulares você comprou nos últimos anos? E laptops? E monitores para seu computador? E TVs? Geladeiras? Máquinas de lavar roupas? Carros? Consumismo desenfreado é o que move o mundo. Não, não é novidade para ninguém. Mas nem sempre a gente pensa nisso.

Só que essa maluquice tem um preço. Os moradores de Agbogloshie, um subúrbio de Acra, capital de Gana, sabem bem qual é. Diariamente chegam ao país toneladas de sucata eletrônica em contêiners, que são jogados num imenso lixão tecnológico. As imagens são impressionantes. Os restos vêm do mundo inteiro. Dos países industrializados e desenvolvidos, descartados por consumidores enlouquecidos de tudo que aparece nos comerciais de TV, nas promoções das grandes lojas, na garagem do vizinho, na baia do colega de trabalho que troca de iPhone e de iPad a cada seis meses, de tudo que sai das esteiras movidas por engrenagens que a gente nem sabe mais onde começam a girar, mas que vão, claro, levar este planeta a um fim inglório.

Um dos entrevistados no vídeo acima defende uma revolução cultural, uma mudança de mentalidade, o “decrescimento”. Serge Latouche é seu nome, um filósofo e economista francês. Latouche prega um freio na loucura da superprodução, do superconsumo. “Liberar o tempo para desenvolver outras formas de riqueza, como a amizade e o conhecimento. Se a felicidade dependesse do nível de consumo, deveríamos ser absolutamente felizes”, ele diz.

Somos?

Latouche vai além, contrapondo o argumento de que tal revolução brecaria a economia e nos levaria de volta aos tempos do Homem de Neandertal. Decrescer, reduzir, não significaria voltar à Idade da Pedra. Usando a França como parâmetro, ele diz que viver numa terra razoavelmente sustentável, que produz mais ou menos o que é necessário para que as pessoas vivam bem e não gera toneladas de resíduos cujo destino, cedo ou tarde, será destruir o planeta, seria como viver naquilo que era seu país nos anos 60.

Os anos 60. Não por acaso, depois deles quase não se fez nada que preste no mundo nas artes, na música, na literatura, no design, na arquitetura, no cinema, na política… Passamos a nos preocupar com irrelevâncias, apenas. Somos um planetinha cada vez mais irrelevante.

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:-(

SÃO PAULO – Para quê palavras, não é mesmo? Vamos rir.

Ou chorar, chorar de rir.

Chico começou a fazer rir em 1947. A Segunda Guerra tinha terminado dois anos antes. É portanto, parte da vida de todos que estamos vivos. Todos. Mesmo os mais novos, que hoje dão risadas menos nobres e sutis com um humor que não é nem uma coisa, nem outra. Que é fácil, e por isso pobre e bobo, desnecessário e irrelevante.

Seus mais de 200 personagens moldaram a personalidade do Brasil, mais, até, do que reproduzi-la. Quando não nos víamos imediatamente em Chico City ou na Escolinha, descobríamos em pouco tempo que éramos nós, sim, ali. Num país que tem muitas caras, ele foi o único que conseguiu interpretar todas. Todos os macunaímas que somos.

Chico fumou, bebeu, cheirou, trepou, brigou, gritou, agonizou, voltou, criou. Criou o tempo todo com uma genialidade incomum. O Brasil, que todos achamos espetacular e genial, não produziu grandes gênios universais, não. Um ou outro, e Chico está nessa meia-dúzia. “Não posso consertar nada, mas tenho obrigação de denunciar tudo.” Fez isso a vida inteira, da maneira que mais irrita os medíocres: rindo deles.

Chico não foi herói, nem anti-herói. Nunca quis ser exemplo de nada, nunca veio a público com discursos panfletários para defender isso, ou aquilo. Passou a vida cuidando da felicidade dos outros, e pode haver uma existência mais essencial do que essa?

Quando olhamos para todos os Chicos que Chico foi, sentimo-nos todos Chicos. Todos fomos ou somos Salomé, Bozó, Bento Carneiro, Pantaleão, Alberto Roberto, Coalhada, Washington, Urubulino, Véio Zuza, Roberval Taylor, Professor Raimundo, Nazareno, Justo Veríssimo, Nicanor, Linguinha, Painho, e fomos também seus alunos na Escolinha, todos eles, todos somos um pouco de Chico, mas só ele foi capaz de ser todos nós.

