Arquivo da categoria: Diários de viagem

MINHA LONDRES

SÃO PAULO (preciso voltar) – Vendo hoje as imagens do casamento de William e Kate, e acho o maior barato essas coisas, lembrei da última vez que estive em Londres, no dia dos atentados de julho de 2005. Aí escrevi umas bobagens. Errei até o número de soldadinhos de chumbo. Fui descobrir quando os tirei da caixa de sapatos. Se interessar a alguém, aí vai…

London, London

As lembranças.

Dois soldadinhos de chumbo, um com aquele chapéu enorme, o outro da guarda de honra da rainha. Restam numa caixa de sapatos.

Uma tarde de verão de 1989, a chuva que para, o sol que aparece fugidio, é o tempo de bater o retrato, que fica lindo, ela de capa num pequeno jardim que nunca mais vou saber onde é, a luz dourada, o sorriso largo, os braços abertos, a foto de que mais gosto.

O sinal para o ônibus em Hyde Park, o passeio no andar de cima, comendo sanduíche e tomando coca-cola, sem destino, Abbey Road, nem sei se era mesmo, ficou sendo.

O jantar no restaurante indiano, a pimenta ardida, o chefe que virou amigo e nunca mais vi, o banho de banheira, as malas entupindo a salinha pequena a visita à BBC que eu ouvia em ondas curtas.

O barco com nome de uísque, a linha do tempo, da hora certa, dos dias certos.

E é tudo que guardo de bom desta cidade, porque depois, quando voltei, e foram muitas vezes, sempre a encontrei fria, opressiva, cor de chumbo.

Nunca mais morri de amores por ela, fui-me distanciando, porque acho que nunca fui capaz de vê-la como o bardo que ao cruzar suas ruas sem medo, notar o verde de sua grama, o azul de seus olhos, o cinza do seu céu, a dor e a felicidade silenciosas de sua gente, disso tudo tirou versos e fez música.

Então a sangram, não mais será possível andar por ela sozinho sem sentir medo, e a vida vai aos poucos roubando nossa inocência e enterrando meus soldadinhos de chumbo e minha foto dourada.

Na madrugada fria rodo por ela, aqui e ali uma sirene, lá embaixo ainda há fumaça, destroços e carne, mas como só sei, e não vejo, vejo sim como ainda é bela aqui em cima, cruzando o rio e acertando o relógio, e como as madrugadas são sempre silenciosas é possível olhar para ela com outros olhos, o cinza desaparece, as luzes amarelas lhe dão uma estranha tonalidade, pequenos sóis que só surgem de noite e iluminam pouco, o bastante para sentir ternura.

Na desgraça a ternura volta, comigo é assim, mas é algo que não dá para explicar. Não é pena, não é dó, não é compaixão, não é nada disso, é apenas ternura por um lugar onde há séculos tirei uma fotografia e subi no segundo andar do ônibus vermelho, magrelo, cambaleante e divertido, barulhento e encardido, eu e o ônibus.

Londres, Londres, não somos mais os mesmos.

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DIÁRIOS, JAPÃO

SÃO PAULO (muita saudade deles) – Ôps, tem de publicar diário antigo em semana de corrida, senão a Alessandra Alves manda a chibata. Minha editora atende pelo aalves77@hotmail.com e garante que quando esses textos são republicados, consegue vender 200 livros em meia hora. É só pedir pelo e-mail.

E esse texto aqui me traz muitas lembranças. Foi escrito em 1997. Putz, parece que foi noutra vida.

SUZUKA, BRASIL

O GP do Japão sempre foi um dos mais complicados para os jornalistas do mundo inteiro, que atravessam o planeta para chegar à pequenina Suzuka, a mais de 400 km de Tóquio. Há a barreira da língua, quase intransponível. É lenda a história de que muitos japoneses falam inglês. Ninguém fala. Nos hotéis, via de regra, os funcionários sabem, no máximo contar até dez e dizer good morning.

A fonética do idioma é muito diferente e o falar inglês torna-se uma tarefa penosa para a maioria dos japoneses. Num lugar como este, então, é virtualmente impossível se comunicar. Se não bastasse, há as distâncias e a precariedade de acomodação. Por isso, há anos que é assim, a imprensa se espalha por cidades como Tsu e Yokaishi, a uma hora e meia, de ônibus, do circuito.

Azar de todo mundo, menos dos brasileiros. Depois de uma década, descobrimos, terça-feira, que em Suzuka está uma das mais numerosas comunidades brasileiras do Japão, com cerca de cinco mil descendentes trabalhando nas fábricas da região. São 200 mil no país. Aqui há açougues, pastelarias e restaurantes onde se fala português. A turma faz baile de carnaval e vai em caravana a Nagoya assistir, por exemplo, a um show de Leandro & Leonardo.

Eu estava com uma reserva em Tsu, mas nem vi a cara do hotel. Na chegada, no aeroporto, conheci o Giba, um rapaz de Curitiba que trabalha para uma empreiteira que coloca brasileiros nas fábricas locais. Há seis anos no Japão, ele já nem passa mais por estrangeiro. Fala japonês sem sotaque, assim como Cristina, sua mulher, e a Hitome, sua filha, uma linda garotinha de sete anos. Giba me convidou para ficar em sua casa, a um quilômetro da pista. Aceitei.

Ganhei uma família no Japão. A F-1 tem dessas coisas. O Giba, o Arnaldo, seu irmão, a Vânia, que é cunhada, os amigos David e Farol (se chama Renato, mas ninguém o conhece pelo nome aqui), o Daniel, que é gerente do boliche da cidade… Há cinco dias eles praticamente não dormem, mudaram seus turnos de trabalho para, durante o dia, fazer companhia a mim e aos outros quatro brasileiros que estão aqui para cobrir a corrida.

Já tenho até a chave de casa, faço meu café da manhã e vou de bicicleta para o autódromo. À noite, assisto à novela das oito e ao Jornal da Globo na TV. Vi até o jogo do Vasco com o Cruzeiro, sempre com um dia de atraso, mas o que é um dia, afinal?

Com eles, descobri os fascínios do Japão e seu dia-a-dia. Não há espaço neste texto para contar tudo que já aprendi e passei a entender sobre este país, o japonês e seus descendentes, em tão pouco tempo. Parece que vivo aqui há anos.

Tudo, da comida à educação, das regras de trânsito aos sistemas de saúde, das reverências ao gesto simples de tirar os sapatos ao entrar em casa, tudo é particular e diferente do nosso jeito ocidental de encarar o mundo e a vida.

Não é a primeira vez que venho ao Japão. Mas pela primeira vez tenho a chance de viver o país. E, mais uma vez, constato que o brasileiro, esteja onde estiver, é de uma generosidade do tamanho do universo, tenha ele olhinhos puxados ou não. Você, que me lê agora, talvez não faça idéia do que é ter um amigo como o Giba do outro lado do mundo. Paga tudo, as horas intermináveis em aeroportos e aviões, a distância de casa, os dias longe dos amigos e da família, aquilo que a F-1 exige daqueles que a seguem.

Arigatô, Japão.

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DIÁRIOS, ITÁLIA

SÃO PAULO (será mesmo?) – “Vamos, publique seus textos antigos, ajuda a vender livros!”, ordena minha editora Alessandra Alves. “Mas como as pessoas vão comprar, ninguém acha em lugar nenhum”, respondo eu, e ela ordena de novo: “Publique meu e-mail para os pedidos”. O e-mail é aalves77@hotmail.com . Ela não tem 77 anos, é que é corintiana, e parece que em 1977 aconteceu alguma coisa na história do time dela, talvez a apresentação da maquete de um estádio, sei lá o quê.

O texto abaixo foi escrito em 2004 ou 2005, não sei bem. Um desses GPs da Itália.

O POSTO

Este é um tratado sobre objetos. Sua perenidade, diante de nossa fragilidade. A tremenda injustiça universal que se verifica na constatação de que uma ânfora de barro confeccionada há dois mil anos continua firme em sua existência terrena e, ainda por cima, se der sorte, é admirada em museus, enquanto que eu estarei debaixo da terra em poucas décadas sem ser admirado por ninguém e sem poder admirar ânfora nenhuma.

Há um embate silencioso no mundo: almas versus coisas. As coisas estão ganhando. Elas sobrevivem soberbamente, enquanto somos corroídos por vírus e bactérias. E quando vírus, bactérias, fungos ou cupins atacam as coisas, lá vamos nós socorrê-las, e a recíproca não é verdadeira.

Temos, apenas, a vantagem da mobilidade. Saímos do lugar com nossas próprias pernas ou de carona a bordo de coisas nas quais metemos rodas. Os objetos, sejam eles quais forem, estão condenados à estagnação espacial. São uns fodidos. Só saem do lugar se a gente resolver movê-los. Nós nos movemos, como dizia Galileu. Bem, ele se referia a outra coisa, e nem foi bem essa a frase, mas tenho absoluta certeza que Galileu também deve ter se enlevado num momento qualquer ao observar uma linda estátua de mármore, perfeita e musculosa, invejá-la por um instante, sabedor de sua quase eternidade, ameaçada apenas por algum doido disposto a destruí-la a marretadas, e exclamado, diante dos olhos frios da escultura: “E no entanto, nós nos movemos. E meu pinto é grande”. E mandou-lhe uma banana.

Tudo isso, tais reflexões, profundas e quase definitivas acerca da pugna Almas versus Coisas, adversários que já merecem maiúsculas, as elaborei dentro do carro ao passar diante de um posto de gasolina quando me dirigia a uma pequena cidade perto de Milão para comprar peças de lambreta. Parênteses: usarei lambreta como substantivo feminino comum, e não a versão substantivo próprio “Lambretta”, com dois tês e ele grande no início, como conviria a um nome, porque as Lambrettas foram e são objetos tão espetaculares que, como gilete e cotonete, deixaram de herança aos dicionários vocábulos incorporados ao idioma. Não é qualquer objeto que logra tal façanha, estes são de fato privilegiados, na escala hierárquica das coisas estão acima de Nescau ou Telefunken, que nunca foram bons o bastante para virar verbete de dicionário.

Dito isso, seguia eu para comprar as peças de lambreta na pequena cidade perto de Milão quando passei diante do posto de gasolina, na pista oposta, à minha esquerda, cuja localização registrei porque na volta precisava encher o tanque senão a locadora me cobraria os tubos. Ei, já conheço esse posto, notei, e comecei a refletir sobre o embate silencioso entre Almas e Coisas. Aquele posto estava lá no ano passado e no ano retrasado, ele jamais saiu do lugar e jamais sairá, eu vou morrer e ele vai continuar lá.

Bela merda, meu lado menos lúdico e reflexivo reagiu. Grande descoberta, que observador sagaz, continuou. A estátua do Borba Gato também está no mesmo lugar há anos e nunca lhe despertou pensamentos regados a Galileu, prosseguiu, sem me dar tempo de abrir uma discussão. A bicicletaria do japonês perto de casa, idem. Por que essa viadagem de só elaborar essas teorias ridículas quando está sozinho num automóvel na bela Itália, fazendo ares de dândi solitário?

Meu lado menos lúdico, que pode ser chamado também de Bom-senso (cópia descarada de personagem vital de “O Homem Duplicado”, de Saramago; mas acho que todos temos, Saramago apenas o colocou no papel divinamente, como sempre), é um pentelho. Mandei-o às favas e prossegui em meus pensamentos sobre Coisas versus Almas, observando, por exemplo, que se não fossem algumas coisas eu não conseguiria achar a loja de peças de lambreta que fica em Rodano, a pequena cidade perto de Milão.

Como vou todos os anos, tenho lá minhas referências, mas a melhor de todas é mesmo a placa que indica Rodano. O posto apenas sugere que estou no caminho certo. Depois dele ficam faltando a placa, a plantação de milho e a caixa d’água, nessa ordem. Saindo da estrada principal e entrando à direita, seguindo a placa, é só esperar pelo milharal, virar o carro de forma que as espigas fiquem à minha direita e mirar na caixa d’água que vem a ser a edificação mais elevada de Rodano. Pouco antes dela, à esquerda, depois da rua que tem o nome de um famoso comunista italiano, Gramsci, está a rua das lambretas. O dia em que derrubarem essa caixa d’água, ou se resolverem plantar figos em vez de milho, não acho mais a loja.

E voltam-me as reflexões sobre Almas e Coisas. Sem a caixa d’água, nada de lambreta, o que me fará mal à Alma. Mas, felizmente, aquela caixa d’água nunca vai sair de lá, o que me garante muitos anos de visitas ao milanês que vende as peças e as lambretas propriamente ditas, caso houver interesse. O mesmo não se pode dizer do milharal, sempre sujeito aos ventos da agroindústria, um dia pode ser que os repolhos sejam mais rentáveis, e lá se vai minha referência rumo às lambretas.

Compro as peças, tomo meu caminho de volta, e é fácil: agora, a caixa d’água tem de ser vista apenas pelo retrovisor, e se o milho estiver à minha esquerda, ótimo sinal, é só seguir em frente e procurar as placas indicando Milão, onde fica o aeroporto. Mas não nos esqueçamos de quem ensejou este compêndio, o posto de gasolina, ei-lo desta feita à minha direita, paremos e abasteçamos.

É um postinho de merda, para dizer a verdade, acho que o escolhi por piedade de sua existência medíocre, daqueles que ninguém nota, pequeno, acanhado, sujo, sem néons, lojas de conveniência, restaurantes. Um verdadeiro postinho de merda. Eu poderia ter sido mais criterioso para eleger o representante das Coisas que será eternizado nestas letras, mas agora é tarde, Galileu que me perdoe, “e no entanto nos movemos” saiu de sua boca diante de uma estátua de mármore de pinto pequeno, no meu caso, diante de um posto de merda.

