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Perfil
Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo na FAAP. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. Desde 2005 é comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março deste ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2007 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de "Meianov".
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VÊ SE EU TÔ NA ESQUINA (2)
SÃO PAULO (aqui, um horroroso P30) – Gosto de assistir aos treinos da F-1 em Interlagos. Quando estou em Interlagos, digo. Nossa Telefunken de 14 polegadas se presta muitíssimo bem ao papel. Precisamos apressar o Ernesto no briefing, que parecia ter engolido uma vitrola, e deu tempo de ver tudo.
(O Meianov não foi lá grande coisa no treino nosso aqui. P30 num grid de 36 carros com o medíocre tempo de 2min16s629, sem desculpas. Pole do Cirello, de Puma: 1min59s661. Na minha categoria tem sete carros e estou em sétimo, o que dá bem a medida de como fui mal. Mas tudo bem. Podia ser pior. Eu podia, por exemplo, ter batido no treino livre e ficado sem carro para a classificação.)
Massa bateu no treino livre e ficou sem carro para a classificação. Ainda não sei os motivos da panca na freada para a Sainte-Dévote. Foi reto e arrebentou tudo. Não deu tempo para a Ferrari consertar o estrago e o brasileiro vai largar dos boxes. Outro que ficou sem tempo no Q1 foi Petit Jules Blanche, com o motor defumando o público. Explicações mais tarde lá no Grande Prêmio. Vi e revi o acidente de Felipe e confesso que ainda não entendi direito o que aconteceu. Parece que ele freou bem na ondulação e as rodas travaram. Mas daqui a pouco ele conta.
Choveu, garoou, o tempo virou, ficou feio e cinzento, e foi assim, com pista molhada, que o Q1 começou. Todos de intermediários, tráfego, aquela desgraceira tradicional. Tempos lá em cima, 1min25s, 1min24s, 1min23s. Foi nessa casa de 1min23s que Maldonado fechou a primeira parte da classificação em primeiro. Juntaram-se a Massa e Bianchi, na degola, Chaton, Guti-Guti, Pica e Resta Um. Este, a decepção. Afinal, corre de Force India, que é forte e vem lá das Índias. A surpresa foi a Caterham de Van Der Ley passar ao Q2. Festa total nos boxes da nanica verde.
No Q2, a pista começou a secar. Mas ainda não o bastante para que a pilotaiada colocasse slicks. Isso só foi acontecer quando faltavam pouco mais de três minutos para o final da sessão. Webber, o desolado marsupial, foi o primeiro a vestir seu carro com os supermacios. Aí tivemos os minutos mais frenéticos da temporada em classificação, porque os tempos começaram a despencar barbaramente, obviamente, logicamente. Quem bobeasse naqueles três minutos finais correria o risco de ficar fora do Q3, o que em Mônaco é meio desastroso.
E da turma que frequenta a ponta, só Grojã bobeou. Ficou histérico no rádio, gritando que Hülkenberg o bloqueou na Sainte-Dévote, no Cassino, na Mirabeau, na Loews, na entrada do Túnel, na Tacabaria, no restaurante, na piscina, no vestiário e na fila do quilo. Dançou, neném. Pela ordem, a partir do 11°, ficaram o incrível bloqueador Hulk, Ricardão, o supracitado Grojã, Sapattos, Van Der Ley (15°, melhor posição da história da Caterham; me lembrou Moreno com a Andrea Moda) e Maldanado.
O Q3 foi menos frenético, mas disputado. A pista secara o suficiente e todos foram dar suas voltas pelo Principado com pneus supermacios ultramelequentos. Era possível fazer uma série de três ou quatro com o mesmo joguinho. A Red Bull chegou a ameaçar o favoritismo da Mercedes, mas no fim das contas, com uma voltaça em 1min13s876, Rosberguinho cravou sua terceira pole seguida e quarta na carreira.
No cockpit, ainda, Nico comemorou com uma coreografia que aprendeu com o pessoal do Village People. Estava alegre de verdade. Hamilton, com 1min13s967, ficou em segundo. Tião Alemão e Canguru formam a segunda fila rubrotaurina. Em quinto, o falante Raikkonen, ao lado do não muito fodón, ao menos hoje, Alonso. Em sétimo ficou Pérez, seguido por Sutil, Bonitton e Verme, que acabou sendo outra interessante surpresa do dia, com seu capacete que homenageia Cevert. Veja o grid lindão aqui na arte de Rodrigo Berton.
Para Massa, porque sei que vocês vão perguntar, a salvação amanhã é largar, parar logo, colocar pneus que aguentem até o final da corrida e ficar esperando para ver o que vai acontecer. Chegar nos pontos tem de ser a meta realista. Muito mais do que isso é sonhar alto.
Como já disse, na terça-feira falei na TV, porque sou foda e entendo pacas, que Rosberg iria ganhar a corrida. E digo de novo. Se não ganhar, foda-se.
VÊ SE EU TÔ NA ESQUINA (1)
SÃO PAULO (não tô) – Viram os treinos de hoje? Pois eu vi, mas só deu pra escrever agora porque estava na TV.
Pois terça-feira, na TV, me perguntaram ao vivo, a cores e via satélite, quem era meu favorito à vitória em Mônaco. Sem pestanejar, respondi: Rosberg.
Entendo muito.
Bom, o cara fez o melhor tempo hoje, com Hamilton em segundo. A Mercedes, todos sabem, tem o carro mais rápido para voltas lançadas. Mas ele acaba depois de meia-dúzia de voltas porque engole a borracha, as rodas e o bigolin.