Somos todos filhos de Francisco, e por isso estamos tristes hoje.

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O FIM DA BRITANNICA

SÃO PAULO (a maioria nunca viu) – Meu amigo Adriano Xupisco postou no Twitter. Depois de 244 anos, a “Encyclopædia Britannica” não será mais impressa.

A “Britannica”… Enciclopédias… Será que quem tem menos de 30 anos faz ideia do que estamos falando?

Bem, enciclopédias eram… o Google. Isso, eram o Google. Só que a gente tinha de folhear, procurar os verbetes, aprender lendo e viajando por aquelas páginas de papel nobre, impressão impecável, textos solenes.

Era melhor que o Google? Talvez não. O Google (e seus antecessores Yahoo!, Alta Vista, que nem sei se existe, esses buscadores todos) é muito prático e incrivelmente abrangente. O mundo a um clique e tal. Cada vez mais completo, mais eficiente. Encontra artigos, pessoas, fotos, vídeos, músicas, lugares, tudo. Tudo, tudo, tudo.

As enciclopédias eram o que de mais próximo de tudo tínhamos. Elas continham todo o conhecimento humano e eram incontestáveis. Copiávamos seus verbetes nos trabalhos de escola. Abríamos a enciclopédia na mesa e, com lápis ou caneta, passávamos para as folhas pautadas do caderno. Ou do papel almaço. Quantas tardes, putz…

A “Britannica” era cara. A gente tinha “Conhecer” em casa. E existia a “Barsa”, também. Elas duravam anos. Comprávamos em fascículos, nas bancas, ou dos vendedores de enciclopédias, figuras emblemáticas do Brasil como as vendedoras da Avon, que passavam de porta em porta para nos trazer o mundo impresso e encadernado em couro.

E ocupavam lugar nobre nas estantes das casas, aquelas que tinham espaço para seus intermináveis volumes. Nos olhavam severas, como a dizer: enquanto não me leres inteira, nada saberás. Sua presença era imponente e intimidatória.

Foi nas suas páginas que aprendi como se forma a chuva, por que os vulcões entram em erupção, onde fica o estômago de um lagarto, aprendi a desenhar a bandeira do Líbano e o mapa da África, vi a Via Láctea e os anéis de Saturno, me assustei com o tamanho de Júpiter e com as mandíbulas dos tiranossauros, entrei nas pirâmides do Egito e passeei pelos Jardins Suspensos da Babilônia.

Com o passar do tempo elas foram se tornando desnecessárias, encostadas num canto, empilhadas em armários. Mas me dava um certo conforto saber que aquele conhecimento todo estava em casa, ao meu alcance, para quando eu precisasse. Hoje esse conhecimento todo está aqui, neste computador conectado com os confins do planeta, certamente com um enorme computador central instalado no centro da Terra e operado por marcianos que um dia, tomara, vai dar um pau monstro e o mundo vai acabar. Ou começar de novo.

A “Britannica” avisa que continuará existindo em versão digital, para todas as plataformas que este mundo criou.

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NAS FÉRIAS

PUNTA DEL ESTE (atrás de carrinhos) – Sumiço estratégico, mas como nas férias, mesmo nas minhas, coisas ainda acontecem, alguns pequenos registros.

- Kubica escorregou no gelo e quebrou a perna. Segundo as informações disponíveis, no mesmo lugar de uma das fraturas do acidente de um ano atrás. Kubica não voltará mais a correr, infelizmente. Que cuide de se recuperar para ter uma vida normal, fazendo o que bem entender.

- Buemi foi a segunda opção para reserva da Red Bull, segundo Newey. Alguersuari era o preferido e foi chamado. Não aceitou.

- Os Marques, li no UOL, estão querendo lançar uma nova categoria de carros tubulares com carroceria de fibra. Pela foto que vi, são os Super Mégane de alguns anos atrás que nunca saíram do papel. Estão querendo desovar carros feitos há séculos, pelo jeito, repaginados com um nome qualquer. Os Marques são os de Curitiba, Tarso, Thiago e Paulo de Tarso. Tarso é aquele que correu dopado e hoje participa de um reality show. Thiago ainda corre. O pai é o que tinha uma equipe de Stock cujo caminhão pegou fogo algum tempo atrás na volta a Curitiba, queimando tudo. Hoje, vive em Miami. Não vai dar certo, evidentemente.