Parei ao lado de uma de suas quatro bombas barulhentas, o frentista encheu o tanque, fui pagar no pequeno escritório encardido e quando o que parecia ser o gerente passava o cartão de crédito, pedi um café de uma máquina que se apresentava como único serviço extra aos clientes. Sei operar bem essas máquinas, mas o gerente, mal-educado, com um cigarro no canto da boca, me mandou nem tocar na distinta. “Faço eu”, disse. Aproveitando um momento de distração do gerente, ele de costas fazendo o café, sorrateiro apossei-me de um cartão do posto. Cartão de visitas, mesmo, poderia ter pedido em vez de usar meus dotes de mão-leve, mas o gerente iria ficar ressabiado, o que esse imbecil está querendo com um cartão de um posto de merda na periferia de Milão, perguntar-se-ia, e como não gosto de responder a perguntas cujas respostas não tenho, peguei o cartão sem pedir e sem ser notado.

Está aqui na minha frente, um pedaço de papel subtraído das entranhas do Posto, agora com maiúscula também, que ele merece, afinal foi o eleito como Coisa para falar de Coisas & Almas. O Posto tem nome, Serella, e pertence aos irmãos Ivo e Flavio Rossi, vejam que impressionante coincidência, um dos donos do posto se chama Flavio. O Posto tem endereço e telefone, Via Nuova Rivoltana, km 3,730, jurisdição de Limito di Pioltello, que pertence à Grande Milão. Vende produtos Agip, o telefone não darei para evitar congestionamento da linha.

Saí do Posto com a certeza de que no ano que vem ele estará lá, e no outro, e no outro e no outro. Um dia o Flavio Rossi vai bater as botas, assim como seu irmão Ivo, e eu também, mas o Posto seguirá em sua saga de encher tanques de gasolina ou diesel e completar a água de radiadores para todo o sempre, ou até o dia em que resolverem ampliar a Via Nuova Rivoltana, o que parece improvável, mas nunca se sabe. No dia em que isso acontecer, essa Coisa, o Posto, será demolido e se igualará às Almas de Flavio e Ivo Rossi, e nesse caso, eu diria que a vitória na partida entre tais específicas Almas e Coisas terá sido das Almas, afinal elas se moveram durante suas vidas, como preconizava Galileu, saíam do Posto à noite para suas casas, suas mulheres e filhos, para os bares e cafés, para uma pizza com amigos, um jogo de bocha, uma aventura num prostíbulo, uma viagem para a praia, Flavio e Ivo se apaixonaram, amaram, choraram, sofreram, traíram, foram traídos, viram e viveram o que o Posto, a Coisa, neste caso, não viu e não viveu.

Ainda assim, é uma disputa injusta, do meu ponto de vista. Um posto de merda não deveria perdurar mais do que os irmãos Rossi.

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DIÁRIOS, BÉLGICA

SÃO PAULO (não muda nunca) – Putz, achei um texto de 1997. Que poderia ter sido escrito hoje, pelo jeito. Spa é sempre uma grande interrogação climática. Está aí embaixo, sob ordens de minha editora Alessandra Alves, que não se cansa de repetir: “Coloque seus diários no ar nas semanas de corrida, ajuda a vender seus livros!”. O e-mail dela, para comprar os livros, é aalves77@hotmail.com.

Sobre os itens de vestuário citados abaixo, prometo tirar uma foto hoje de algum deles, se encontrar, e colocar aqui. 

OS CASACOS BELGAS

Tenho uns dez casacos em casa, contando jaquetas, trench-coats, capas de chuva e blusões em geral. Oito deles comprei aqui, em Spa-Francorchamps, num shopping improvisado em barracas na entrada do circuito. O problema é que sempre esqueço de trazer agasalhos, as corridas na Europa são realizadas sempre no verão do Hemisfério Norte, enfim, é problema meu se sempre esqueço que estou indo para Spa.

E a Bélgica é a Bélgica. Chove todos os anos, não tem erro, se houver uma única nuvem sobre a Europa, ela estará sobre a Bélgica, ou, mais precisamente, sobre Spa e Francorchamps, duas cidadezinhas simpáticas ligadas por uma estrada que faz parte de uma pista de Fórmula 1.

E faz frio, também. Por isso, todos os anos compro um casaco qualquer aqui, por mera questão de sobrevivência. É rotina. Saio do meu chalé (corrida meio campestre, essa aqui) congelando, debaixo de um toró, chego ao autódromo e compro a primeira coisa que encontro capaz de me aquecer um pouco.

Teve um ano em que essa primeira coisa foi uma jaqueta da Pacific Racing, o que afinal acabou virando uma peça de coleção, já que a equipe nem existe mais. Me contaram que foi a única vendida até hoje, porque naturalmente ninguém é louco de comprar sequer um boné da Pacific, o que dizer de uma jaqueta, ainda mais de lã grossa, daquelas que pinicam.

Tenho também uma capa com a foto do Nigel Mansell sem bigode nas costas, mas essa, confesso, usei um dia só e tentei trocar porque não sou palhaço. A moça que vendeu não aceitou de volta. Argumentei que não sabia da foto e ela me mandou procurar o Procon. Tive que gastar uns francos belgas a mais para comprar algo menos ridículo, um casacão preto, meio antiquado, com as cores antigas da Lotus, preto e dourado. Fiquei parecendo um agente funerário, mas era melhor que o Mansell sem bigode.

Neste ano, quando fazia a mala às pressas para embarcar rumo a Frankfurt (e de lá, de carro, 300 km até Spa), lembrei que estava indo para a Bélgica, e não para Mônaco ou Magny-Cours, lugares quentes, ensolarados. Malandrão, catei o casaco piniquento da Pacific, o fúnebre da Lotus, uma jaqueta (essa eu nem lembrava que tinha) azul turquesa da época da Leyton House e um guarda-chuva sensacional, ele não abre direito, mas tem Andrea Moda escrito num dos cantos. Cheguei aqui armado até os dentes.

Está um calor dos diabos. Mesmo na sexta, a chuva que caía vinha quente do céu, dava para fazer chá. Ontem, sábado, fez sol o dia inteiro. E eu não trouxe camisetas, nem bermudas, nem bonés, nem mesmo um tênis – só botas. Fui obrigado a comprar tudo nas barraquinhas, até uma T-shirt com o Villeneuve estampado. Perguntei se não tinha alguma pré-cabelo amarelo, mas não tinha. Ainda bem que aqui ninguém me conhece.

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DIÁRIOS, HUNGRIA

SÃO PAULO (comprem, comprem!) – Ah, chega de dar o e-mail da Alessandra Alves. É a última vez, até a próxima corrida: aalves77@hotmail.com para comprar meu livro, que tem essas crônicas de viagens escritas séculos atrás.

Como é semana do GP da Hungria, lá vai um textinho de 2004. Gosto desse, apesar de não gostar de quase nada que escrevo quando releio.

MOLEQUES ORELHUDOS

Eu gosto de crianças orelhudas. As crianças, com cinco ou seis anos, começam a ficar orelhudas e assim permanecem até os oito, nove. Têm rostos redondos, como pizzas, e orelhas de abano. São lindas. As orelhas lhes conferem um ar de curiosidade que os adultos jamais seriam capazes de reproduzir. São como antenas que, acompanhadas de olhinhos quase sempre brilhantes e nervosos, tentam entender o mundo. Sem abrir muito a boca, porque estão banguelas e têm vergonha dos buracos deixados por dentes levados embora por fadas em troca de moedas. A sabedoria em sua essência: ouça muito, veja tudo, fale pouco, e entenda as coisas.

Estava na estrada que liga o autódromo à cidade, quase de noite. Noite era, mas verão europeu é aquele negócio, nove da noite e o céu está claro. Devagar, porque correr com carro ruim não tem graça. Na frente, um Wartburg. Daqueles feios, anos 80, cor indefinível, um cinza-bege ou bege-cinza, que suponho ser a cor dominante de todo o Leste europeu. Restam alguns rodando pela Hungria, Croácia, República Tcheca, Bulgária, Romênia, alguns rincões da Alemanha. Aquela cor de “Adeus, Lênin!”. Lá dentro, de joelhos no banco traseiro, o moleque orelhudo.

Não visitei o Leste quando o Leste era Leste, mais uma das lacunas de minha formação que tem mais lacunas que espaços preenchidos. Por isso, tento me transportar para os anos em que o planeta tinha graça quando vou à Hungria. Os moleques orelhudos ajoelhados no banco traseiro de Wartburgs ajudam a compor o cenário que imagino no pré-queda do Muro. Budapeste não é exatamente a descrita por Chico Buarque, que nunca esteve lá mas escreveu um livro esplêndido, ambientado às margens do Danúbio e nos subúrbios magiares. Descrita quase à perfeição. Porque não bastam os palácios, castelos, colinas e pontes que se vêem em cartões postais, nem mesmo a simplicidade espartana das moradias proletárias, para sentir uma cidade como Budapeste. É preciso mais. É preciso compreender os acrílicos de Budapeste, os revestimentos de fórmica, as cores desbotadas, as estruturas pretensamente modernas formadas por cubos encardidos e triângulos transparentes amarelados, os hotéis embolorados e a madeira que cobre as paredes e finge ser nobre. Coisas construídas e fabricadas nos anos 60 e 70 para conferir um ar de contemporaneidade e luxo a países nitidamente atrasados em relação ao exuberante Ocidente fast food.

Atrasados? Depende bastante do ponto de vista. Em termos materiais, sim. Humanos? Não sei. E hoje é tudo igual.

E para parecer iguais e modernos e prósperos há trinta anos, os países do bloco soviético se esforçavam, com os parcos meios de que dispunham, de modo a impressionar visitantes. Donde vicejam por trás da antiga Cortina de Ferro terminais de trem e ônibus com aspecto tristemente futurista, hotéis gigantescos, estádios e ginásios grandiosos, enormes torres de TV, tudo abusando dos acrílicos e dos plásticos para parecer moderno, mas que trinta anos depois mais parecem alegorias de escola de samba depois do desfile.

Era assim meu hotel, no quarteirão chique das embaixadas instaladas em Budapeste, em meio a mansões luxuosas mantidas por outras nações. Caindo aos pedaços, mas firmemente disposto a manter a pose dos tempos em que recebia orgulhosamente delegações estrangeiras, fosse para reuniões políticas, fosse para competições entre orgulhosos jovens atletas comunistas vindos de todos os lados, ou ainda para congressos de cientistas brilhantes engajados na corrida desenvolvimentista contra os, e aí o termo se aplica sem restrições, inimigos ocidentais.

O Muro caiu, meu hotel veio junto. Ainda se vê na recepção um calendário com a grife da Air France, daqueles eternos, em que se atualizam dias e meses girando pequenas roletas, datado de 1969. Apesar dos ânimos acirrados entre um lado e outro da Europa, a Air France voava para Budapeste e os tripulantes de seus Constellation possivelmente se hospedavam no meu hotel. Ficou o resquício dos bons tempos na parede da recepção, como a me dizer: olha aqui, este hotel já foi bom, rapaz; respeite-o.

Respeito, claro. No sábado de manhã, ligo o chuveiro e não há água quente. Vou ao telefone para solicitar alguma informação à recepção, e o telefone não funciona. Ligo do celular e o recepcionista me informa com a maior tranquilidade do mundo que a água quente acabou mesmo no hotel todo. Não sou um privilegiado. No comunismo, não há privilegiados. Uma caldeira pifou. Nenhum pedido de desculpas, nem previsão de retorno. Nem eu pedi, e sequer me queixei. Quando um problema não tem solução, solucionado está. Tomei banho frio. Fosse na América, me lembra um, e isso jamais aconteceria. Verdade. Alguém processaria o hotel. Desço ao salão de café-da-manhã, deliciosamente decadente, com suas luminárias formadas por numerosos globos de vidro leitoso e saleiros vazios, e ninguém, entre os hóspedes, parece preocupado com a água quente. Comem e fumam alegremente, sem maiores sinais de revolta. Resignação absoluta diante de um pequeno problema, e afinal o que é tomar um banho gelado? Minha intenção inicial de reclamar meus direitos de consumidor, de encarnar meu lado procon, foi imediatamente sepultado ao bom-dia que me dirigiu a garçonete de camisa branca e saia curta preta, bela como são as húngaras, sedutora como uma personagem de Milan Kundera, bem mais excitante que qualquer californiana bronzeada de biquíni andando de patins sem bunda e cheia de peitos.

Não tem água? Não tem água, pronto. É possível que há trinta anos alguém no hotel levasse um esporro daqueles, mas só se desse o azar de haver um graduado de algum politburo qualquer lá hospedado, o que definitivamente não é o caso em 2004. Somos todos turistas, e se queremos pagar essa miséria por um quarto num hotel outrora considerado, temos de arcar com as intempéries e conviver com elas. Quem não estiver disposto, que se enfie num Holiday Inn ou num Marriott. Também tem, em Budapeste, e nesses dá para reclamar na recepção, o freguês tem sempre razão na América e em suas sucursais. No meu hotel decadente, o cliente que se vire e se contente com o bom-dia da garota do restaurante, que vem sem grandes sorrisos ou complementos artificiais, mas carregado de solenidade e educação.