Isso, no entanto, não vale para Monte Carlo. Circuito de rua, média de velocidade baixíssima, menor distância a ser percorrida no GP (é o único com menos de 300 km de percurso total; 260 km, para ser preciso), pneus macios e supermacios que nada sofrem nesse tipo de asfalto, isso tudo forma o cenário ideal para os mercêdicos.
Por isso, acho que têm condição de brigar pela vitória, ambos os dois. Além do mais, é difícil passar. Não passa. Não passa nunca.
A briga pela pole será intensa e os dois meninos de prateado são favoritos a ela. A Ferrari está perto, mas não creio que possa surpreender ao ponto de largar na frente de todo mundo. A Red Bull não deve ser descartada. Anda bem em Mônaco, assim como Raikkonen. Os de sempre, em resumo, vão brigar pelo butim.
Curiosidade do dia: Alonso pode se tornar o primeiro piloto na história a vencer em Monte Carlo por três equipes diferentes. Já levou com a Renault e com a McLaren. Seria um feito interessante.
Algo a acrescentar? Acho que não. Para uma quinta-feira, está de bom tamanho. Amanhã é folga e sábado sai o grid.
CEVERT DANS LA TÊTE
SÃO PAULO (preciso de um novo) – Nesta era de capacetes mutantes, é em Mônaco que a pilotaiada mais viaja na maionese. Mas Vergne escolheu um grande cara para homenagear: François Cevert.
Acertou na mosca.
Tags: Cevert, Vergne
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SÓ DE OLHO
SÃO PAULO (espertinhos) – Muito bem. Como se esperava, a Honda anunciou sua volta à F-1 no Japão. Com a McLaren, o que é auspicioso e muito bacana. Já falamos de quanto essa parceria foi bem-sucedida no passado. A chance de ser de novo no futuro é enorme.
Mas quando eu estava parado num farol (semáforo, sinal, sinaleira, robot) hoje, pensei: por que só em 2015 e não em 2014? Não daria tempo de fazer um motorzinho já para o ano que vem? Claro que daria.
Mas a McLaren tem contrato com a Mercedes e espertamente vai fazê-lo valer até o fim. Sabe por quê? Porque durante um ano inteiro, a Honda será abastecida com uma montanha de dados sobre os motores Mercedes. Todas as dificuldades eventuais que surgirem na gestão dos novos V6 turbo 1.6 serão monitoradas pelos japoneses. De bobos esses fazedores de sushi não têm nada..
Quem não deve estar gostando nada, claro, é a turma de Stuttgart.
Alguns números da parceria entre McLaren e Honda entre 1988 e 1992, do jeito que vieram no release da equipe:
- 80 GPs
- 53 poles (66%)
- 44 vitórias (55%, sendo 15 delas em 1988, a temporada mais dominante de uma equipe na história)
- 30 melhores voltas (10 delas apenas em 1988)
- 8 títulos mundiais, sendo 4 de pilotos (Senna em 1988/90/91 e Prost em 1989) e 4 de construtores (de 1988 a 1991)
- 3 configurações diferentes de motores: 1.5 V6 turbo, 3.5 V10 aspirado, 3.5 V12 aspirado
Tags: Honda, McLaren, Mercedes
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HOCKENHEIM, 1986
SÃO PAULO (isso era) – Nos comentários do post lá embaixo sobre o minitroféu de Piquet em Hockenheim, o blogueiro Tiago colocou este link do vídeo com o resumo da corrida. Vale muito a pena ver, por isso vai um post para ele. Vejam o que é um final dramático de corrida. Para quem não lembra, McLaren com Rosberg e Prost, Mansell e Piquet na Williams, Senna na Lotus et caterva.
É quase um filme de suspense. E o Galvão narrando pacas. E nenhuma palhaçadinha na matéria. E Piquet zoando o troféu.
Tags: 1986, Hockenheim
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A HONDA VEM AÍ
SÃO PAULO (se segurem) – Já está na boca do povo há alguns meses, mas agora parece que vai. É esperado para amanhã um anúncio da Honda de que volta à F-1 como fornecedora de motores da McLaren a partir de 2015.
Impossível não lembrar da parceria que durou de 1988 a 1992 e resultou em quatro taças para os mclarianos: Senna, Prost, Senna e Senna, pela ordem, até 1991; em 1992, deu Mansell com a Williams, e em 1993 a McLaren virou Ford, para se transformar em Peugeot em 1994 e finalmente fechar com a Mercedes em 1995.
O jeito de trabalhar dos japoneses é conhecido. Metódicos, meticulosos, determinados, se transformaram na grande paixão de Ayrton quando o brasileiro começou a trabalhar com eles. Senna é deus lá, um samurai morto em combate.
Os tempos são outros e a McLaren se transformou num time alemão nesses quase 20 anos de Mercedes. Mas será importante começar a pensar em alguém que combine com a Honda e com o jeito japonês de ser. É prematuro especular sobre quem estará nos carros de Woking em 2015, claro. Mas certamente a dupla Button-Pérez não é a mais bem desenhada para o espírito nipônico que deverá ser injetado no time. Hamilton seria o ideal. Mas Kobayashi seria interessantíssimo, também.
Acrescentando que a brincadeira não vai ser só com a McLaren, não — que não vai pagar nada pelos motores. A brincadeira deve incluir Lotus e Williams, as duas hoje em dia abastecidas pela Renault.
E mais: o motor V6 1.6 turbo já está no dinamômetro. Faz algum tempo.