- A França vai mesmo voltar ao calendário da F-1, ótima notícia. Mas para revezar com Spa, péssima notícia. Não tenho mais saco para falar mal de dirigentes. Que se danem.

- Interlagos publicou sua nova tabela de preços. Na verdade, quem determinou os valores foi a SPTuris, que administra o autódromo. Vai acabar com o automobilismo e desconfio que o digníssimo prefeito gostaria de lotear a área, como está fazendo com a Cracolândia, higienizada com mangueiras que lavam ruas e calçadas. Não vou me meter, não por enquanto, a falar muito da Cracolândia. Kassab é o pior prefeito da história de São Paulo e o que (não) faz em relação aos dependentes de crack, em qualquer país sério, resultaria em impeachment e cadeia — para ele, para o governador, para os secretários das áreas correlatas. É um cômico, o prefeito, uma figura patética, ridícula, com inclinações de cunho semelhante às de figuras tristemente históricas no sentido de eliminar o que considera um problema com uma particularíssima “solução final”. Derruba tudo, passa o trator, expulsa essa gente! E a população de SP, pelo que li daqui, a distância, parece que aprova maciçamente. Realmente, SP não é mais um lugar para se viver, não enquanto tem essa gente solta por aí. E quando falo em “essa gente”, falo do prefeito, dos que nele votam, dos que apoiam essa política higienista desprovida de qualquer caráter social, de preocupação com saúde pública, de preocupação com as pessoas, com a vida humana. SP é insuportável, e não é por causa dos crackeiros. No que diz respeito a Interlagos, há absurdos evidentes na nova tabela de preços, como cobrar 5 mil reais por dia de estacionamento de quem promove eventos — como, por exemplo, o secretíssimo Campeonato Paulista. Mas é interessante o impasse. Agora, os promotores de corridas e campeonatos (FASP, clubes, empresas como Vicar etc) terão de se preocupar com algo trabalhoso: fazer esporte, promover, divulgar, fomentar, organizar, e não apenas contar dinheiro fácil, já que os valores pagos a Interlagos eram irrisórios. Como nos últimos dez anos só se fez isso, contar dinheiro fácil de inscrições e carteirinhas (quase tudo sem recibo), formou-se uma massa de pilotos em SP que não vive de pilotar e que nunca exigiu muita coisa dos organizadores e promotores e dirigentes. Se as corridas acabarem, esses pilotos amadores (caras como eu) perderão um hobby. Paciência. Mas quem vive disso (escolinhas, equipes de resgate, preparadores e, basicamente, os sanguessugas de federações e clubes) terão sérios problemas para sobreviver. Que se virem. Agora, é evidente que essa gente (de novo “essa gente”) que está à frente da SPTuris — e do autódromo, que é da Prefeitura — não tem a menor noção de nada. Autoritários, intransigentes, dão uma canetada, inventam uns preços astronômicos e ligam o “foda-se”. Ah, é claro que para alguns eventos, como festas religiosas e F-1, ninguém precisa se preocupar muito com tabela de preços. Há tabelas de isenções, também.

E vou para a praia, tem algumas boas por aqui.

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ONE QUESTION

O que existe de errado num país que quer ser assim? Vídeo enviado pelo Lucas Chianello.

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BUS STOP

SÃO PAULO (paraíso) – Um dia depois do anúncio da morte do líder Kim Jong-Il, uma pequena homenagem sobre rodas a um dos últimos bastiões socialistas do planeta. Este álbum tem fotos de carros, ônibus, caminhões e tratores norte-coreanos, desconhecidos do resto do universo. Escolhi, para ilustrar, esse trólebus Pégasus do início dos anos 70 lindíssimo.

Sobre a Coreia do Norte, é sabido, para quem tem mais de dois neurônios funcionando, que é o país que mais sofreu e sofre com as mentiras da propaganda ocidental em todos os tempos. São 60 anos de ataques. Normal a retração, fechar-se como um caramujo. É incrível como a imprensa, inclusive a nossa, fala com propriedade sobre uma nação onde ninguém quase nunca põe os pés. Chamam Jong-Il de todos os nomes possíveis (porque era baixinho, usava sapatos altos e óculos escuros, um curioso senso de julgamento estético; Berlusconi, com seus ternos bem cortados, é tratado apenas como um rufião inofensivo…) sem informação alguma, já que ninguém sequer entende o que ele fala para dizer alguma coisa.