Atrás do menino orelhudo no Wartburg, notei que ele olhava para mim, o queixinho repousado sobre os bracinhos cruzados, e acenei. Sempre faço isso, micagens para crianças nos outros carros, o que vem se tornando cada vez mais difícil onde moro, porque todos os carros têm películas escuras nos vidros e não se enxerga o que há dentro. E se chegar muito perto, é capaz de amassar o pára-choque num daqueles reboques cromados. São Paulo é a cidade com maior número de reboques no mundo, embora ninguém reboque nada, não conheço ninguém que tenha um trailer ou puxe sua motocicleta numa carreta para as férias de verão. Os reboques de São Paulo mereceriam um estudo, e não sou o primeiro a notar isso, outro dia li um artigo do professor Pasquale num caderno de automóveis de um grande jornal, revoltado com a febre dos reboques. Eles só servem para foder o carro de trás quando o cara está manobrando. São o emblema do que viramos, nós da cidade grande. Foda-se você: encosta no meu carro que o reboque fura seu pára-choque. Desprezo quem tem reboque no carro e não reboca nada.

Mas não nos desviemos. Fiz caretas e sinais para o moleque orelhudo, até que dele arranquei um sorrisinho tímido, como se me dissesse, pode parar, já vi, o senhor é muito gozado mas já passei da idade, esse tipo de coisa minhas orelhas já viram antes, mas não sosseguei enquanto ele não fizesse uma careta também, e ele fez, acho que para se livrar de mim, acelerei e passei o Wartburg, feliz da vida e vitorioso. As crianças do Leste são ainda mais orelhudas, porque o corte de cabelo é ainda antiquado, socialista como só ele.

Segunda-feira, dei-me um almoço. O avião saía tarde, muni-me de um mapa cheio de reclames de pontos turísticos e encontrei um restaurante onde são servidas refeições ao estilo medieval. Já tinha estado nele anos atrás, para jantar, e foi interessante, uma balbúrdia fabulosa, garçons e garçonetes a caráter que a cada meia hora paravam de servir para encenar algum episódio com lanças e armaduras. Resolvi arriscar, encontrei o lugar fácil, se chama Sir Lancelot, e fui ao meu almoço medieval. Estava vazio, apenas uma mesa ocupada por um sujeito que me cumprimentou à entrada, um jovem que depois me disse em bom inglês que era romeno e me desejou “bon apetit”, uma manifestação de gentileza desprovida de qualquer outro interesse à qual retribuí e ele não mais me incomodou, preocupado que estava com seus afazeres, anotações em uma caderneta, talvez uma espécie de diário.

Outro dia um amigo me contou que foi à Disney, ou algo parecido, em Orlando, um daqueles parques, e a excursão incluía um jantar medieval, com apresentação da cavaleiros e o diabo a quatro. Pode existir farsa maior do que um jantar medieval na Flórida? O pior é que esses embustes encantam os turistas do mundo todo. Muito bacana, garantiu-me o amigo. Mas se é para brincar de cavaleiro da távola redonda, que se brinque onde havia cavaleiros de verdade e távolas idem. Naquele restaurante de Budapeste, por exemplo, uma taverna num porão onde o sol nunca entrou, com paredes pintadas a mão, cadeiras de madeira rústica e música de harpas, flautas e violinos saindo de uma caixa de som Sony, porque ali ninguém queria me enganar; era um almoço tipo medieval, entende? Não era medieval propriamente dito, ninguém ali fingia que era cavaleiro, e as meninas que servem, apesar das roupas meio antiquadas, amarram suas camisas acima da barriga e exibem seus piercings no umbigo. Tipo medieval, entende? Vocês que vão à Flórida que me desculpem, mas não estamos num teatro. Nesse embate medieval contra Budapeste, perdem de goleada em todos os sentidos.

A um determinado momento, éramos no salão eu, fumando, tomando vinho ao meio-dia e lendo um livro depois de devorar uma perna de frango sem molho barbecue, o romeno escrevendo alguma coisa à luz da vela de sua mesa e um casal de americanos atônitos com a fumaça e a sem-cerimônia de seus pares, um que lia e outro que escrevia, enquanto eles, certamente, esperavam por algum efeito especial, talvez o rei Arthur em 3D surgindo de uma parede em holografia para dizer thanks for coming and enjoy the ultimate experience in medieval dinner. Sorry, putada, aqui na Hungria a Idade Média não é de isopor, nem controlada por um software da Microsoft. Ponham a cachola para funcionar e imaginem as coisas.

Volto ao Brasil com muito menos raiva da Hungria do que em anos anteriores, não sou uma pessoa confiável, mudo de opinião muito rapidamente sobre tudo. O moleque orelhudo do Wartburg, o hotel sem água quente e meu restaurante medieval foram o bastante para voltar a amar Budapeste e seus acrílicos desbotados, para tentar compreender sem rancores como deve ter sido difícil, e ainda deve ser, encarar as transformações de um regime duro e cinzento para essa aparente exuberância capitalista em que as noções de posse, tempo e diversão são tão confusas e aceleradas.

Volto ao Brasil e três dias depois estou num show do Ira!, a convite do amigo que toca na banda e de quem senti o maior orgulho lá embaixo, no meio do povo. O Ira! é uma puta banda, que tem uma puta importância, cujos integrantes têm todos mais ou menos minha idade, mas que tocavam e cantavam enquanto eu achava que fazia alguma coisa de importante escrevendo. Anos 80. Duas décadas se passaram, mas ali embaixo não havia muitos quarentões, o que só comprova a perenidade de certos artistas, e os que havia se comportavam de outro jeito, diferente da garotada. Pulavam menos, mas cantavam mais e contemplavam mais. O que viam no Ira!? Eles mesmos, vinte anos atrás? Acho que sim; os nossos vinte e poucos anos, quando achávamos que éramos muito loucos, mas que nada. Loucos somos hoje, naquele tempo só queríamos namorar, pegar o carro escondido, nos apaixonar e descobrir um país que saía das sombras, sem que as sombras nos tivessem afetado muito. Portanto, era tudo muito mais simples e, ao mesmo tempo, monumental, como canta o Ira!, como vem cantando sem mudar há vinte anos, enquanto do lado de cá nós envelhecemos na cidade, mas eles continuam os mesmos garotos de vinte anos, e é isso que gostaríamos de ser sempre, garotos de vinte anos, ou moleques orelhudos em Budapeste.

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DIÁRIOS, ALEMANHA

GUARUJÁ (fechando o botequim por hoje) – A mando de minha editora Alessandra Alves, em todas as semanas de corrida eu devo publicar algum texto antigo que está no meu livro. O meu livro é ela que vende, por e-mail, aalves77@hotmail.com. Alessandra Alves, minha editora, acredita que estes textos estimulam as pessoas a comprarem meu livro. Eu já acho que ninguém mais lê textos desse tamanho.

MIL QUILÔMETROS DE SOLIDÃO (escrito em julho de 2003)

Aprendi muito entre o GP da Europa e o GP da França.

Aprendi que adoro andar de trem, algo que produz uma nostalgia de uma vida que não é a minha, que conheci já bem tarde, aos 25 anos, quando vim à Europa pela primeira vez, e só de trem andamos, eu e ela, éramos jovens e tudo nos espantava e nos deixava boquiabertos.

Aprendi que já há trens muito velozes na Alemanha, também, como os TGV franceses e os trens-bala japoneses. São bons, te levam rápido de um canto a outro, muito melhor do que viajar de avião. Falta o charme do barulho de trem, as rodas passando pelas emendas dos trilhos num suceder interminável que te dá sono, mas é um trem, afinal, sai de uma estação, pára em outras, uns descem e outros sobem com suas malas e vidas, encerra a viagem numa grande gare.

Aprendi que a gare de Munique é bela, pulsante, cheia de gente indo e vindo, já havia estado em Munique, acho que sempre digo que gosto da Alemanha, e gosto mesmo, um país inacreditável quando se sabe que há pouco mais de 50 anos estava de joelhos, todo arrebentado pela sanha de um homem.

Aprendi que os taxistas de Munique são quase todos imigrantes, ao menos o que peguei para ir ao hotel era, tomo o exemplo individual e generalizo, e não gostam de muito papo, apenas mostrei um papelzinho com o endereço, quinze minutos depois ele me apontou o valor da corrida, paguei, e ele foi simpático, tirou a mala do carro, jamais o verei de novo.

Aprendi que jamais verei de novo muita gente e muita coisa na vida, com quem a gente vai cruzando ao acaso, como o velhinho simpático e solícito do hotel em Munique, que reservei pela internet sem saber direito se o lugar era bom, e era muito bom, no norte, longe do centro, ao lado do maior parque da cidade, o Englisch Garten, que foi construído por certo kaiser ou imperador.

Aprendi que não é preciso fazer nada de especial numa cidade que não é a sua, e como ainda estava sol, muito calor, fim de tarde, coloquei um calção e uma camiseta, dez euros no bolso, um boné e resolvi sair correndo, correndo, mesmo, a pé, achar o parque, ver as coisas como um Forrest Gump sem destino, e corri, corri, corri, achei o parque, e comecei a ver coisas que nunca mais vou ver de novo, como o Trabant esquecido num quintal de uma casa dentro do parque, como a bandeira com o arco-íris pedindo paz pendurada na pequena varanda de um prédio também dentro do parque, provavelmente alojamento de estudantes, o parque fica perto da universidade.

Aprendi que há um lago no parque, um lindo lago, e o que o sol se derramando no fim de tarde em Munique sobre o lago é muito belo, e eu corria, corria sem parar, e tudo ia passando por mim muito rápido, e do outro lado do lago havia muita gente banhada pelo sol, e fui até lá correndo e correndo.

Aprendi que no verão eles abrem dentro do parque, ao lado do lago, um Bier Garten, jardim de cerveja, é o que quer dizer, e as pessoas se espalham por mesas compridas de madeira para tomar cerveja, comer salsicha e batata frita, e falam muito e bebem e riem e se rendem ao sol. Eu estava com fome e sede, parei de correr, resolvi me render ao sol e ficar ao lado daquela gente toda que nunca mais verei de novo, e meus dez euros deram só para a salsicha e a batata frita, a cerveja ficou para outro dia, fiquei com sede, matei a fome, e prometi a mim mesmo que um dia volto ali para tomar cerveja.

Aprendi que andar a pé sem destino, sem mapa, sem nada, é bom demais, e voltei a pé ao hotel sem obrigação de fazer mais nada, e liguei a TV num canal francês e vi um documentário sobre São Paulo, a minha cidade, falavam de tudo, trânsito, favelas, gigantismo, um documentário sobre uma das maiores cidades do mundo com seus problemas e encantos, francês é bom de documentários, e lá pelas tantas apareceu uma imagem do meu prédio, de onde moro! Caramba. Depois entrevistaram a prefeita, e ela fala francês direitinho, aprendi isso, também, que a prefeita fala francês, e que está fazendo uma porção de coisas boas em São Paulo que, morando em São Paulo, eu não sabia que ela estava fazendo. A gente não sabe de nada.

Aprendi na manhã seguinte que alemães são sempre muito pontuais, eu havia agendado uma visita à Audi, que fica em Ingolstadt, a 85 km de Munique, muito mais para ver o museu cheio de DKWs do que qualquer outra coisa, e faltavam cinco para as nove quando estacionou um belo Audi na rua, vi pela janela, era o motorista que me levaria para Ingolstadt.

Aprendi que de um dia para o outro o tempo muda muito, chovia e fazia frio, e meu motorista era simpático e dirigia rápido, me mostrou o estádio que estão fazendo na estrada para a Copa de 2006, e aprendi que ele gosta de futebol e que torce para o time pequeno de Munique, não o Bayern, mas o 1860, o que me deixou satisfeito porque também torço para um time que não é lá essas coisas, e aprendi que a gente pode ter algo em comum com alemães que nunca vimos e que nunca veremos outra vez.

Aprendi que se você é jornalista e solicita uma visita a um museu ou a uma fábrica mesmo que movido a interesses meramente pessoais, na Alemanha te recebem com grande solenidade e atenção, e foi assim que conheci quatro moças encantadoras que me guiaram pelo museu e pela fábrica, Angelika, Cecilia, Uta e Noeli, esta uma brasileira de Curitiba que fala duzentas línguas.

Aprendi uma porção de coisas sobre a Audi, a Auto Union, a DKW, a Horch, a Wanderer, mas não creio que isso interesse a todo mundo, por isso vou pular essa parte, guardo minhas lembranças da visita ao museu comigo mesmo, assim como as lembranças que comprei na lojinha, as miniaturas, as fotos, às vezes eu mesmo me assusto com essa paixão quase obsessiva por uma marca de automóvel que nem existe mais. Cada louco com sua mania, é o que digo sempre, para não esticar a conversa.

Aprendi que pêra com gorgonzola e figo fica bom, foi o que me serviram no restaurante chique da Audi, e aprendi muito sobre como se faz um carro na fábrica, um negócio impressionante com suas prensas monstruosas, seus robôs que pegam, levantam, transferem, colam, soldam, pintam, aparafusam, levam, trazem, calculam, e com os homens que operam tudo aquilo, e como é que pode de uma chapa de aço que entra de um lado sair um automóvel do lado de lá, e tão bom, bonito, perfeito.

Aprendi que meu carro saiu dali e que se eu procurar tem um caderninho no arquivo da fábrica onde está anotado tudo que nele foi feito, e quando, e como, e, principalmente, por quem. Quem colocou isso, quem apertou aquilo, quem testou, quem passou um paninho, e eu olhava para aqueles operários e operárias e me sentia um pouco amigo deles, afinal foi dali que saiu meu carro que me leva a todo canto, onde coloco meus filhos para viajar e para ir à escola, há um grau de intimidade aí. Não vou vender meu carro nunca.