Tags: Honda, McLaren
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SOBRE PNEUS E ULTRAPASSAGENS
SÃO PAULO (e tenho dito) – A essa altura, acho que todos já sabem que a Pirelli vai colocar novos pneus na pista a partir do GP do Canadá. Os 79 pit stops de Barcelona (78 para trocas, para ser preciso) assustaram um pouco. Precisar de quatro paradas para ganhar uma corrida
, idem. Lembro de uma vitória de Schumacher assim em Magny-Cours que todos acharam espetacular, mas ele só fez isso para tirar uma onda. Naquele ano (2004?), estava tão fácil que o alemão resolveu ganhar corridas de todos os jeitos possíveis: uma parada, duas, três, com uma mão só, sem duas marchas, com freio a tambor, sem água no radiador, apenas com mecânicos canhotos, de óculos escuros… Essa da França foi para se divertir em ritmo de classificação durante a prova toda. Não havia a menor necessidade.
Mas domingo, não. Ou Alonso parava quatro vezes, ou se lascava. E muitos outros pilotos fizeram o mesmo.
Aí acaba a prova e ouço aqui e ali odes ao GP. Que em Barcelona nunca ninguém passava ninguém, e neste ano foi demais, um festival de ultrapassagens e tal.
Bobagem.
Reparem que a imensa maioria das ultrapassagens aconteceu entre carros cujas diferenças nos tempos de volta, no momento das ditas cujas, as ultrapassagens, eram de 2 a 3 segundos. Ninguém se esforçou demais. Era chegar e passar. Bico. Até eu passo por cima de um carro 2 segundos mais lento que o meu em qualquer pista.
Assim, é uma falácia dizer que o GP da Espanha foi “imprevisível”, “emoção do começo ao fim”. Ele foi é confuso para o público. Era fácil prever que Alonso venceria, depois de passar em terceiro na primeira volta. Ali sim houve corrida, nos primeiros metros, nas ultrapassagens que fez na largada. À frente dele havia um carro manco, de Rosberg, que duraria dez voltas, se tanto, e Vettel. OK, Vettel poderia ser um adversário. Então digamos que a corrida ficou imprevisível até a volta 11, quando Alonso saiu dos boxes na frente de Vettel. Ali o GP da Espanha acabou. Dali em diante, nada do que acontecesse seria real. As mudanças de posição seriam tão artificiais quanto um Big Mac de isopor. Só mesmo uma cagada num pit stop poderia alterar o resultado final. E jogar nas costas do erro de mecânicos o desfecho de um GP é uma pobreza esportiva.
Passamos a ter um campeonato de gestão de borracha. Quando Hamilton diz “não consigo dirigir mais devagar que isso”, é uma derrota. Quando ele mesmo se espanta, “uma Williams me passou!”, pelo rádio, é a indignação de quem tem um carro que depende só de pneus para funcionar. Se é assim, de que vale todo o esforço para se projetar um carrinho bacana?
Ótimo que a Pirelli vai mexer nisso. GPs confusos para quem assiste não são legais. É bom que a pessoa entenda o que está acontecendo quando está vendo uma competição esportiva qualquer. Senão, fica iludido o tempo todo, achando que algo anormal está acontecendo diante de seus olhos, ou vai acontecer. Não vai. As ultrapassagens de Barcelona foram de mentira. É como colocar o Bayern para jogar contra o Velo Clube começando o jogo com cinco jogadores contra 11 do adversário. Em 15 minutos, vai estar perdendo de 3 a 0. Aí para o jogo, coloca 11 contra 11, e o Bayern vira. Imprevisível, isso? Não. Confuso e mentiroso.
Fora que para a Pirelli me parece uma desgraça mercadológica botar a cada duas semanas na pista, para milhões de almas na TV, pneus que acabam depois de cinco ou seis voltas. Eu não me animaria muito a comprar pneus assim para meu carro.
Tomara que voltemos a ter um campeonato de carros, motores e pilotos. Se for para ter campeonato de pneus, que se abra a F-1 para outras marcas. Aí sim. As disputas Michelin x Bridgestone eram interessantes. Com o modelo de fornecedor único, não faz sentido submeter os pilotos a esse martírio de ter de andar devagar numa competição cuja objetivo é ser mais rápido que os outros. Conservar pneu hoje é mais importante do que ser veloz. É uma distorção da natureza do automobilismo.
Tags: Pirelli, pneus
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DE CATALUNYA (4)
SÃO PAULO (sem pressa, irmãos) – Vou começar do começo, malhando o Judas. Praga de quem não está gostando da situação, o microfone de Barrichello não funcionou no grid. Depois, cenas de pastelão. O repórter-babá (que é bom, diga-se) segurando o microfone e o aspirante a repórter segurando junto.
Coisas básicas de TV. Nunca segure o microfone se tem alguém já segurando. Não dispute o microfone. Treino, preparo.
Entrevistas? Jean Todt: “Tutto bene?”. Foi a pergunta. Acabou. Treino, preparo. Saiba sempre o que perguntar. “Tutto bene?” não é pergunta.
Técnica. “Esse aqui é o aspirador que a equipe usa pra resfriar os freios.” O cara coloca nas entradas de ar laterais. E é um ventilador. Falta vocabulário. Treino, preparo.
Pau dado, vamos à corrida, que é mais importante.
El Fodón de las Astúrias agora é isolado o quarto piloto com mais vitórias na história, 32. Desempatou de Mansell. Foi sua segunda em GP da Espanha, terceira no país. Venceu em Valência no ano passado. Em Barcelona, em 2006 com a Renault.