Eu também não coloquei meus pés lá, por isso não digo muito. Mas vejo e leio o que posso e tenho algum senso crítico, ainda. O sofrimento do povo norte-coreano ao anúncio da morte de seu líder deveria indicar alguma coisa aos leitores de “Veja” e similares que vão aparecer aqui em 5, 4, 3…

Vão dizer que é propaganda oficial e tal. OK. Aí eu recebo dezenas de vídeos por dia, desde a Copa, com gente gracejando sobre a cobertura que a TV estatal deu ao Mundial da África do Sul, e que o governo disse ao povo que a Coreia tinha derrotado o Brasil. Legal, muito engraçado. Alguém entende coreano para fazer uma tradução fiel? Alguém viu esses vídeos de verdade ou se baseia nas coisas postadas no YouTube com legendas como aquelas brincadeiras que fazem com um vídeo do filme sobre Hitler? No quê essa disseminação de mentiras para milhões, bilhões, é diferente do que chamam de “propaganda oficial”? Por que acreditam nessas bobagens e não acreditam, por exemplo, no vídeo abaixo? Ah, porque é propaganda oficial. OK.

O que acontece, na verdade, é que as pessoas não aceitam as diferenças. A Coreia do Norte é diferente. As pessoas têm outros interesses, necessidades e ambições. Deste lado do mundo, todos ficam chocados com os desfiles militares nas ruas de Pyongyang, mas ninguém se assusta com os trilhões de dólares que os EUA gastaram nos últimos dez anos para invadir e subjugar o Iraque. Chocam-se com filas para comprar, sei lá, arroz, mas acham o máximo as filas para comprar o último modelo do iPhone. Espantam-se com o culto à personalidade do “ditador de cabelos espetados” retratado em estátuas e esculturas (era assim no Leste Europeu, também), mas não com o culto a, sei lá, Jesus Cristo — a imagem do Cristo Redentor não espanta ninguém, ao contrário, e quantas atrocidades já foram cometidas no mundo em nome deste e de outros deuses? Qual a diferença entre o culto a um líder político vivo e a um líder religioso morto? Não servem, ambos, aos mesmos propósitos?

Por essas e outras, talvez, as pessoas não entenderão nunca o choro de Jong Tae-Se quando tocou o hino de seu país antes do jogo com a seleção do Dunga em Jo’Burg. Algumas coisas, para os ocidentais, são aceitáveis. Outras, não. O povo norte-coreano vive do jeito que está habituado a viver por conta de algo que não criou, a divisão de seu país em dois. É preciso entender que não deve ser fácil um país pequeno optar por um sistema político sendo bombardeado dia e noite por aquilo que o Ocidente acha que é melhor.

Não nos esqueçamos que a divisão da Coreia foi consequência direta de uma guerra que os coreanos não causaram, bem longe dali, na Europa. Acabou a Segunda Guerra, americanos e soviéticos expulsaram de lá os inimigos japoneses, que haviam ocupado a península, e resolveram dividir o país em dois. Cada um, então, decidiu fazer de sua metade o que quis. E aquela terra distante virou palco de experiências e, aí sim, propaganda de lado a lado. Em 1950 explodiu a Guerra da Coreia e o mundo esteve perto de acabar — o conflito, em certa medida, foi bem pior que o do Vietnã, até pela proximidade com a Segunda Guerra e pela necessidade das duas potências de demonstrarem força. Mais de três milhões de coreanos morreram por causa da brincadeira da Guerra Fria. Centenas de milhares de famílias foram separadas por uma fronteira fictícia. Quando acabou, queriam o quê? Sorrisos? Os norte-coreanos se fecharam. Os sul-coreanos se abriram. A única coisa aceitável, do ponto de vista humanitário, seria hoje uma reunificação. Mas como fazer, como curar as feridas, como promover a paz depois de tanta crueldade?

E assim a Coreia do Norte tomou seu caminho, e ele diz respeito somente aos norte-coreanos. É bom? É ruim? Não cabe a nós, que não conhecemos nada, julgar. E, sinceramente, duvido que Pyongyang seja pior do que a Cracolândia, por exemplo. O fato de a economia da Coreia do Sul ser 36 vezes maior que a de seus vizinhos do norte não deveria ser motivo para júbilo, e sim de tristeza e vergonha. Como se chegou a esse ponto? É culpa exclusiva do baixinho de sapatos altos e óculos escuros?