Aprendi, quando saía da fábrica com um carro muito bonito, parente do meu, emprestado, que ficaria com saudades daquelas moças tão atenciosas. Era terça-feira, voltei a Munique, na quarta de manhã fui a Dachau.

Aprendi em Dachau, o primeiro campo de concentração da Alemanha, que somos, os seres humanos, uns merdas. Foi uma visita marcante, talvez a mais marcante de minha vida besta. Em Munique você pode fazer uma excursão a Dachau, é algo bem interessante, juntam-se algumas pessoas na estação, vão todos de transporte público, trem regional e ônibus, e uma moça que devia ser britânica era a guia.

Aprendi que não se deve falar muito nessas excursões, estava muito calado naquele dia, e foi em silêncio que passei aquelas horas vendo aquilo tudo. Não é o caso de dar aula de história. Tenho um livreto sobre Dachau aqui ao lado, repleto de dados e casos, pensei em escrever sobre isso, sobre os absurdos, a crueldade etc, mas essas coisas a gente sente, e cheira, e vê, e não sei se dá para contar direito. Uma hora, no fim da visita, quando passava pela alameda que ficava entre os barracões que alojavam os prisioneiros, chutei uma pedra e fiquei com dó dela. Trouxe a pedra. Tirei a pedra de lá. Pedras e insetos saíam de Dachau sem problemas na Segunda Guerra. Pessoas, não. Morriam lá dentro, empilhadas e doentes e torturadas, depois iam para o forno e viravam fumaça.

Aprendi sobre todos nós em Dachau, mas havia uma viagem pela frente, voltei ao hotel, comi uma salsicha num posto de gasolina, comprei um mapa, peguei o carro e dirigi 450 km até anoitecer. O mapa não era dos melhores, genericamente “Europa”, o que significa que incluía a Lituânia, o Uzbequistão e a Finlândia, e eu não ia para tão longe, mas para isso, hoje, há sistemas de satélite no carro que nos indicam as direções, em várias línguas.

Aprendi que dá para acordar na Alemanha, ir a Dachau, passar pela Áustria, parar na fronteira com a Suíça e entrar na França, tudo no mesmo dia, e fui seguindo, Memmingen, Kempten, Lindau, Saint Gallen, Zurique, Basiléia, parei em Mulhouse, já na Alsácia, uma região fronteiriça entre França e Alemanha onde se fala alemão, e onde há o maior museu de carros antigos do mundo, foi meio sem querer. Era uma coleção de dois irmãos que ao longo dos anos foram juntando carros, e acabaram falindo um dia, fugiram para a Suíça e quando o governo francês abriu o galpão que ninguém sabia direito o que tinha dentro descobriu centenas de carros, muitos do século 19, a maior concentração de Bugatti do planeta, hoje é uma atração internacional, dei muita sorte de achar esse museu, do qual já havia ouvido falar mas, repito, caí nele sem querer.

Aprendi que de Mulhouse a Magny-Cours, o destino final, seria possível ainda ver muita coisa, e entrei no carro e parti para mais 450 km de estradas, o sistema de satélite já não funcionava mais, era apenas para a Alemanha, e peguei o mapa e fui em frente, Belfort, Baume-jes-Dames, adoro esses nomes de cidades francesas, Dijon, Beaune, estradinhas, plantações de uva, vinícolas, a região da Bourgogne, ou Borgonha, acho que é como Borgonha que se traduz, Autun, Château-Chinon.

Aprendi que por esses caminhos se compram vinhos feitos ali mesmo, e que se pode degustar, e me deu uma vontade imensa de tomar vinho e escolhi uma dessas casas, parei, e o rapaz me atendeu e experimentei dois tipos como se entendesse muito. O segundo, ele me disse, era mais “fruté”, concordei, é mais fruté, mesmo, me dá uma dessas, e saí contente da vida com minha garrafa de vinho fruté debaixo do braço.

Aprendi, finalmente, que depois de dirigir sozinho mais de mil quilômetros por quatro países diferentes a gente fica muito sensível a tudo, louco de vontade de ter alguém do lado para dividir o que está vendo, e que a solidão só é boa para isso, para sentir a falta dos outros.

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7 DO 7 DE 2005

SÃO PAULO (é…) – Putz, cinco anos, já. Só descobri isso ao ler o blog do Fábio Seixas, que está fazendo a viagem mais louca que qualquer ser humano já realizou. Cinco anos do atentado de Londres. Estávamos lá. Foi o último “Diário de Viagem” que escrevi.

Bom, se interessar a alguém, e como foi às vésperas de um GP da Inglaterra, lá vai a bobagem que escrevi. Essa não está no livro, que a Alessandra Alves continua vendendo alegremente pelo aalves77@hotmail.com.

LONDRES, 2005

Desembarquei em Heathrow às 10h. No caminho para pegar as malas, vi ao longe, no andar de baixo, a imagem na TV e a legenda enorme, letras brancas sob fundo vermelho. Breaking news. Ônibus explode no centro de Londres. Peguei a mala, entrei no ônibus que me levaria à locadora de carros, um sujeito recebe uma ligação no celular, fala alguns palavrões, desliga, vira-se para mim e diz: “Estão explodindo tudo, já morreram quatro”.

Bem, vida de repórter é isso aí. Enquanto pego o carro e assino a papelada, chega meu colega da “Folha”. Nem tem muito o que discutir. Silverstone saberá esperar. Vamos a Londres.

Foram quatro explosões, entre 8h51 e 9h47. As três primeiras em trens do metrô; a última, num ônibus de dois andares. Londres acordou cheirando fumaça, sangue e carne queimada. Morreram 37 pessoas e mais de 700 ficaram feridas. Os alvos estavam todos na região central da cidade. A primeira bomba foi detonada entre as estações de Aldgate e Liverpool Street. A segunda, na linha Piccadilly, a mais movimentada de todas, entre King’s Cross e Russell Square. A terceira, na estação de Edgware Road. O “gran finale” ficou para um “double decker” vermelho, um dos símbolos da capital britânica. Na altura de Tavistock Square, o teto do ônibus foi pelos ares e ele se abriu como uma lata de sardinhas.

Imediatamente, o centro de Londres foi evacuado e fechado pela Polícia Metropolitana e pelos serviços de emergência, que desde 2001 fazem exercícios simulados para atender a catástrofes como as de ontem. A cidade estava sob ataque. O metrô foi paralisado, os ônibus deixaram de circular, as ruas foram bloqueadas, as linhas de trem foram interrompidas e o atendimento aos feridos em hospitais da região foi considerado “rápido e exemplar” pelas autoridades locais, que pediam, pelo rádio, que ninguém viesse a Londres. Aos que se encontravam no centro, o pedido era para que ficassem quietinhos e não fossem a lugar algum. No panic, please.

Da Escócia, onde participava da abertura da cúpula do G8, o primeiro-ministro Tony Blair mandou avisar que seu país não iria se dobrar a ameaças terroristas, “bárbaras e cruéis”. Já ouvi esse papo antes. Pegou um helicóptero e logo depois do almoço estava em Downing Street, 10, a sede do governo britânico. Quase ao mesmo tempo, num site da internet, um grupo autodenominado Organização Secreta Al Qaeda na Europa assumia os atentados. Terrorismo globalizado é isso aí. A Al Qaeda tem filiais no Ocidente.

Esperava-se o caos, mas ele não veio. Na periferia da cidade, a vida seguia normalmente. Comércio funcionando, crianças nas escolas, gente trabalhando, serviços funcionando, trânsito ruim, mas não muito pior do que de costume. A tomada da região central pela polícia foi ordenada e, dentro do possível, tranquila. Os locais das explosões foram cercados com fitas e policiais se encarregavam de dar informações, educadamente, aos pedestres. Vai por aqui, entra ali, segue em frente, dobra à direita, sir.

Foram sete mortos na primeira explosão, 21 na segunda, sete na terceira e dois no ônibus. Aliás, acredita-se que um deles tenha sido um homem-bomba, marca registrada do terrorismo islâmico. Homem-bomba e burro, já que o ônibus tinha pouquíssimos passageiros e explodiu bem em frente ao prédio da Associação Médica Britânica. O que não faltou, claro, foi gente preparada para atender às vítimas.

Sem poder usar o “tube”, que é como os londrinos chamam seu metrô, saiu todo mundo andando. O centro da cidade foi ocupado por gente de terno e gravata e mulheres bem vestidas que resolveram voltar para casa a pé, ou usando o serviço de barcos do Tâmisa. No rosto de cada um, não se viam traços de terror, como em Nova York, quatro anos atrás. Ao contrário. No caminho para casa, há pubs aos montes. O dia estava agradável, o sol saiu de tarde, depois de uma chuva fraca e gelada, e muita gente parou para seguir a crise pela TV tomando cerveja.

Consumiu-se muita cerveja e amendoim na tarde dos atentados de Londres. Ninguém chorava ou demonstrava desespero. Executivos de vários escalões e pessoal do mercado financeiro anteciparam o happy hour batendo papo animadamente, com seus “pints” nas mãos, a poucos metros das estações de metrô estouradas por terroristas barbudos algumas hora antes. “Não há o que fazer, é como uma loteria, você tem uma chance em um milhão de ganhar. No caso de atentados como esses, tem uma chance em um milhão de estar perto de uma bomba. É tudo uma questão de sorte”, filosofou Terry Buckman, que trabalha perto de Aldgate.

“Alegre-se nação islâmica. Os heróicos mujahidin empreenderam um ataque sagrado a Londres e agora a cidade queima em medo e terror, de norte a sul, de leste a oeste”, dizia o comunicado da Jihad européia na internet. Na verdade, indiferente ao drama de quem estava entubado na hora das explosões, a cidade estava mesmo era enchendo a cara. De noite, a BBC mostrou um documentário sobre elefantes na TV. Se a Al Qaeda quis apavorar alguém nesta quinta-feira, 7 de julho, fracassou.

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DIÁRIOS, CANADÁ

SÃO PAULO (de volta) – Buenas, macacada. Não, não esqueci. Domingo tem GP do Canadá. Então, textinho antigo dos meus Diários de Viagem, 2003, creio. Saindo de Montreal para ir a Indianápolis, uma escapada pelas estradas do meio-oeste americano, uma pequena descoberta.

Este texto está em “O Boto do Reno”, meu único livro publicado, que minha editora Alessandra Alves negocia com alegria pelo e-mail aalves77@hotmail.com.

BRAZIL, INDIANA

Quando era mais jovem, alimentava um desejo juvenil de cruzar a Route 66. Tinha lido um livro de Jack Kerouac, o ícone da geração beat, e aquela história de encontros e desencontros e loucuras pelas estradas americanas me seduziu o bastante para tomar a decisão inapelável: quando eu crescer, vou alugar um Bel Air conversível e cruzar a Route 66 tomando Jack Daniels. Até hoje não sei onde fica a Route 66, vagamente suponho que saia de Chicago em direção ao oeste, Los Angeles ou San Francisco, já ouvi dizer também que foi desativada, mas estou com o mapa aqui ao lado e não localizo o diabo da estrada, achei a 61 e a 67, mas da 66, nada. O mapa é limitado, coitado, tem um pedaço de Illinois, um de Missouri, um de Indiana, uma ponta de Michigan e quase todo o Wisconsin. Foi o que me deram na locadora. Por isso, se a 66 ficar em algum outro canto, não vai aparecer no mapa. Mas é algo que já não me interessa. E, de qualquer forma, não sei se alugam Bel Airs conversíveis por aí.

No fundo, ainda bem que não levei a cabo a idéia besta de brincar de Kerouac. Afinal, não estamos nos anos 50 ou 60. Eu ficaria aborrecido depois de dez ou quinze quilômetros, como vinha sendo profundamente aborrecido o trajeto de Chicago a algum lugar que eu não sabia direito onde seria, por ter chegado à noite de Montreal e decidido pegar um carro e sair sem destino. Uma aventura e tanto, imaginei, rasgar as estradas da América para parar onde me desse na telha.

Estanquei numa cidade cujo nome desconheço, sei apenas que já era em Indiana, comi um sanduíche com gosto de isopor e me enfiei num desses milhares de hotéis de beira de estrada que terminam em Inn, vocábulo que quer dizer exatamente isso, estalagem de beira de estrada. Estava cansado e com sono e com o saco cheio. A perspectiva de esbarrar em algum sítio minimamente interessante a caminho de Indianápolis era remota. Notei logo de cara, ao parar num posto de gasolina para comprar cigarros. Tomei de um mapa mais amplo e detalhado, que levei ao caixa, abri diante do gordo de plantão e perguntei se havia algo para ver pelas redondezas. O rapaz me disse que não sabia, porque nunca tinha saído de Chicago na vida, mas se prontificou a me apontar points of interest no mapa, assinalados com quadradinhos magenta, esta indefinível cor que é magenta mesmo, e eu retorqui que eles, americanos, achavam qualquer merda interessante, por isso carecia de credibilidade aquela sucessão de quadradinhos magenta entre Chicago e Indianápolis. Ele concordou por concordar, interessou-se mais pelo meu relógio, decepcionando-se quando informei que era falso. Péssima idéia, porque paguei a conta com uma nota de cem dólares imediata e justificadamente colocada sob suspeita, dados meus antecedentes recém-revelados.