É um pilotaço, que fez ultrapassagens no início soberbas e, depois, estabeleceu Raikkonen como alvo, já que o finlandês iria parar uma vez a menos nos boxes. “Só” três pit stops. É coisa pacas, mas o jeito, para quem não lida tão bem com a borracha, era fazer quatro.
Monitorou Kimi, passou a Lotus na pista, foi, viu e venceu. Considerando o fato de que a Red Bull não tem aquele carro outrora imbatível, que a Lotus possui limitações, que a McLaren morreu e que a Mercedes é leoa de treino, temos um favorito ao título.
A corrida de Massa ajuda a reforçar a tese. Melhor dele em muito tempo, com uma primeira volta primorosa e sem perder o contato com a turma da frente nunca. Pódio merecidíssimo e de enorme valor, já que largou em nono. Palmas para ele. De verdade. Foi o Massa de outros tempos.
Kimi em segundo cumpriu seu script. Não tem carro para vencer sempre. Mesmo com uma parada a menos, chegou atrás de um caro só. Falta um tiquinho de velocidade. O quarto e o quinto dos rubrotaurinos me surpreenderam. Esperava mais de Vettel. Vitória, para dizer o mínimo. Foi discreto. De certa forma, a corrida de Webber foi mais impressionante, porque teve de recuperar bastante terreno depois de uma largada novamente desastrosa.
Foi a primeira vez que alguém venceu em Barcelona sem ter largado nas duas primeiras filas. Mas deve-se relativizar isso. Mercedes na primeira fila é como se não houvesse. Os dois carros perdem rendimento miseravelmente em ritmo de corrida e é incrível como sua suspensão engenhosa não colabora. Engenhosa porque mantém o carro a uma altura homogênea do solo, otimizando, obviamente, os fluxos de ar. Mas come borracha como ela só. Algo para os engenheiros tentarem entender. Hamilton nem nos pontos chegou. Rosberguinho foi o sexto.
A McLaren conseguiu colocar os dois nos pontos, o que a esta altura do campeonato é quase um milagre. Button fez uma corrida excelente, dentro de suas possibilidades. Estava em 17° na primeira volta e chegou em oitavo, dois segundos à frente de Pérez que, evidentemente, nem ameaçou uma disputa. O inglês parou três vezes. O mexicano, quatro. Di Resta fez a dele, na média da Force India: sétimo. E Ricciardo arrancou o pontinho nanico do dia.
Legal ver Alonso com a bandeira da Espanha. A FIA chegou a chamá-lo à torre para dar uma dura, mas foi apenas para carimbar “somos ridículos”.
Na classificação do campeonato, Vettel lidera com 89, seguido de pertíssimo por Raikkonen, 85. Alonso tem 72, Hamilton marcou 50 e Massa anotou 45. Próxima parada, Monte Carlo.
E viva a Lusa, campeã de novo.
DE CATALUNYA (2)
SÃO PAULO (às compras) – A aposta segue em Vettel. Sou teimoso. Apesar da primeira fila da Mercedes hoje em Barcelona, que deveria fazer automaticamente de Rosberguinho o favorito absoluto à vitória, tão impressionantes são as estatísticas dessa corrida no circuito Catalão. A saber:
- Em 22 edições, desde 1991, nada menos do que 17 (77,3%) foram vencidas por quem largou na pole.
- Quatro partiram do segundo lugar no grid, o que eleva a 94,5% o índice de vencedores que largaram na primeira fila.
- O vencedor que largou mais atrás em Barcelona foi Schumacher em 1996, terceiro no grid (foi sua primeira vitória na Ferrari, debaixo de muita chuva).
- A sequência mais impressionante de poles/vencedores foi de 2001 a 2010, interrompida por Vettel, que em 2011 ganhou largando da segunda posição.
Ou seja, portanto, obviamente que essa corrida é a mais previsível do calendário, do mundo e do universo. Donde eu deveria concluir que a Mercedes leva, com Rosberg. Na pior das hipóteses, com Luís Rámilton.
Mas acho que não, por causa dos benditos pneus, como os quais os carros prateados têm certa incompatibilidade. A não ser, claro, que nessas três semanas a Mercedes tenha encontrado alguma solução para comer menos borracha, o que também não é impossível. Como tivemos 90 minutos de treino com chuva na sexta, é difícil tirar alguma conclusão pelos tempos de voltas nas sequências longas dos dois pilotos, já que todo o programa de preparação para a corrida teve de ser alterado.
Sendo assim, sigo com Vettel, mas sem grande convicção, reconheço. Ele e Webber não tiveram nenhum brilhareco no fim de semana. Ficaram pipocando ali na frente, é verdade, mas sem dar sinal algum de superioridade infinita como em outras ocasiões.
Já no Q1 Hamilton fez o melhor tempo, embora usando pneus médios, o que parecia uma covardia contra os duros de alguns adversários. Mas nem era tanto. A diferença nos tempos de volta dos dois compostos não é tão grande assim. Degolados foram os marússicos Chaton e Branquinho, os caterhânicos Van Der Ley e Pica e as duas lamentáveis Williams, de Sapattos e Maldanado. Essa é a equipe que ganhou em Barcelona no ano passado, com o venezuelano. Incrível. Como é fácil fazer um carro ruim, errar a mão e perder um ano. Dá dó.
No Q2, Hamilton foi o mais rápido de novo, com um tempo bastante impressionante: 1min21s001. Não houve grandes surpresas no que diz respeito às quatro grandes atuais, que levaram seus oito pilotos para o Q3. As duas vagas restantes foram disputadas a tapa e golpes de foice, e acabaram entrando uma Force India, de Resta Um, e uma McLaren, de Pérez. Dançaram, pela ordem, Ricardão, Verme, Fútil, Bonitton, o incrível Hulk e Guti-guti. Button, coitado, deu uma errada feia. Vai muito mal a McLaren. Outra que pode jogar o ano no lixo já.