Ah, escrevi muito, dane-se. Cada um acredita no que quer.

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ANOTHER COMMENT

Espero que não acabem com isso. O resto a gente se vira.

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LUIZ VICENTE

SÃO PAULO – Estou com um e-mail dele na caixa postal para responder. Acaba assim: Qualquer dificuldade avise que nóis resorve tudo.

Mandou terça-feira passada, faz parte do nosso trabalho de fim de ano de todos os anos, e neste ano estou cumprindo os prazos, e ele falou que eu iria ganhar o prêmio de funcionário do mês, porque está tudo meio encavalado e minha parte nesse trabalho é volumosa, quanto mais eu adiantar as coisas, melhor, e neste ano consegui adiantar as coisas.

Pois bem. O Luiz Vicente morreu. Caiu da bicicleta, bateu a cabeça na guia, acabou.

A gente corria de kart. Eu parei há alguns anos, mas a turma do kart continuou,  a dos jornalistas metidos a pilotos. O Luiz Vicente, no começo, costumava parar na metade da corrida porque ficava enjoado. Um dia falamos para ele parar de comer antes de correr e ele parou de ficar enjoado. Fez algumas poles e ganhou algumas corridas. Guiava bem, o desgraçado.

Ontem caiu da bicicleta, bateu a cabeça na guia, acabou. A mulher viu tudo, estava de carro acompanhando o Luiz Vicente, voltavam ou iam para o parque, não sei direito, morreu nos seus braços.

Há um enorme sadismo em quem determina o destino de cada um neste planeta. Para alguém como eu que não acredita em nada, é nessas horas que deveria ter raiva de algo em que não acredito, mas nem isso consigo sentir. Não consigo ter raiva de quem não acredito que exista.

Não sei para quem devo responder o e-mail da semana passada.

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LÁ E CÁ

SÃO PAULO (é preciso) – E este foi o Ricardo Botto que mandou. Uma compilação de campanhas da TAC australiana (Transport Accident Commision) que, nos últimos anos, ajudaram a reduzir drasticamente as mortes no trânsito no país.

Agora vejam este aí embaixo, que está circulando alegremente (o vídeo) no YouTube e (o cretino) nas estradas — neste caso, a Imigrantes.

Alguns anos atrás postei aqui algo parecido, pior, eu diria, de um cara num Porsche amarelo. Cheguei a levar o caso adiante, escrevendo para Ministério Público, comando da Polícia Rodoviária e tudo mais. Não deu em absolutamente nada. Alguns dias mais tarde encontrei o Porsche, por uma enorme coincidência, estacionado ao lado do meu Lada onde guardo uns carros.

No caso desse moleque aí em cima, temos: rosto do meliante, crime gravado, autor do vídeo facilmente localizável, escárnio total. Vai dar no quê? Nada.

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3.274.209.265°

SÃO PAULO (saco triplo) – Para fechar este dia atribulado, nada como saber que quando nasci eu era o 3.274.209.265° habitante deste planeta, que está prestes a atingir a casa de 7 bilhões de almas viventes. E que antes de mim 77.133.714.739 terráqueos já haviam passado por este mundinho de deuses.

Se você quiser saber onde se encontra na história global, é só clicar aqui.

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KADAFI LDO

SÃO PAULO (vaza, filhote) - Não vou me estender aqui sobre a morte de Kadafi. O mundo não vai sentir muita falta, menos ainda os líbios. Que, no entanto, devem abrir o olho. As potências ocidentais acham o petróleo líbio lindo e perfumado. E devem imaginar que será barato, a partir de agora. Que o país tome seu rumo. Por conta própria. E não abra as pernas e os poços para os tubarões. Apesar de ter sido um ditador sanguinário, patético e ridículo, Kadafi fez da Líbia um país rico. Seu povo, agora, que desfrute da riqueza.

Geopolítica à parte, parece que o cara queria fazer um carro no país. Esse aí embaixo. Não sei que fim levou esse projeto. Mas o carro, se ainda existir, deve valer uma nota. E merece um lugar num bom museu.