Devolvi o mapa, não sem antes notar que ele vinha acompanhado de uma bússola, instrumento deveras útil nos Estados Unidos, muito engenhoso mesmo, já que se existe um lugar no mundo onde se leva a sério o norte, o sul, o leste e o oeste, é aqui. Deixei a bússola e o mapa com o gordo, aquele arremedo que me deram na locadora era o suficiente, e voltei ao meu Toyota cuja placa esclarece que Illinois é a terra de Lincoln. As placas de carro nos Estados Unidos são verdadeiras aulas de história e geografia, lendo-as o motorista atento nem precisa ir à escola, porque saberá onde nasceu Lincoln e que em Minnesota há dez mil lagos.

Os americanos têm uma vida bastante idiota e por isso se apegam nessas pequenas porcarias, que se vêem por todos os lados. Slogans, palavras de ordem, necessidade de conferir importância a fatos, eventos, habilidades e exclusividades cuja relevância no mundo dos vivos é zero. Tudo é único, maior, original, melhor ou predileto. Quando desci no aeroporto de Chicago, que deve ser o maior do mundo em alguma coisa, talvez em metros quadrados de carpete, a primeira coisa que descobri foi que o cartão Diners ganhou o Freddie Awards de programas de milhagem. E pelo sexto ano! Quem me informava, num cartaz luminoso enorme, era Steve não-sei-de-quê, arquiteto de campos de golfe, sorridente com seu Diners na mão. Será que alguém decide usar cartão Diners ao saber que ele ganhou o Freddie Awards seis vezes seguidas? Só porque Steve, o arquiteto, recomenda? Eu jamais usaria nada recomendado por um arquiteto de campos de golfe, cuja maior qualidade é espalhar buracos pela grama. E quem é esse Freddie do prêmio, afinal?

E é assim por onde se passa, na gloriosa América. Chega-se às raias do exagero, como a loja de carros usados de Walt Evans em Rensselaer, uma cidade do tamanho de um cu por onde passei, que se orgulha de ser “The home of the $2,195 car”, slogan devidamente registrado em âmbito nacional, ninguém mais nesta América de Deus pode se intitular o rei dos carros de 2.195 dólares, que Walt Evans mete-lhe um processo nos cornos. Tudo registered, tudo trade mark. Um verdadeiro pé-no-saco. E é por isso que meu semblante normalmente neutro e anônimo se revela francamente hostil a todos já quando entro no avião, transformando-me num terrorista em potencial quando começo a responder às perguntas do pessoal da imigração. Como não tenho visto de imprensa, porque o meu de turista vale até 2008 e não vou entrar na fila para pedir outro nem fodendo, quero que se dane, digo simplesmente que estou entrando na sagrada terra apenas para assistir a uma corrida, o que de pronto leva os agentes ao pânico ou, no mínimo, à suspeita pura e simples de que estou fazendo algo errado. O desta vez perguntou como é que eu fazia para pagar tantas viagens, é só nisso que eles pensam, em dinheiro, e eu ia responder que casei com uma mulher rica, mas preferi abreviar a conversa dizendo que era só uma vez por ano, apesar da profusão de carimbos no passaporte que denunciam, a quem sabe ler letras e números, que saio do Brasil uma vez a cada 15 dias. O cara encasquetou com o visto do Líbano. O que você foi fazer no Oriente Médio, acusou-me, e eu ia preparar outro discurso, mas falei apenas que passei por lá, e ele se deu por satisfeito e meteu mais um carimbo na minha fuça. E aqui estou.

Saí da autoestrada, ou highway, estamos na América, e decidi me livrar daquela paisagem medíocre de oásis com lanchonetes, hotéis e shoppings a cada entroncamento, todos iguais, absolutamente idênticos e calóricos, para pegar uma estrada menor, de número 231, direção sul, e tudo que passei a ver foi milho. Não sei se é assim no país todo, mas o fato é que o horizonte por estas bandas é amplo, e a gente vê nuvens negras por todos os lados, raios, a qualquer momento pode vir um tornado. A vantagem dessas estradas sem curvas e de horizontes largos é que você vê a merda em que está se metendo de longe. Sendo rápido e esperto, dá para fazer meia-volta e fugir da cagada que deve ser se enfiar no meio de um tornado. Nunca me enfiei num, enfim, e por isso estou apenas especulando. Pode ser que não dê tempo de escapar.

Cruzei cidades que não se parecem com nada, horrorosas e pobres, Hebron, North Demotte e Remington, esta última cuja principal atividade econômica me pareceu ser cortar grama, embora eu sempre tenha achado que era a fabricação de máquinas de escrever, de onde se conclui que o nome da cidade não faz o monge. Segui desinteressado rumo ao sul, já conformado em topar com a emocionante Indianápolis dois dias antes do tempo quando fui salvo pelo mapa. Descobri o Brazil.

Um pouco mais abaixo e à esquerda, falo sob a perspectiva cartográfica, encontrei Brazil. Uma cidade em Indiana com tal nome, perdida no meio-oeste desta América abençoada, a mim emergiu como uma dádiva. Brazil sempre esteve lá, eu que nunca tinha notado. E à surpresa e à excitação por ter feito uma senhora descoberta, que certamente me renderia um Prêmio Esso, seguiu-se uma vergonha solitária, alertado que fui por meu bom-senso, que anda meio em desuso, de que um Brazil nos Estados Unidos só devia ser novidade para mim mesmo, essa coincidência de nomes já deve ter sido assunto para reportagens em todos os jornais do Brasil com S, se bobear o Fantástico lá esteve com repórter, editor, produtor e câmera para registrar aquele pedacinho de Brazil bem antes. Não descobri o Brazil, asseverou-me o bom-senso.

Mesmo assim, decidi ir a Brazil, já que estava perto e minhas outras opções eram pouco promissoras, apesar de uma Paris do outro lado da fronteira, em Illinois, só que a Paris famosa fica no Texas, essa deve ser fajuta. Mesmo a particularidade de ter sido batizada com o nome de um país distante não chegava a ser algo ímpar, em Brazil. Em Indiana, por razões insondáveis, há uma Peru, uma Morocco, uma Lebanon e outras mais com referências a rincões longínquos, como Frankfort e Alexandria. Brazil era apenas mais uma dessas.

Insisti, pois, em valorizar a passagem inesperada. À primeira placa indicando Indianápolis à esquerda e Brazil à direita, estacionei o carro no acostamento, junto da entrada de uma casa aprazível, e obtive um retrato. No mesmo instante chegava ao lar a gorda dona da casa aprazível com sua filha pequena. Passou ao meu lado temerosa e parou bem adiante. Não abriu a porta de sua van enquanto eu não entrei no carro depois de cumprida minha missão jornalística de fotografar a placa. Sabe-se lá, a América é cheia de loucos e eu podia estar com um rifle pronto a abater mulheres gordas com filhas pequenas. Este mundo é muito perigoso e a gorda deve ter comentado o esquisito episódio que afetou sua rotina estúpida com seu marido gordo de noite, à mesa.

Cheguei rápido a Brazil e procurei com afinco alguma referência ao Brasil que não fosse o nome da cidade. O que chegou mais próximo foi um restaurante mexicano. Mas não me dou por vencido assim rápido, estacionei novamente o automóvel ao passar diante de um pequeno museu para tentar descobrir ao menos o por quê do nome, vai ver a cidade foi fundada por algum egrégio conterrâneo, mas o museu estava fechado. Por sorte, ficava em frente à prefeitura. Àquela altura, ninguém me impediria. Entrei para falar com o prefeito. Que para minha surpresa estava lá dando expediente.

Claro que nem em Brazil vai-se entrando na prefeitura e falando com o prefeito assim, sem mais nem menos. Passei por uma secretária que ficou sinceramente espantada ao se deparar com alguém do Brasil em Brazil. E ela chamou o prefeito, um rapazola mal passado dos 30 anos, de bigode e sem gravata, que atende por Thomas Arthur e me deu seu cartão. Foi simpático e solícito, mas não soube dizer porque Brazil se chama Brazil. Um tremendo mistério. Quis saber se ele já tinha estado no Brasil e Tom lamentou tal lacuna em sua vivência internacional, a mim deu a impressão de que o mais distante que já se afastou de Brazil foi Terre Haute, a 15 milhas dali, o que não o condena, afinal é prefeito de Brazil e nada mais, mas assegurou não ser um total ignorante nas coisas da América do Sul, já que sua mulher tem uma amiga na Argentina. Oh, admirei-me. Mas não tem nada do Brasil aqui, uma árvore, uma bandeira, um brasileiro, argüi, e ele me apontou orgulhoso uma foto na ante-sala de seu gabinete, uma fonte que foi presenteada pelo governo do Brasil na década de 50. Oh, disse eu, ainda mais admirado. Fui procurar a fonte, Tom me indicou o caminho.

Fica no conhecidíssimo Forest Park, defronte à sede local da American Legion. Gentileza de JK, doada em 1950, finalmente inaugurada em 26 de maio de 1956, e é uma réplica fiel do Chafariz dos Contos de Ouro Preto, Fountain of Tales, a original erguida entre 1745 e 1760 nas Minas Gerais, é o que diz a placa, mas suponho que há algum erro aí, nem no Brasil levam 15 anos para fazer uma fonte. Mas que seja. Em Brazil há um Chafariz dos Contos e nele está pregado o nosso brasão, a estrela de cinco pontas com o Cruzeiro do Sul no centro.

É claro que Tom, antes de me encaminhar ao chafariz, presenteou-me com um folheto bastante elucidativo sobre Brazil o qual muito apreciei, por informar que 97,4% de sua população é formada por brancos, 52,7% de mulheres, 47,3% de homens, idade média de 35,9 anos, taxa de desemprego de 5,2%, 88 dias sem nuvens por ano, 8.142 habitantes em 2000 e 8.188 em 2001, o que me levou a concluir que os brazileiros trepam pouco, sendo, assim, o que mais me chamou a atenção em Brazil, mais ainda que a fonte.

Não sei para onde vou amanhã, é ainda um dia livre, e faça-se justiça, esse amargor com a digníssima América deve-se mais ao presente que ao passado, em algum momento de minha vida rasgar as highways foi doce, onze anos atrás eu e ela saímos da Grande Maçã rumo ao norte igualmente sem roteiro, e foi tudo muito bom e lindo e ingênuo como éramos. Diz uma música, bela: “Eu ando pelo mundo/divertindo gente, chorando ao telefone/minha alegria, meu cansaço…/meu amor, cadê você?/eu acordei, não tem ninguém/ao lado.”

Sinto muito a falta dela ao meu lado e fico amargo pelo tempo que estamos perdendo, que há de voltar.

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DIÁRIOS, MÔNACO

SÃO PAULO (antes que me esqueça) – Baita coincidência. Estava catando algum texto da linhagem “Diários de Viagem” com referências a Mônaco e lembrei que o que dá o nome ao meu livro foi escrito por aquelas bandas, nos idos do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2004. Bom, está aí embaixo. O livro, esse vocês ainda podem comprar com minha editora Alessandra Alves direto pelo e-mail aalves77@hotmail.com. “Tá vendendo que nem pão quente”, ela me disse, antes de sair para disputar a Maratona de Cabul.

O BOTO DO RENO

(Abro com parênteses, já antecipando ao douto leitor que este texto está de antemão prejudicado por um tremendo infortúnio. Ao iniciar minhas viagens tenho por hábito rabiscar em papéis esparsos, blocos avulsos, onde quer que se escreva, anotações para este famigerado Diário. Servem-me como guia, como fazem os organizados ao elencar tópicos que serão abordados numa reunião ou palestra. Trouxe, o hábito de rabiscar anotações, não de reuniões, nem de palestras; das primeiras, raramente participo; nas outras, que profiro por vezes, sempre me lembro de listar tópicos quando já não há mais tempo para tal, e isso transforma minhas palestras numa bagunça generalizada de idéias e frases soltas atiradas na direção dos pobres estudantes, que é a quem falo, e que não entendem nada, mas no final me acham um cara legal. Vem, o hábito, de minha memória ruim. Por isso anoto as coisas. E quando as perco, como sucedeu no caso deste texto que ora inicio, nada mais me resta do que tentar escrever com o que sobra de minhas lembranças, não sem antes me perguntar: onde foi parar a porra do papel? Paciência. Essas anotações perderam-se para todo o sempre. É uma pena, porque rabisco mais sentimentos que fatos. Instantâneos d’alma, não d’olhos. Sou muito bom em apóstrofos, que pensava chamarem-se apóstrofes, ainda bem que consultei o dicionário.)

Registre-se: na noite do dia 19 de maio de 2004, pela primeira vez, meu filho me telefonou.

Lembrarei para sempre onde eu estava, o ponto exato do planeta em que me encontrava quando tocou o celular. Sou um homem moderno. Possuo um aparelho GSM, sigla cujo significado apenas intuo, foi comprado recentemente. Ele funciona na Europa graças a um pequeno cartão que, disse-me a moça da companhia telefônica (operadora, para usar termo mais atual), registra todos meus dados. Todos?, perguntei, e ela garantiu que sim. Saí da loja com a sensação de saber mais da vida que aquela moça, o cartão do meu telefone não sabe picas de mim, não tem dado nenhum sobre mim, exceto os telefones de outras pessoas, uma agenda. Dados importantes sobre mim, nenhum, asseguro. Meu telefone não desconfia que gosto de tomar caipirinha. É um dado relevante sobre mim e ele não tem. A moça da operadora exagerou nos poderes do cartão.

Estava num calçadão em Menton, pequena cidade colada em Mônaco. Saía de jantar agradável e voltava a pé ao hotel, quando soou o toque inconfundível de meu GSM e do outro lado da linha a voz grave e rouca: Oi, pai.