E o Q3 foi o da consagração mercêdica, com Rosberguinho fazendo uma volta excepcional em 1min20s718, 0s254 mais rápido que Lewis, o que é um caminhão de décimos, centésimos e milésimos. Terceira pole dele, segunda seguida. A segunda fila ficou com Tião Alemão e o falante Raikkonen, que tem boas chances com a Lotus por conta do ritmo de corrida. É aposta segura para pódio. Na terceira fila, vermelhinhos: El Fodón em quinto, um milésimo de segundo à frente de Massacrado. E fechando os dez primeiros, Grojã, Canguru, Chiquitita e Resta Um.
Não acredito numa corrida muito emocionante. Ela deve se definir após o primeiro pit stop, quando teremos uma noção de quanto vão durar os pneus da Mercedes. Se eles pararem mais ou menos junto com os demais e não tiverem uma queda de performance muito acentuada nas voltas anteriores à primeira visita aos boxes, aí têm grande possibilidade de vitória. Caso contrário, Vettel e Raikkonen estarão prontos para dar o bote. A Ferrari vai depender do esforço pessoal de Alonso, como sempre.
Verei a prova em VT, vejam que legal. Porque na hora da largada estarei no Canindé. Muito mais importante. Dia de taça, bebê.
ATUALIZANDO…
Massa foi punido e perdeu três posições por ter atrapalhado Webber e larga em nono. Assim, temos nos dez primeiros: Rosberguinho, Rámilton, Tião Alemão, Grilo Falante, El Fodón, Grojã, Canguru, Chiquitita, Amassado e Resta Um. Gutiérrez também tomou três posições no grid por ter se imiscuído no caminho de Button.
DE CATALUNYA (1)
SÃO PAULO (começa agora) – Mil perdões à blogaiada, mas só deu para escrever agora, por conta de outros compromissos televisivos.
O primeiro dia europeu da temporada teve chuva de manhã, o que não é muito comum em Montmeló nessa época do ano. Parece que a previsão para o resto do fim de semana é de tempo seco.
No molhado, no primeiro treino, nada muito significativo. Todos andaram pouco e o asfalto só ficou razoável no final. De tarde, com a pista seca, pressa foi a palavra de ordem para aproveitar o tempo. Todos andando o máximo, porque a vida é curta.
Vettel, o favorito à vitória, terá na Ferrari de Alonso seu maior adversário domingo. O carro da Red Bull é bom para esse tipo de pista, mas a Ferrari não fica muito atrás. E o espanhol corre em casa, o que ajuda. Torcida não empurra carro, mas tem piloto que consegue uma dose extra de motivação diante de seu público e El Fodón é um desses.
O alemão ficou em primeiro hoje, com Alonsito em segundo a 0s017. O relato do treino está aqui. A Lotus está um pouco atrás, assim como a Mercedes. A Force India confirmou a condição de melhor das intermediárias. A McLaren foi mal de novo — o ano está com cara de que será jogado fora logo, logo. E Williams e Sauber continuam andando cada vez mais para trás. O que é lamentável, especialmente por Hülkenberg, piloto que merece mais do que o carro que tem.
Ano passado Maldonado venceu. Dá para acreditar nisso, olhando para a Williams de 2013? Pois é, não dá. Mas o venezuelano ganhou, sim, e com estilo.
Vão comentando aí que volto daqui a pouco. Mas já deixo meu palpite para a corrida: Tião, o alemão.
NERVOSINHOS
SÃO PAULO (chá de camomila neles) – Um fotógrafo espanhol tretou (tretou é muito bom) com Alonso no hotel, foi empurrado e diz que vai processar o piloto. Deve ser um desses malas paparazzi. Queria foto da namorada do cara. Mas mesmo os malas devem ser tratados com alguma educação. De qualquer maneira, é impossível julgar quem estava certo, ou errado. Só mesmo testemunhando a cena. Mas é algo que aborrece um esportista num fim de semana importante.
Me lembrou do Montoya levando uma “camerada” na cabeça em Imola. Essa do vídeo aí embaixo.
Tags: Alonso, Montoya
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LONGE DE CASA
SÃO PAULO (interessante) – Está lá no Grande Prêmio. Vettel não vence uma corrida na Europa há quase dois anos. Suas últimas dez vitórias aconteceram na Ásia. É a maior sequência de triunfos de um piloto na história sem umazinha sequer no Velho Continente.
Sim, é óbvio que isso acontece porque hoje o calendário tem um caminhão de provas do outro lado do planeta. Mas não deixa de ser bem curioso. Eu sinto saudades de mais corridas europeias. Elas tinham outro clima. Países como Suécia, Holanda, França, Portugal e Áustria fazem falta. Fora as pistas que, nos últimos anos, sediaran GPs da Europa e San Marino.
Saudades da Europa. Um ano longe começa a dar coceira. Acho que vou pra lá. Tem Le Mans mês que vem, né? Boa ideia.