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AMPELMANN, 50

SÃO PAULO (sobreviveremos) – O Ampelmann faz 50 anos hoje. No dia 13 de outubro de 1961, o psicólogo de trânsito (!) Karl Peglau aprovou junto ao governo da DDR o bonequinho que virou símbolo de Berlim Oriental. Foi adotado como padrão nos semáforos para pedestres do país e quase desapareceu com a unificação das Alemanhas. Aí, em 1994, um cara batalhou pela sua manutenção, criou uma campanha que teve enorme adesão popular e conseguiu que as autoridades alemãs voltassem atrás na ideia de trocar os sinais luminosos pelo padrão usado no lado ocidental e no resto da Europa.

O bonequinho de chapéu, que tem toda uma lógica alemã por trás, altivo, decidido, virou cult, foi parar em uma enorme linha de produtos, ganhou lojas e fãs.

Eu sou fã do Ampelmann e estou a fim de tatuar os dois, o verde e o vermelho. Na verdade, estou a fim é de morar em Berlim. E não vai demorar muito. Ninguém aguenta mais SP. Eu, pelo menos, não aguento.

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PAZ NO DESERTO

SÃO PAULO (sempre é tempo) – Sou um completo desinformado sobre quase tudo. Hoje um amigo me mandou algumas fotos do Burning Man Festival. Nunca tinha ouvido falar. Ou, se tinha, esqueci. E, se esqueci, isso só prova que me importo cada vez mais com coisas sem importância.

Num deserto em Nevada, todos os anos, 50 mil pessoas se reúnem. “Se reúnem para…?”, hão de perguntar. Para nada. Se reúnem. Vêm de todos os cantos do mundo. Ficam uma semana ao relento. Nus, vestidos, fazendo arte, meditando, não importa. Velhos, crianças, jovens, adultos, homens, mulheres, gays, negros, brancos, amarelos, vermelhos.

Carros “mutantes” chegam aos montes. Como esse aí da foto. Escolhida só porque é um carro e este blog é meio automotivo, afinal. Mas os carros são apenas um detalhe, não têm maior relevância. O “Boston Globe” tem este mega-álbum de fotos maravilhosas do evento deste ano, que comemorou o 25º aniversário do festival.

Se é preciso ir para o deserto para encontrar um pouco de paz, que se vá ao deserto. Mais uma na listas de coisas a fazer nesta vida. Lista cada vez maior, mas que tem cada vez menos coisas verdadeiramente essenciais. Esse deserto me parece ser uma delas.

ATUALIZANDO…

A querida Marion Strecker, minha ex-colega de “Folha” que está morando em San Francisco, foi ao Burning Man neste ano. A excelente série de reportagens está aqui. Feliz coincidência eu ficar sabendo desse negócio meio por acaso e descobrir textos recentíssimos de alguém como a Marion. Buscando conhecimento.

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RÁDIO BLOG

SÃO PAULO (haja) - Emmanuel Kelly é um garoto iraquiano de idade não definida. Ele e seu irmão foram abandonados numa caixa de sapato quando bebês. Nasceram com má-formações genéticas, provavelmente como consequência de guerra química. Foram adotados por uma família australiana. Kelly participou, e pelo que entendi foi muito bem, do X-Factor na Austrália, um desses programas de calouros. Rafael Prete mandou o vídeo.

Sem mais.

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NINE-ELEVEN (3)

Enviado por Marina Miyazaki.

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NINE-ELEVEN (2)

SÃO PAULO – Os ataques de 11 de setembro aconteceram numa terça-feira. Na quarta, embarquei para Milão para cobrir o GP da Itália em Monza. Claro que o clima era de comoção e tal. A Ferrari correu sem inscrições de patrocinadores e com o bico preto em sinal de luto. Depois da prova, Schumacher contou a um amigo que não iria ao pódio de jeito nenhum naquele fim de semana. Terminou em quarto.

No dia 14, sexta, escrevi a coluna abaixo. Devo ter voltado ao assunto alguns dias depois, porque a corrida seguinte era nos EUA. E, lá, dá para imaginar como estava o ambiente. De novo, não é nenhuma pensata, nada de muito profundo. É apenas um breve registro de como a F-1 encarou aqueles dias estranhos e trágicos.

SILÊNCIO INÚTIL

Daqui a alguns anos, até o fim de nossas vidas, todos teremos alguma história para contar sobre o 11 de setembro de 2001. Aqueles que têm amigos nos EUA, aqueles que acompanharam tudo pela TV ao vivo sem acreditar no que viam, aqueles que doaram sangue para as vítimas, os que mandaram dinheiro pela internet, os que participaram das correntes para a localização de pessoas desaparecidas em Nova York ou Washington.