Eu deixei um cartão com meus filhos antes de sair de casa. Nele constam meus telefones, do escritório, de casa, do fax, o e-mail, informações necessárias quando se formaliza uma apresentação. Dei meu cartão aos meus filhos, o que parece uma tolice, mas eles já lêem os números e recentemente aprenderam a discar (teclar; desculpem a antiguidade no redigir) no telefone, por isso ganharam um cartão de visitas do pai. Fiz um quadradinho em torno do número do celular, olha aqui, chegando da escola é só ligar esses números aqui, não esquece de apertar o botão vermelho para dar linha.

E no primeiro dia de Europa toca o telefone, eram 19h04 do dia 19 no Brasil, quatro minutos do dia 20 no sul da França, e do outro lado: Oi, pai.

Foi, disparado, o evento mais importante de um périplo de quase duas semanas, aquele grave e rouco Oi, pai, sem palavras preliminares como alô, quem fala, quer falar com quem. Um essencial Oi, pai, que era isso que ele queria, apenas, dizer oi ao pai. Aquele cartão, papelzinho, como ele batizou o cartão cheio de números e funções, foi guardado na mochila da escola, e quando ele chegou em casa a primeira coisa que fez foi ligar para o pai para dizer oi. Era o que ele teria pelos próximos 15 dias, um papelzinho para dizer oi ao pai.

O mais novo também quis falar e igualmente sem grandes rodeios foi direto ao assunto. Quando é que você vai voltar, e ficou bem difícil explicar a linha do tempo, terça-feira da outra semana, que é algo que vai além de semana que vem. Para o mais novo, qualquer coisa que vá acontecer no futuro, seja o futuro daqui a um minuto ou daqui a um século, é amanhã. Amanhã?, perguntou, e eu não soube como explicar direito que ia demorar um pouco mais. Está demorando muito, pai.

E pelos 15 dias seguintes tudo que fiz foi esperar, perto da meia-noite européia, aquele oi, pai, grave e rouco, o que muito me alegrou a cada toque do celular GSM, é gostoso receber um telefonema dos filhos, minha mãe tem razão de reclamar que não ligo nunca. É que nunca tenho muito para falar, embora um singelo oi, pai, ou oi, mãe, sejam suficientes, a recente experiência com meu GSM comprova isso.

Quando e se for a Menton de novo algum dia, farei questão de voltar àquele calçadão, onde pela primeira vez recebi um telefonema dos meus filhos.

Menton fica na fronteira com a Itália. Na sexta-feira, corri até a Itália. Tenho falado com alguma frequência sobre esse negócio de correr. Não sou um fanático, longe disso, e sequer corro muito. Por não ter corrido quase nada a vida inteira, elevo esses trotes em ritmo acelerado à categoria de acontecimentos ímpares, que de banal nada têm. Devo ter corrido uns cinco quilômetros até a Itália e considero tal feito digno de nota. Muito me espantam aqueles que correm longas distâncias quando contam com ar blasé que correram dez ou quinze quilômetros naquela manhã, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Como? Dez quilômetros? E não saiu na televisão?

Corro menos, mas aproveito esses momentos de extrema solidão para pensar. Penso enquanto corro, é o que resta a fazer. Estabeleço algumas metas para não desistir no meio do caminho. Em Menton: tem um circo lá, vou até o circo. Mais adiante, uma placa indicando Itália a um quilômetro, vou até a Itália. Ajuda motivacional, o circo e a placa da fronteira, até onde cheguei para me sentar esbaforido e destruído numa mureta, de costas para o mar, com o pé esquerdo na França e o direito na Itália. Uma façanha. Dependendo da precisão daquela linha fronteiriça, posso ir além: metade da bunda na França, metade na Itália. Notável. Na encosta do morro à minha frente, tinha uma casa. Aquele ali pode indicar em qualquer mapa-múndi onde mora, foi o que pensei. Correr deixa a gente sem muito oxigênio no cérebro, por isso acho que só penso bobagens como essa.

Mas não seria honesto de minha parte afirmar que os pensamentos, ao correr, sejam todos bobos como esse da bunda e do mapa. Devo admitir e reconhecer, prostrado diante dos deuses do atletismo, se é que existem, que tem me feito bem à mente correr de vez em quando. De Mônaco fui para Frankfurt e, com um monte de dias pela frente sem nada de especial para fazer, rumei para Koblenz, cidade por onde há anos passo e vejo da estrada, sem nunca ter tido a dignidade de parar.

Cheguei no meio da tarde e fui correr de novo, estou virando um verdadeiro fundista, e escolhi o Reno como cenário, desconsiderem aqui qualquer presunção, é que correr na beira do rio é bom. Fazia frio e lá fui eu, o ar gelado entrando pelas narinas e ferindo a garganta, mas fui em frente, eu e o rio à minha direita, olhando para mim. O objetivo era aquela ponte lá longe, por onde passava um trem. E fui, fui, e cheguei à ponte. E subi por um barranco, atravessei a linha do trem, devo ter cometido várias irregularidades, e cruzei a ponte, e parei para ver o trem passar a centímetros de mim, e abria um sorriso infantil a cada trem, adoro trens. E quando a tarde caía em Koblenz na beira do rio, tive a impressão de ter visto um peixe grande pulando e me acompanhando em minha correria, foi meu companheiro até que deixei a margem do rio, será que existe boto cor-de-rosa no Reno? Daria uma bela crônica, mas não há botos no Reno e acho que não era peixe nenhum, foi só impressão, inventei um companheiro fantástico só para espantar a solidão e o silêncio, sabendo que era tudo de mentira.

As cidades alemãs são silenciosas ao cair da tarde.

No dia seguinte fui a Colônia, cheguei à noite, antes fui visitar um amigo nas redondezas que vende peças para os carros velhos que tenho, mas não comprei nada desta vez, tudo muito caro. Almoçamos na sua casa, comida chinesa com vinho chinês. É uma família, a deste meu amigo, muito amistosa e generosa, mas bem que ele podia fazer um desconto naquele jogo de pistões. Bem, isso não interessa.

Colônia tem uma imensa catedral. E o Reno passa por lá também. Um amigo indicou um passeio de bicicleta, para quem tem pouco tempo é uma opção boa para se conhecer uma cidade da qual você só sabe o nome e só consegue enxergar a catedral. Cheguei ao lugar onde se alugam as bicicletas em cima da hora, quando a guia já estava saindo com um casal de alemães. Creio que estraguei o passeio de todos. Da guia, porque foi obrigada a traduzir suas explicações para inglês. Do casal, porque tinha de esperar pelas traduções a cada parada.

Absorvi o possível desse passeio de quatro horas de bicicleta por Colônia. As traduções eram em versão resumida, o que ela gastava cinco minutos para explicar ao casal, comigo virava um. Entramos em várias igrejas e gostei de aprender que Colônia teve 96% de suas construções destruídas na Segunda Guerra e que só pouparam a enorme catedral porque era um bom ponto de referência para os bombardeios aliados. Quando reconstruíram a cidade, descobriram centenas de sítios arqueológicos da época dos romanos, a guerra serviu para alguma coisa, afinal.

A guia falava mal inglês e, embora bonitinha e simpática, não tinha muita paciência para me explicar tudo direito, e por isso limitar-me-ei aos 96% que aprendi, contra números não há argumentos. Tinha uma história de uma mulher de imperador que por lá passou e depois matou o marido e voltou para Roma porque achava Colônia um saco, parece que era a mãe de Nero, e parece que Nero a matou, também, e nessas coisas de família não me meto.

O que aconteceu depois foi o de sempre, uma corrida, um que ganha, outro que perde, jantares com todo mundo no restaurante de sempre, risos, conversas em voz alta, piadas, casos contados, momentos que ficam guardados, por agradáveis que são, isso é inegável, mas nada foi igual àquele oi, pai, e qual a importância, afinal, de um telefonema no meio da noite em Menton?

Toda.

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DIÁRIOS, IMOLA

SÃO PAULO (é pena) – Não tem mais GP de San Marino. Talvez, por esses dias, em vez de reproduzir algum antigo Diário de Viagem falando de Barcelona, eu devesse recuperar um ou outro texto sobre Imola. “Mais Senna?”, vai perguntar alguém. Não. Até tem, todo ano a gente escrevia sobre Senna, mas eu prefiro outros escritos. Que nem fizeram parte do meu livro, foram rabiscadas, essas palavras abaixo, depois da publicação de “O Boto do Reno” (aliás, quem não comprou, que compre! É só escrever direto para minha editora, a Alessandra Alves, que atende no e-mail aalves77@hotmail.com e, além de tudo, é bonita e simpática).

Faz cinco anos que fui a Imola pela última vez. Em 2006 o GP de San Marino se despediu do calendário. O autódromo foi reformado, mas nunca mais se falou em outra corrida por lá. Eu adorava esse GP. Principalmente por causa de um grande amigo, Paolo Sandri. É dele que falo abaixo. Isso aí foi escrito em maio de 2005.

PAOLO SANDRI

Paolo Sandri está morto. No ano passado, ele me disse que ia morrer. Simples assim. Quando eu falei “até o ano que vem” no dia de ir embora, mesmo achando que não viria nunca mais para cá porque pensava que esta corrida ia acabar, ele me disse: “É, vamos ver. Acho que morro antes.”

Paolo Sandri morreu, foi sua mulher, Patrizia, quem me contou quinta-feira, quando cheguei ao hotel. Antes que eu perguntasse por ele. Como assim, morreu? Morreu. Faz dois meses e meio. Como assim? Como alguém morre desse jeito, sem avisar, sem pedir permissão? Patrizia nem respondeu, me deu a chave do quarto 130 e falou, correndo porque estava atrasada para não sei o quê, que a gente já sabia que ia acontecer, por que o espanto?

Bem, pode-se acusar Paolo Sandri de qualquer coisa, menos de não cumprir promessas. Não se assustem com a morbidez do comentário, ele diria o mesmo se eu tivesse morrido assim, tendo avisado um ano antes.

Não fiquei deprimido quando Patrizia me contou, é verdade, a gente já sabia. Fiquei apenas triste, mas Paolo Sandri não era dado a tristezas. Mesmo nos últimos anos, quando os problemas se agravaram e ele teve de fazer um transplante de fígado, e passava horas em sessões de hemodiálise, não apagava o sorriso, não esquecia o bom-humor, era quase cruel ao fazer piada de si mesmo.

Um grande cara, que conheci há 15 anos, quando vim cobrir pela primeira vez o GP de San Marino. Albergo Franca, Riolo Terme, uma cidadezinha do interior da Itália como tantas outras, o chão de linóleo, o pé-direito alto, a lâmpada fraca e amarelada, o chuveiro que ensopa o banheiro, nada nunca mudou no Albergo Franca de Paolo Sandri, sua mulher Patrizia e seu filho Andrea, que hoje deve ter quase 20 anos e era um garotinho que corria o dia todo pelo salão do restaurante se escondendo dos hóspedes, quando entrei pela primeira vez no Albergo Franca.

Só não fiquei lá uma vez, em 1994, bem no ano em que o Senna morreu. Fui parar alguns metros adiante, em uma pensão parecida, na mesma rua, não lembro bem que cagada Paolo Sandri fez que esqueceu de reservar meu quarto, mas consertou arrumando outro e me convocando para jantar no Albergo Franca todas as noites, sem pagar.

Paolo Sandri que quando eu chegava tarde do autódromo me dava um esporro e ia para a cozinha esquentar meu macarrão, me chamando de nano finocchio. Depois me puxava para a pequena sala de TV na entrada do Albergo Franca, tirava um expresso da máquina, servia uma sambuca com grãos de café flambados e ria quando eu queimava a boca no cálice. E ficava horas dispondo sobre a vida e o mundo para me ensinar a falar italiano direito.

Paolo Sandri que amava a Juve sobre todas as coisas, e que tinha num quadro na parede os ingressos dos jogos a que assistia, até aquele Brasil x Itália no Sarriá em 1982.

Paolo Sandri que quando descobriu a internet, sabendo que não tinha muito tempo pela frente, comprava passagens de última hora a preço de banana pelo computador para viajar com Patrizia e Andrea para o Egito, a Líbia, Marrocos, Senegal.

Paolo Sandri que uma vez quase me tocou do Albergo Franca porque arrebentei com o sistema todo de PABX ao tentar conectar meu computador na linha telefônica com uma gambiarra direto nos fios na parede.

Paolo Sandri tinha 55 anos e eu perdi um amigo.

O que estou fazendo aqui?

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DIÁRIOS, COMO COMPRAR

SÃO PAULO (comprem, comprem!) – Nessas de republicar meus Diários de Viagem, notei nos comentários que muita gente quer comprar o livro que reúne os melhores textos, “O Boto do Reno”, e não está achando de jeito nenhum. Nem nas livrarias, nem na internet. Bem, então vai a dica: escrevam direto para a minha editora, Alessandra Alves. O e-mail dela é aalves77@hotmail.com. Vejam quanto custa, como fazer para receber pelo correio etc e tal. Se vocês forem bonzinhos, ela dá um jeito de eu autografar.

Ô máscara…

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DIÁRIOS, MALÁSIA

SÃO PAULO (zerando) – Este texto é de 2003. E, com ele, estão republicados quatro Diários de Viagem relativos aos GPs já disputados neste ano: Bahrein, Austrália, Malásia e China. Nas próximas corridas, se me lembrar, vou pingando os demais.

E vamos em frente que atrás vem gente.

MY MALA E MY PAPER ZUPT!