Tags: Ásia, Europa, Vettel
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FOTO DO DIA
SÃO PAULO (dois tempos, vejam só…) – Eu tinha guardado essa aqui para ontem por causa da Vespinha e acabei esquecendo. Para quem não lembra, nos anos 80 neguinho fazia a pole e levava uma motoneta da Piaggio para casa. Senna montou uma enorme coleção. Não sei o que fez com elas…
Tags: Monza, Piaggio, Senna, Vespa
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“BELO E SERENO”
SÃO PAULO (como todos) – Em maio de 2004, no décimo aniversário da morte de Ayrton Senna (hoje faz 19; o tempo passa, o tempo voa e nem poupança do Bamerindus tenho mais…), fui atrás da médica Maria Teresa Fiandri. Foi ela quem recebeu o piloto no Hospital Maggiore de Bolonha. Queria conversar com ela sobre o acidente, sobre aquele domingo, sobre os dias seguintes à tragédia.
Era uma dívida que tinha comigo mesmo. Na semana do acidente, foi a única pessoa que quis muito entrevistar e não consegui. Entre outras coisas porque me demiti do jornal. E, de certa forma, ela foi a grande responsável por umas das matérias mais importantes que fiz, minha última na “Folha”. Porque a forma que imaginei para chegar a ela passava por encontrar uma antiga namorada que eu sabia que tinha voltado à Itália, 13 anos antes, para estudar medicina em Bolonha. Encontrei essa ex-namorada procurando a doutora Fiandri. Cristina, o nome dela, tinha se formado em Bolonha e trabalhava como médica legal. Fez parte da equipe que realizou a autópsia em Senna. E me contou muita coisa sobre a morte, o estado do piloto, detalhes que só mesmo quem chegou muito perto teria condições de relatar.
Foi uma boa entrevista, essa com a doutora Fiandri dez anos depois. Mas, curiosamente, meu gravador não funcionou. Tenho problemas com gravadores quando se trata do Senna. Ainda em 1994, eu e o Nilson Cesar, então meu colega de Jovem Pan, fomos à quinta perto do Estoril onde estava vivendo Adriane Galisteu. A casa pertencia ao Braguinha, empresário conhecido, ex-presidente do Bradesco, muito amigo de Senna e tal. Adriane ficou lá por meses depois da morte do namorado.
Era a primeira vez que a namorada de Ayrton falava após o acidente e fizemos ao vivo, por telefone, durante o programa “São Paulo Agora”, da Pan. Era semana do GP de Portugal. Ficou ótima e está gravada nos arquivos da rádio, possivelmente. Mas eu também gravei. Coloquei o gravador ali do lado, play e REC e vamos embora. Quando terminamos, entramos no carro e eu disse ao Nilson: vamos escutar pra ver se ficou legal. Coloquei no toca-fitas, estava tudo OK, boa tarde ouvintes, estamos aqui em tal lugar e tal, começo, primeira pergunta, segunda e, de repente, silêncio total. Por alguma razão, o bendito gravador parou de gravar. Nunca vou entender essa porra. Fiz todos os testes e estava funcionando direitinho. Mas não gravou a Adriane na quinta de Portugal. Só o começo.
Com a doutora Fiandri foi parecido. O Fábio Seixas estava comigo e deve lembrar de mais detalhes. Ou o gravador não funcionou, ou eu apertei o botão errado, ou esqueci de levar um gravador. Só sei que não gravei. Por sorte, anotei as respostas num bloquinho. E, também curiosamente, elas estavam muito bem gravadas na minha cabeça, de forma clara e cristalina, quando sentei para escrever o texto.
Enfim, essa entrevista foi publicada quando este blog ainda não existia e acho que não coloquei aqui antes. Então coloco agora.
O prédio é idêntico aos milhares que perpassam a paisagem das cidades do norte da Itália: baixo, quatro andares, pintado de bege, numa rua tranquila e arborizada da periferia de Bolonha. Via dei Lamponi, número 1. Ali, no segundo andar, vive a pessoa que avisou ao mundo, há dez anos, que Ayrton Senna não mais vivia. Foi por suas mãos que ele passou ao chegar ao Hospital Maggiore, 32 minutos depois de bater no muro da curva Tamburello, em Imola, a 35 km dali. Foi de sua boca que saiu, após uma agonia de quatro horas, a notícia que abalou as estruturas da Fórmula 1, chocou o mundo e deixou um país dobrado sobre sua própria dor.
A médica Maria Teresa Fiandri parou de trabalhar no Maggiore em 2001, depois de 36 anos de serviços. Naquele 1º de maio, era a chefe do setor de Anestesia e Reanimação. Como sempre, desde que o circuito passou a receber a F-1, em 1980, fazia parte das equipes de emergência que poderiam ser chamadas a qualquer momento para atendimento em casos de acidente.
Naquele 1º de maio, não precisou esperar o bip convocá-la. Quando Senna bateu, ela se levantou, vestiu o jaleco branco e já estava pronta para sair de casa rumo ao hospital quando o piloto mexeu a cabeça pela última vez.
Fiandri estacionava seu carro no pátio reservado aos médicos do Maggiore quando viu o helicóptero cor-de-laranja se aproximar. Trazia Senna e uma equipe de reanimação que tentava mantê-lo vivo. No helicóptero mesmo ele já havia recebido uma transfusão de 4,5 litros de sangue.
Ayrton tinha batido na abertura da sétima volta do GP de San Marino, a segunda sem o safety-car na pista. Seu carro, na entrada da Tamburello, guinou para a direita. Ele freou e reduziu marchas, de acordo com a telemetria. O impacto frontal, às 14h12 locais, aconteceu a 216 km/h. A barra da suspensão dianteira direita voltou-se contra o capacete, penetrou a viseira e atingiu sua cabeça pouco acima do olho direito. Ele morreu na hora. “Da pista, o doutor Gordini já tinha me avisado que havia pouco a fazer”, conta Maria Teresa.