Nos EUA, como primeira determinação a uma população desorientada e assustada, o presidente mandou todo mundo ir rezar na sexta-feira. Politicamente corretíssimo, conclamou seu povo a se dirigir a igrejas, sinagogas e mesquitas. O que significa que, daqui a alguns anos, quase todas as pessoas nos EUA poderão acrescentar a seus currículos “rezei na igreja presbiteriana tal três dias depois da explosão do World Trade Center”, ao lado de “fiz quatro home-runs nas quartas-de-final da liga amadora de beisebol de Nebraska”. Americanos gostam dessas coisas, se sentem participantes e ativos e importantes ao registrar para a posteridade qualquer porcaria sem importância que tenham feito na vida.

Exceto pela vigília televisiva de terça-feira, terei pouco a contar aos que por ventura estiverem dispostos a me ouvir um dia. Minha participação global nos episódios desta semana limitou-se a respeitar um minuto de silêncio ontem em Monza, e quase não consegui. Quando faltavam 20 segundos para o meio-dia, estava fazendo um boletim ao vivo para a rádio que por muito pouco não maculou o momento. Seria um pária se o fizesse, a julgar pelos olhares que me foram dirigidos por colegas estrangeiros.

Ter respeitado um minuto de silêncio em Monza não chega a ser nenhuma façanha. Percebi, sim, o peso desse silêncio no autódromo, sítio normalmente muito barulhento. Notei algumas expressões de verdadeira consternação, como procurei, igualmente, compreender e enxergar alguma sinceridade na decisão da Ferrari de pintar o bico de seus carros de preto e eliminar de suas máquinas as inscrições de patrocinadores, deixando apenas o vermelho visível. Mas foi só. Nenhuma emoção arrebatadora tomou conta de mim, um insensível.

Numa metáfora besta, eu poderia aqui dizer que esse vermelho é o vermelho do sangue que os EUA ocultam do mundo, negando-se a mostrar e a contar seus mortos. Não sei se é proposital, censura ou auto-censura, talvez uma forma de não chocar ainda mais um país de gente puritana em sua maioria, que ainda vive sob uma certa aura de inocência, inocência que já acabou faz tempo. Mas resisto à tentação de ligar o vermelho de um carro ao sangue das vítimas.Em português muito claro, seria uma babaquice sem tamanho.

Pensei em “Silêncio dos inocentes” como título para esta coluna, outra analogia boba, para aproveitar o nome de um filme. Seríamos todos nós, os que mantiveram silêncio por um minuto nesta tarde de sexta-feira na Europa, os inocentes a quem terroristas sanguinários atacaram e mutilaram. Mas, por mais que me esforce, não consigo me sentir inocente em momento algum.

A culpa está estampada no rosto de cada ser humano deste planeta, exceto no das crianças que não têm a menor idéia da roubada em que se meteram ao nascer. Olho no espelho e enxergo mais um culpado. Meu minuto de silêncio em Monza não serviu para coisa nenhuma.

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NINE-ELEVEN (1)

SÃO PAULO – Esta semana fui procurar o que tinha escrito depois dos atentados de 11 de setembro. Desapareceu dos arquivos internéticos, mas encontrei o texto original.

Não creio que escreveria algo muito diferente hoje. Talvez sim. Certamente melhor. Essa história das baratas, sei lá. No calor dos fatos, nem sempre a gente consegue ser muito preciso. Basta ver que matei mais de 20 mil no texto, porque quando vi aquela merda toda desabando imaginei que era isso que tinha de gente ali, 20 mil, talvez mais. Foram menos de 3 mil.

Bem, não é nenhum tratado, é apenas um texto. Na época não existiam as redes sociais, as coisas não se amplificavam como hoje. Talvez não tenha sido lido por muita gente. Pingo aqui como exemplo de arqueologia da web, apenas, sem a menor pretensão de levar ninguém a refletir sobre nada. Nem sobre baratas.

O PLANETA DAS BARATAS

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forrest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar.

(Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela SWAT? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses nos corações dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

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ITÁLIA X ALEMANHA

SÃO PAULO (vai, Lusa!) - Para fechar o dia bloguístico, esta divertidíssima animação sobre as diferenças entre italianos e alemães. Foi o Felipe Passos que mandou, pelo Twitter.

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