Estou sem minha mala. Essas coisas acontecem em viagens. Uma vez, na primeira corrida em Magny-Cours, em 1991, tinha comprado uma mala novinha. Nem coloquei etiqueta. Cheguei a Paris, apareceu a mala na esteira, peguei e me mandei. Quando cheguei à casa que alugo todos os anos para o GP da França, abri a mala, que não estava trancada, e por cima das roupas havia uma zorbinha e uma caneca do Mickey.

Nada de excepcional, no que concerne à zorbinha, modelo de algodão dos mais confortáveis. Mas não costumo viajar com canecas do Mickey, daí a conclusão imediata: não era minha mala. Acabei encontrando o dono, um garotinho que estava de férias com a avó em Paris e tinha comprado uma mala idêntica. O caso se resolveu sem maiores traumas, a avó mandou a minha de Paris, enviei a dele de trem, essas coisas funcionam na Europa.

Teve também o episódio da Hungria, já não lembro o ano, mas foi quando a Adriane Galisteu posou para a “Playboy”. Minha mala não chegou a Budapeste e tive de deixar com os funcionários da alfândega o código para eles abrirem e verificarem se eu não trazia nenhuma muamba probida antes de enviá-la para o hotel. Quando cheguei do circuito, de noite, a mala estava lá, na recepção. Mas todos os exemplares da “Playboy” que eu trazia para os amigos foram subtraídos na cara dura. Onanistas, esses húngaros. Ficaram frustrados, os jornalistas que aguardavam Galisteu com enorme ansiedade.

Mas desviei-me do tema, mil perdões. A mala ficou em Hong Kong, por problemas de conexão. Nada demais, essas coisas acontecem e uma hora ela chega. Arrumei algumas peças de roupa emprestadas e por sorte carregava na mala de mão a bolsa com escova de dentes da British Airways, que gentilmente me enfiou da classe executiva entre São Paulo e Londres, onde fiquei 12 horas antes de seguir para a China e para Kuala Lumpur.

Longa viagem, essa aqui. Da hora em que saí de casa esbaforido e atrasado até chegar à capital malaia, 45 horas para atravessar o mundo. Não costuma suceder nada de extraordinário nessas maratonas aéreas. Eu leio muito e procuro não conversar com ninguém, porque não há nada mais chato do que ficar falando com alguém no avião. Acabei o segundo volume do Gaspari e comecei um livro do Nelson Motta, que se auto-intitula um noir baiano. Sem julgamentos por enquanto, quanto ao segundo. O do Gaspari é muito bom. Trouxe um Saramago para a viagem de volta. É sempre um risco. Adorei “Ensaio sobre a Cegueira”, mas odiei “Memorial do Convento”.

Em Hong Kong, quando vi que perderia a conexão original, percebi que minha mala ficaria rodando pelo aeroporto e não daria tempo de embarcá-la no vôo em que me colocaram. Foi aí que conheci o solícito Raymundo, funcionário da British. Enrique Raymundo, na grafia exata, o que me causou espanto. Raimundo é nome de cearense, como diz Chico Anísio (recuso-me a usar os “y” em ambos). Mas o Raimundo em questão era filipino, não cearense. Ainda bem que há Raimundos por aí. Não fosse ele, talvez tivesse de dormir em Hong Kong.

O que, definitivamente, não seria uma boa idéia. No avião, em Londres, peguei um jornal e li que uma pneumonia atípica virou epidemia pelos lados da Ásia, com muitos casos no Vietnã e em Hong Kong. Enquanto lia, sentou-se ao meu lado um chinês, que depois vim a saber que era japonês, que tossia feito uma vaca e espirrava muito. Um risco evidente e iminente.

A sorte foi que a chinesinha da outra poltrona se mudou de lugar e o japonês foi para o corredor, o que deixou entre eu e sua pneumonia atípica uma poltrona vazia, uma barreira física das mais convenientes. Não creio ter sido contaminado, porque não tive febre, não estou tossindo e nem espirrando.

Depois de 45 horas e uma escala em Kota Kinabalu, que depois vim a saber que fica em Bornéo e onde comprei um par de óculos escuros com marca de isqueiro, cheguei à capital malaia e fui correndo à locadora de carros. Alguém já tinha avisado o malaquinho que eu ia atrasar e lá estava ele à minha espera, são simpáticos os malaquinhos. Ah, Mister Goma, how are you? Por alguma razão, esses caras de locadoras e hotéis se lembram sempre de mim do ano anterior e me chamam de Mister Goma. Mandou buscar o de sempre, um Proton, aqui só tem Proton, com 88 mil km rodados. Mas está alinhado, um carro feio, mas honesto.

Nessas 45 horas, mais da metade delas em aviões, pude comprovar algumas teses que um dia transformarei em livro. Como abrir embalagem de iogurte por exemplo, em espaço exíguo na econômica de um Jumbo. Deve-se virar o lado pelo qual o papel metálico será aberto para o banco da sua frente, porque via de regra espirra um pouco. Acho que é a altitude. Se estiver virado para você, vai sujar a camiseta. O mesmo vale para copos lacrados de suco de laranja, mas não para potes de geléia.

E mais nada digno de nota aconteceu, exceção feita, talvez e apenas, à perda do ticket do pedágio na estrada entre Kuala Lumpur e Sepang. Você pega quando entra e paga quando sai da estrada. O vidro estava aberto e o papel voou pela janela. Na cabine, expliquei o ocorrido à moça em trajes muçulmanos que me estendeu a mão para fazer a cobrança. My paper zupt, justifiquei, numa referência para ela desconhecida a um caso clássico da Fanta que zupt na Áustria, anos atrás, que um dia conto. Ela entendeu, mas quis cobrar 36,80 ringgits de pênalti, um abuso, já que o pedágio custa 6,80. But my paper zupt!, insisti, e ela abriu a cancela e me liberou.

Vou perder de novo amanhã.

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DIÁRIOS, AUSTRÁLIA

SÃO PAULO (hoje, intermitente) – Vamos lá, a tchurma gosta de uns textos enormes, então vamos zerar o calendário. Já publiquei meus Diários de Viagem da China e do Bahrein, agora vai o texto escrito em março de 2004, quando da abertura do Mundial daquela temporada, em Melbourne. Texto revisado segundo as novas normas ortográficas. Argh.

Se estiver enchendo o saco, avisem que eu paro.

NÃO GOSTO DE QUIABO

Passei cinco dias na Austrália escutando uma rádio de viado. Só tocava “It’s raining man” e “I will survive”. O rádio do carro não pegava nenhuma outra estação. Era o dia inteiro essa bichice, com Boy George e Seal gemendo e um locutor viado cochichando e sussurrando e resolvendo os problemas dos amigos viados dele. Eu não gosto de aparelhos de rádio digitais. Nunca sei quando devo apertar “seek” ou “scan” para mudar de estação. Quando para numa que quero, não sei a qual botão recorrer para lá ficar. Os números ficam girando, e voltam sempre à rádio dos viados. Prefiro o dial com ponteiro, AM, FM e OC.

Aqui vale uma observação sobre viados. A palavra não existe. O certo é veado, com “e”, encontrável em qualquer bom dicionário tendo como alguns de seus significados “pederasta” e “homossexual”. Pois bem. Mas veado é um animal. Ninguém chama o outro de “veado”. “Seu veado!”. Não, usa-se “viado”, com “i”. “Juiz viado!”, grita-se nos estádios. “Deixa de viadagem!”, diz-se, aos amigos. Não se fala “deixa de veadagem”, acentuando a sonoridade do “e”. Prefiro viado. Para mim, viado é viado, veado é veado, e não se fala mais nisso.

Não foi uma jornada totalmente desprovida de infortúnios, esta à Oceania. A rádio dos boiolas foi o menor deles e em um certo ponto passei até a simpatizar com os perobos e suas crises existenciais. Aconteceu coisa muito pior. Perdi a carteira, mas achei, sem o dinheiro, e também um pé de tênis. Lamentei mais o dinheiro que o tênis, mas é claro que o desaparecimento do segundo foi bem mais intrigante. Como pode sumir um pé de tênis? Um só, de dentro do quarto do hotel? O que fazer com o pé que sobrou? É objeto de explícita inutilidade, não se pode sequer doar, a não ser que seja a um perneta, e imagino poucas coisas mais mórbidas do que guardar um pé de tênis para dar a um perneta. Corre-se ainda o risco de ser o pé, este que sobrou, o errado, e o perneta ficar puto. Deixei em Melbourne, junto com o mistério que envolveu o desaparecimento de seu par. Meu companheiro de quarto, provavelmente, foi o responsável pelo sumiço do pé faltante. No dia em que chegamos, num acesso de raiva, sem motivo aparente, uma viadagem qualquer, atirou-o ao banheiro. Lá ficou porque eu já estava dormindo, ou me preparando para deitar, e a única explicação plausível é que tenha sido levado pela camareira na manhã seguinte. Por engano, sem atinar para o que estava fazendo, ou por ser perneta, talvez, ou por conhecer algum perneta precisado. Que faça bom proveito e tenha longa vida, meu tênis.

Fazia tempo que não viajava e como sempre esqueci de colocar algumas coisas na bagagem, embora não tenha olvidado do essencial, como a pasta de dentes. Nunca tinha reparado com a devida e merecida atenção no tubo de pasta de dentes que tenho usado com mais frequência. Ele é trilíngue. Feito no Brasil, mas ao que parece vendido a vários países de língua espanhola e inglesa. Creme dental globalizado, Close Up Eucalyptus Mint Septibucal Max Protection. E em caso de necessidade, informa-me o espantoso tubo, há telefones de atendimento ao cliente em Honduras, Guatemala, El Salvador, Venezuela, Colômbia, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Panamá, Nicarágua, Costa Rica, Trinidad Tobago e Equador. Saber que se um dia estiver em Trinidad Tobago e meu tubo apresentar algum defeito há um telefone para saná-lo é uma das grandes vantagens da globalização, quanto a isso não resta a menor dúvida.

Sem dinheiro, pois que o meu foi tungado da carteira, comi mal na Austrália. Um dia fui ao restaurante grego na esquina do hotel e experimentei um tal de suvacki, não tenho a menor ideia se a grafia é essa, um monte de carne cheia de gordura dentro de um pão sírio com salada, tomate e molho. É sobejamente difícil comer um negócio desses sem que o conteúdo despenque pela parte inferior do guardanapo que o envolve, emporcalhando tudo. Foi uma das coisas mais nojentas de que já tomei parte, o ato de comer o “suvaco”. Caiu tudo no balcão, voltado para a rua, com janela, as pessoas passando e testemunhando aquela briga insana entre minhas mãos e o “suvaco”, espirrando molho no vidro, uma meleca formidável. Na manhã seguinte saí para correr e passei pelo restaurante grego e as marcas da batalha estavam ainda lá, no vidro. A vigilância sanitária deveria fechar aquela chafurda.

Li três livros, dois muito bons, o outro uma porcaria que não merece sequer menção. O que não falta é tempo para ler quando se vai à Austrália. O primeiro deles foi escrito por um ex-chefe que resolveu pular de paraquedas, tomar Santo Daime, andar de submarino, fazer o caminho de Santiago de Compostela, trabalhar no teatro, cair na putaria e ao fim de tudo pensou em se matar. Li enternecido. É um belo livro de um cara com quem trabalhei oito anos e de quem todos tínhamos medo, por se tratar de uma quase esfinge. Mas não, é um cara cheio de dúvidas e problemas como qualquer um de nós, me surpreende e aborrece saber que por oito anos trabalhamos juntos e nunca dividimos nossas dúvidas e problemas, só porque eu o achava um doido de pedra, e nunca imaginei que ele seria capaz de ficar devastado por um caso amoroso que não deu certo, assim o confessa no livro, como é que algo de tal envergadura acontece a alguém tão próximo e não fazemos nada, não ficamos sabendo? As pessoas passam por nossas vidas e não nos damos conta. Cada um com seus problemas, e queremos é distância deles. Um equívoco.

O outro livro é de um tal de Fernando Jorge, sujeito muito louco, escrito lá pelos anos sessenta. Vocabulário riquíssimo e divertido, uma sátira dos políticos brasileiros que deve ter deixado neguinho muito irritado, na época. Não sei se o autor ainda é vivo. Um cabra que valeria a pena conhecer. Digo “um tal de” correndo o risco de ser chamado de ignorante, o que sou, mesmo. É que não o conhecia, portanto, muito prazer.

Além dos meus livros, que levei daqui, não trouxe nada da Austrália, fiquei sem dinheiro, já disse. No aeroporto havia pequenas pinturas feitas em ossos de canguru e bumerangues, cheguei a flertar com os curiosos objetos. Mas era tudo muito caro, e também não saberia o que fazer com um bumerangue, acho uma das maiores mentiras do mundo esse negócio de jogar um bumerangue para o alto e ele voltar para suas mãos, é uma mentira só não mais mentirosa do que as habilidades descritas dos pombos-correio. A única coisa que queria comprar, mesmo, era pneu pretinho em spray, acho que não preciso explicar o que é pneu pretinho, e reputo os australianos como os melhores de todos, só que não encontrei da marca que desejava, e é um pecado ir até a Austrália e não comprar pneu pretinho. Lamentável, essa viagem.