Mas, como todo médico, Maria Teresa Fiandri fez o possível, mesmo sabendo que o quadro era irreversível. “Do ponto de vista cerebral, já não havia mais atividade imediatamente após a batida. Ele chegou ao hospital com o pulso fraquíssimo, quase sem pressão. Mas, depois, voltou ao normal. Só que não havia mais atividade cerebral, era apenas uma questão de tempo para que ele fosse legalmente considerado morto.”
Maria Teresa Fiandri, cinco filhos, três netos, todos homens, lembra de tudo, em detalhes. Ela diz ter consciência de que participou de um episódio histórico, mas não revela, no tom de voz suave e tranquilo, nenhum tipo de emoção especial, não diferente da que provavelmente teria se relatasse outros casos de pacientes que passaram por suas mãos.
E guarda, de Senna, uma imagem bem diferente daquela transmitida pelos que viram seu rosto, horas depois do acidente: “Ele chegou a mim pálido, mas belo e sereno”.
Pergunta – Doutora, em que condições Ayrton chegou aos seus cuidados, logo depois de descer do helicóptero?
Fiandri – Ele já havia recebido os primeiros socorros na pista e no helicóptero. Estava pálido, mas belo, sereno… Um jovem bonito, com os cabelos revoltos, os olhos fechados. É a imagem que guardo. Tinha um corte na testa, três ou quatro centímetros. Mais nada. Era a única ferida. Chegou ainda de macacão. Mas quando o viramos, vi que tinha muito sangue. E eu me perguntava: “mas de onde vem tanto sangue?” Saía de trás, da base do crânio. Lembro do macacão, quando lavamos, para devolver à família, tinha tanto sangue… E eu disse à Monica, uma assistente de enfermagem: “Não podemos entregar isso a eles assim”. Mas era colocar na água e a água ficar vermelha.Pergunta – Ficou gravada na memória de todos aquele sangue na pista…
Fiandri – Foi da traqueostomia. O sangue era dele.Pergunta – Onde a senhora estava no momento do acidente?
Fiandri – Em casa, assistindo à corrida pela TV. Quando vi a batida, e a cabeça dele caindo para o lado, já me vesti, antes mesmo de me chamarem. Nem esperei pelo bip. Sabia que seria necessária minha presença no hospital. Eu estava chegando com meu carro quando o helicóptero estava descendo.Pergunta – Pela TV, deu para ter idéia da gravidade?
Fiandri – Pelo movimento da cabeça, eu concluí na hora que era algo muito grave. Ali ele já entrava em coma, mas o coma é um fenômeno muito estranho. Por isso foi só quando vimos o resultado da tomografia que tive certeza de que não havia nada a fazer, embora o doutor Gordini [Giovanni Gordini, que o atendeu na pista] já tivesse me avisado que não tinha volta. Aí fizemos um eletroencefalograma. Já não havia mais atividade elétrica. Quando ele chegou, o pulso estava fraquíssimo e quase sem pressão. Mas antes do eletro, tinha voltado tudo ao normal. Por isso, até ver a tomografia, quem sabe… Mas quando vimos, todos nós… Bem, aqui não há nada a fazer.Pergunta – Já no hospital, como a notícia foi dada àqueles que estavam no 12º andar?
Fiandri – Eu me lembro de seu irmão, não sei se ele tinha noção da gravidade da situação. Eu o levei para ver os resultados dos exames. Expliquei que já não havia mais atividade elétrica. Mas quem assumiu o controle de tudo foi uma moça, que parecia tomar as decisões naquele momento [ela se refere a Betise Assumpção, então assessora de imprensa de Senna, hoje casada com Patrick Head, um dos sócios da Williams].Pergunta – A senhora tinha a percepção de que participava, de certa forma, de um momento histórico?
Fiandri – Tinha. Mas mesmo assim, nessas horas você deixa isso de lado e segue os protocolos precisos de atendimento. A, B, C, D, todos os procedimentos. Isso ajuda a vencer a emoção. Alguns anos antes, houve um acidente de trem em Bolonha, e as primeiras vítimas que chegaram ao hospital eram crianças de 3, 4, 5 anos. Aí a disciplina é importante, senão você não faz nada. Eu fui para um canto e chorei por 30 segundos. “Agora chega”, disse. “Ao trabalho”. Com Senna, não chorei. Segurei a emoção. É uma forma de disciplina. Estávamos todos emocionados, mas isso não condicionou nosso trabalho.Pergunta – Houve alguma chance de sobrevivência?
Fiandri – Não. Quando vimos o resultado do eletro… Bem, pela lei ele não estava morto, era preciso esperar o coração parar de bater. Mas não, não havia nenhuma esperança. Foi imediata a profundidade do coma na batida.Pergunta – A senhora se lembra se dormiu naquela noite?
Fiandri – Em dias como aquele não se dorme sem umas 20 gotas de Valium… Era um jovem, um piloto, ele em particular, um pouco herói, carismático… Eu recebi muitas cartas do Brasil, de gente me perguntando se ele tinha recuperado a consciência… As pessoas tinham necessidade de saber algo.Pergunta – A senhora é religiosa?
Fiandri – Não praticante. Mas penso em Deus, e isso ajuda. Depois vim a saber que ele era assim. Sabe, me parece que ele sempre achou que iria morrer jovem. “Morre jovem quem ao céu é caro”, dizem os mais antigos. Talvez se envelhecesse, não teria havido essa comoção. Ele deixou uma história que não deixaria se envelhecesse. É só uma opinião, mas eu acho que se ele pudesse escolher entre morrer jovem e envelhecer… Acho que pagaria esse preço.
Tags: Fiandri, Senna
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IMOLA, 1994
SÃO PAULO (tudo ruim) – Amanhã faz 19 anos da morte de Senna. Hoje, 19 anos da morte de Ratzenberger. O Rodrigo Mattar escreveu sobre o austríaco, “O Esquecido”. Vale muito a leitura. Naquele sábado, tirei uma foto dos fundos dos boxes da Simtek no final da tarde.
The show must go on, como se diz. E é preciso lavar as rodas.
Tags: 1994, Imola, Ratzenberger
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FALA, ANDRETTI
SÃO PAULO (política, sempre ela) – Entre as grandes matérias da edição deste mês da Revista WARM UP está a entrevista de Michael Andretti feita pelo Renan do Couto. A mágoa com a F-1, onde desembarcou 20 anos atrás, é enorme. “Você curte o automobilismo muito mais quando vem para cá. Tem mais a ver com as corridas, com os relacionamentos, é fazer todo o trabalho duro na pista e ainda ser civilizado com todo mundo. Na F1, é o oposto. São apenas punhaladas e mais punhaladas fora do carro.”
Como se vê, a passagem pela McLaren não deixou saudades. Leiam, vale muito a pena.
JENSON & CHECO
SÃO PAULO (conversem, rapazes) – Se tem um cara que a gente nunca imagina que vai ser inimigo do companheiro de equipe, é Button. Em 13, quase 14 anos de F-1, não lembro de nenhuma treta envolvendo o inglês com parceiro algum. Nem com adversários de outros times. Ele era meio despirocado no começo da carreira, mas logo caiu na real. E construiu uma imagem de piloto leal, correto e boa praça. Incapaz de esmagar uma formiga ou de falar mal de qualquer um.
Ontem, porém, soltou os cães sobre Pérez — especialmente nas entrevistas imediatamente após a corrida.
“Houve muita disputa limpa nessa corrida, o que é legal. Exceto com meu companheiro de equipe. Tive muitos companheiros ao longo dos anos, alguns bem agressivos, como Lewis. Mas não estou acostumado a pilotar numa reta tendo meu companheiro ao meu lado batendo rodas a 300 km/h. Esse não é o meu jeito de dirigir. Talvez seja a maneira que a gente vai correr agora, mas não é o jeito que eu quero. Ele me tocou por trás e de lado no meio da reta. Isso é perigoso, não gosto dessas coisas. Tive muitas brigas na F-1, mas nenhuma suja como essa.”
“Suja” foi a palavra mais forte que Jenson usou. Depois, disse que Pérez precisa “se acalmar”, caso contrário “alguma coisa perigosa vai acontecer logo”. “A gente faz essas coisas quando está correndo de kart, mas normalmente as pessoas crescem. E não é o caso de Checo.”
Uau. Chamou de moleque.
O mexicano tentou justificar o que fez. “Foram brigas agressivas com vários pilotos, lutei com eles como eles lutaram comigo. Concordo que fomos muito agressivos, mas ele também foi, e saí da pista algumas vezes. Temos de conversar. Foi um pouco arriscado demais o que Jenson e eu fizemos. Nos tocamos algumas vezes, mas quando você está lá dentro, tem a adrenalina toda e você está lutando. Espero que nas próximas corridas possamos ajudar um ao outro um pouco mais.”
Martin Whitmarsh conversou com Pérez. Disse a ele que bater na traseira do companheiro não leva ninguém para o céu. “Ele é jovem, vai aprender, e talvez tenha de se acalmar um pouco. Mas foi essa paixão, essa vontade, que fez com que ele passasse outros pilotos no fim da corrida. A gente não pode apagar essa chama.”
Uau. Chamou de fogoso.
Sam Michael, outro dirigente importante, falou que a McLaren, historicamente, libera seus pilotos para as disputas. “Somos uma equipe de corrida. Foi assim com Senna e Prost e com Button e Hamilton”, lembrou. “E sempre vai ser.”
Eu achei que Pérez exagerou. Não por disputar posições e brigar por elas. Mas por ser agressivo demais a ponto de, realmente, quase tirar Button da corrida. Isso, de fato, não se faz. Não se tira ninguém de corrida nenhuma, e quando se trata de um companheiro de equipe, o cuidado tem de ser maior ainda.
Passou do ponto. Deveria ter procurado Jenson e pedido desculpas. Mas, como já disse mais de uma vez, consta que o rapaz é meio da pá virada. Não sei se com essa personalidade que resvala na arrogância vai muito longe, não.
Tags: Bahrein, Button, McLaren, Pérez
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O prédio é idêntico aos milhares que perpassam a paisagem das cidades do norte da Itália: baixo, quatro andares, pintado de bege, numa rua tranquila e arborizada da periferia de Bolonha. Via dei Lamponi, número 1. Ali, no segundo andar, vive a pessoa que avisou ao mundo, há dez anos, que Ayrton Senna não mais vivia. Foi por suas mãos que ele passou ao chegar ao Hospital Maggiore, 32 minutos depois de bater no muro da curva Tamburello, em Imola, a 35 km dali. Foi de sua boca que saiu, após uma agonia de quatro horas, a notícia que abalou as estruturas da Fórmula 1, chocou o mundo e deixou um país dobrado sobre sua própria dor.
ONE COMMENT
Sobre troféus gigantes, eis Piquet na Alemanha (obrigado aos que corrigiram; pódio idêntico ao da Hungria) em 1986 erguendo a enorme taça. Até Senna riu. O comentário? Nelson sabia fazer rir.