Registre-se, porém, que nem tudo foram agruras. Vi pelo menos quatro Variant e um Karmann-Ghia na rua, na Austrália, já contei isso uma vez, a garotada gosta de carros antigos e anda com eles, só não tirei fotos. E voltei com uma idéia interessante, contrabandear sandálias Havaianas para lá, eles vendem por dezenove dólares e noventa e cinco centavos, dá quase sessenta mangos, e aqui a gente compra por cinco, dez, se for daquelas mais chiques e coloridas. É uma boa perspectiva de negócios, embora eu deteste chinelos e tenha ganas de espancar quem anda de chinelos por aí, até em aviões. Nada pode ser mais deprimente do que entrar num avião de chinelos com as unhas expostas à visitação pública.

Não gosto também de mochileiros que vestem roupas cáqui cheias de bolsos e sandálias alemãs de sola grossa, e que andam erguendo o dedão a cada passo como se fossem antenas de um inseto a verificar o terreno à frente, e também não gosto de quiabo.

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DIÁRIOS, BAHREIN

SÃO PAULO (a pedidos) – Parece que o pessoal “gostaram” do texto logo aí embaixo sobre a China, quando eu ainda escrevia meus despretensiosos Diários de Viagem. Então vá lá. Vou pingar hoje o do Bahrein de 2004 e, no começo da semana, algum da Malásia e outro da Austrália, para empatar com o calendário 2010. Aí, nas semanas das próximas corridas, vou resgatando os respectivos.

Há que situar o leitor sobre o texto abaixo. No caminho para a porcaria do Bahrein, pinguei em Beirute. Na volta, também. Já se vão seis anos. Depois dessa passagem pelo Líbano, deu merda por lá de novo. Poucas vezes senti, de longe, tanta pena de um país quando do Líbano depois de passar por lá.

Bem, leiam, se tiverem saco. Às vezes eu desembesto quando começo a escrever.

GRÃO-DE-BICO E AZEITE

Não passa de um puteiro.

Assim, pouco se dirá aqui do Bahrein, uma Cuba pré-revolução. Com a diferença de que em vez de caubóis, frequentam-no árabes vestidos de branco com a cabeça coberta e a hipocrisia a descoberto.

Há uma ponte de vinte e poucos quilômetros que liga o Bahrein, esse arquipélago chinfrim, à Arábia Saudita, onde os muçulmanos levam a ferro e fogo as bobagens que imaginam encontrar no Alcorão, como cobrir as mulheres da cabeça aos pés, proibi-las de trabalhar, votar, estudar, ter uma vida normal, uma vida de gente. Proíbem a bebida alcoólica, o rock’n'roll, biquínis, topless, internet, tudo. Li um livro há alguns anos, escrito por uma princesa saudita, e há muitas delas, porque os caras lá fazem filhos com várias mulheres, ainda mais os que pertencem à família real, e era de arrepiar.

Não tenho o hábito de contestar a cultura, muito menos a religião dos outros. Se as mulheres aceitam tal papagaiada e os barbudos se acham mais machos submetendo-as a todo tipo de sandice, que se danem. Mas não gosto de hipocrisia. Os fundamentalistas islâmicos, e a Arábia Saudita é a expressão mais pura do islamismo, pelo menos se acha, nos tratam, a nós ocidentais, como corrompidos pelas tentações do demônio e seus áulicos. Abominam nossos instintos libidinosos, nossa libertinagem, nossas bebedeiras e o escambau a quatro. E atravessam a ponte rumo à putaria toda sexta-feira.

Fazem exatamente aquilo que nos levará, os ocidentais, ao inferno sem escala. Vão às putas, ao álcool, à jogatina e às drogas no Bahrein. É ali do lado. Depois voltam, viram-se para Meca, rezam e mandam explodir lanchonetes e ônibus em nome de Alá. E em outros rincões, espalhados pelo mundo inteiro, há batalhões de doidos que acreditam piamente em tudo que sai debaixo das brancas e imaculadas túnicas sauditas, e detonam trens e matam inocentes e espalham o terror.

Não se trata de nenhum manifesto contra o Islã, aqui. Se as pessoas soubessem o que, no íntimo, eu penso de 11 de setembro, talvez eu fosse parar na cadeia e certamente nunca mais entraria nos Estados Unidos. Não, nada disso. Tenho idéias bem claras sobre os conflitos no Oriente Médio, e só os aceito como uma questão territorial, única e exclusivamente. Lutar por território tomado na mão grande é algo que se compreende. A história da humanidade é escrita por guerras entre tribos e essa é apenas mais uma. O problema entre palestinos e israelenses limita-se a isso, terra, e quando os dois lados admitirem que não é um confronto entre a Torá e o Alcorão, pode ser que as coisas fiquem mais fáceis.

Agora, guerra em nome de religião? Cruzadas, inquisições, mutilações, torturas, em nome de deuses?

O ser humano é um escroque mentiroso e cruel. Os árabes obrigam a esposa vestir a burqa debaixo de 50 graus de calor porque Maomé mandou, deixam-na em casa e pagam a uma ucraniana qualquer do outro lado da ponte para fazer com ela o que não fariam com uma boneca inflável. Tratam-na como se pertencesse a uma sub-raça porque têm dinheiro no bolso. Essa língua é universal, não há Alá que resista. Cortam a língua do coitado que toma um gole de uísque em Medina e enchem a cara do mesmo uísque do outro lado da ponte. E, contou-me o motorista do táxi em Manama, um indiano, algumas mulheres sauditas fazem o mesmo, atravessando a ponte escondidas do marido e caindo na putaria.

Os católicos pregam a monogamia, a virgindade antes do casamento, a castidade dos padres e uma porção de outros princípios, e fazem tudo ao contrário. O mesmo sucede com judeus, hindus, budistas, evangélicos, crentes, mórmons, godos, ostrododos e visigodos. Todos matam, roubam, cobiçam, traem. Ninguém leva religião a sério de verdade, se levassem viveríamos no paraíso. Mentem para os outros e para si mesmos. Aí, de tempos em tempos, saem se trucidando em nome de seus deuses, brandindo suas escrituras sagradas. Revezam-se nas atrocidades. Bando de hipócritas, os senhores da guerra, bando de otários, os que neles acreditam.

Portanto, o Bahrein não passa de um puteiro. Que não me impressionou em nada, de lá saí como se sai de uma casa de tolerância, como gostam de dizer os eufemistas, com um vazio imenso na alma e no bolso. Uma ilhota boiando sobre petróleo, e quase fiquei sem gasolina um dia, não achava posto. Pode algo mais estúpido do que ficar sem gasolina no Golfo? Nada a registrar. O autódromo é belo, a cidade, horrível. Estava vendo TV, entrou um repórter da CNN direto de Cabul, e eu achei que ele estava na rua do meu apart-hotel.

Ir ao Bahrein serviu para que eu desacreditasse de mais uma religião, ou, melhor, daqueles que a professam, os muçulmanos picaretas da Arábia Saudita. Fiquei com vontade de mostrar a sola do meu sapato a todos eles, me disseram que é uma baita ofensa mostrar a sola do sapato a um árabe, mas achei um tanto excêntrica essa modalidade de xingamento e não coloquei-a em prática. Deve ser mentira, fosse assim haveria altíssima taxa de câibras, distensões e estiramentos pela arábia, e não tenho conhecimento de tal fenômeno no Islã. A religião, em si, todas elas, não tem nada de errado ou certo. São elas, as religiões, apenas coisas escritas e a fé de quem as segue. Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar. Acho que é a melhor das religiões, mas chega de digressões. Não entendo picas de religião.

O que eu queria mesmo, quando vim ao Oriente Médio, era ver buraco de bala.

Vi em Beirute, isso sim uma cidade, isso sim um país, o Líbano. Passei algumas horas na ida, outras tantas na volta. O suficiente para mergulhar no fundo da alma de um povo de verdade, e de uma cidade que, como dizem os libaneses, se recusa a ser destruída.

Mergulhei na alma de Beirute a pé, como sói fazer quando se tem pouco tempo e muita vontade de ver, tocar e cheirar um lugar. Saí andando por aquele cenário que sempre fez parte de meu imaginário, palco da primeira guerra que vi na TV, entre 1975 e 1990. Uma guerra civil complicada de se explicar, entre cristãos e muçulmanos libaneses de várias facções, israelenses, palestinos, sírios, sunitas, xiitas, maronitas, ortodoxos, jordanianos, deus e todo mundo.

Beirute, de 1975 a 1990, virou a casa da mãe joana, e 150 mil pessoas morreram, ao final do conflito que, como todos, do nada surgiu, ao nada levou. A guerra civil durou dos meus 11 aos meus 26 anos, portanto foi uma guerra marcante e todo os dias víamos Beirute no Jornal Nacional. Foi a guerra da minha adolescência, me interessava muito pelos combates entre as milícias maronitas radicais cristãs e os árabes de todos os cantos, e quando alguma garota na minha escola falava que estava perigoso andar na rua, eu dizia para ir a Beirute ver o que era bom. Elas não entendiam nada, e acho que é por isso que eu não comia ninguém, com essa mania de intelectualizar conversas banais.

Faz menos de 15 anos que a guerra acabou e Beirute é um lugar inacreditável. Está sendo reconstruída tijolo a tijolo, há algumas áreas que já justificam o apelido de Paris do Oriente Médio, outras em que os prédios continuam lá, crivados de bala, abandonados, assombrações necessárias para que os libaneses se lembrem muito bem da estupidez que fizeram e nunca mais cometam os mesmos erros.

Andei de noite pelas ruas e becos, e aqueles esqueletos silenciosos me disseram mais do que qualquer professor de história poderia contar em uma vida inteira. Ruínas contemporâneas, que aos poucos vão dando lugar aos mesmos prédios restaurados e pintados, coloridos e luminosos. Mas alguns resistem, e é preciso que resistam para falar com seu silêncio, com suas paredes esburacadas.

Um silêncio que só é cortado pelas buzinas estridentes dos Mercedes, Beirute é a cidade que mais tem Mercedes no mundo, a imensa maioria bem velha e acabada, quase todos táxis, que buzinam o tempo todo, buzinam nos cruzamentos que não têm sinal, só vi quatro, três funcionando, buzinam para te chamar na rua, mesmo se houver outro passageiro no carro, buzinam para chamar o amigo no restaurante, para mexer com a menina peituda, buzinam por buzinar, buzinam para não deixar a rua em silêncio.

Os libaneses têm muito orgulho de seu país e têm de ter, mesmo. No avião, vindo do Bahrein, estava sentado ao lado de uma moça cristã, Darine, eu perguntei o nome, e na outra ponta tinha um cara, cujo nome não sei e chamarei apenas de Azedo, porque ele cheirava assim. Darine pediu para trocar de lugar, para sentar na janela, eu desconfiei que era por causa do Azedo, e era mesmo, o cara estava partindo para cima da coitada. Não era libanês, não sei de onde era, mas falava árabe e era um cretino, cretino e azedo.

Darine me perguntou do Brasil, disse que tinha um namorado em São Paulo, outro na Holanda, um na Austrália e um no Canadá, parece. Mas que no Líbano não dava para confiar muito nos rapazes, eles são muito machistas. E falou que durante a guerra, ela era bem novinha, mas que durante a guerra, ao contrário do que eu imaginava, a vida era mais ou menos normal em Beirute, era preciso apenas tomar cuidado para não estar no lugar errado na hora errada para evitar os balaços e granadas, as emboscadas e os franco-atiradores no alto dos prédios. Ela mesmo se feriu. E foram 15 anos assim.

É incrível a capacidade das pessoas de se adaptarem a tudo, até a uma guerra passando pela janela, e quando ela acaba essas mesmas pessoas retomam a vida como se nada tivesse acontecido, e é isso que mais me impressionou em Beirute. Houve cortes profundos, mas tudo cicatrizou, e os prédios destruídos não passam disso, uma cicatriz que a gente olha para ela, se lembra mais ou menos como foi que cortou, mas não dá maior importância porque outros cortes virão.

Adorei Beirute, sentei-me num restaurante modernoso na praça do relógio, o símbolo da reconstrução (colocarei fotos, podem me cobrar), pedi hummus, uma delícia, e em volta do relógio crianças brincavam de bicicleta e velotrol, e em volta das crianças soldados armados tomavam conta de tudo, era a única coisa que lembrava minha guerra da TV, o garçom trouxe o prato com pão sírio, perguntou se estava bom, sorriu à resposta, todo mundo sorria, árabes, cristãos, pretos, brancos, japoneses, turcos, gregos, mamelucos, fenícios, romanos, assírios, mulheres de véu, outras de barriga de fora, e é assim que tem de ser o mundo, sorridente, com gosto de grão-de-bico e azeite.

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DIÁRIOS, CHINA

SÃO PAULO (só a Iros salva) – Não sei se o pessoal terá algum interesse, mas vá lá… O blogueiro Rodrigo Aquino sugeriu que nos finais de semana de corrida eu republicasse aqui no blog os meus antigos textos dos “Diários de Viagem”, que escrevia anos atrás e acabaram dando origem ao livro “O Boto do Reno”.

Esta é a semana do GP da China, pois que seja. Abaixo, o texto que deve ser de 2004, já nem lembro mais.

Se vocês gostarem, semana que vem coloco no ar os “Diários” do Bahrein, Austrália e Malásia. Se não gostarem, esquece.

NA CHINA NÃO TEM PISCINA

Na China não tem piscina. Foi a primeira e paupérrima impressão que tive do maior país do mundo, do avião. Como é que alguém pode pensar em piscina quando chega na China? Bem, depois de 24 horas voando, pode. Pode, sim. Pode-se pensar em qualquer coisa, o importante é chegar. Do alto, não vi nenhuma piscina. Lá dentro, no avião, já tinha visto o que era possível. A lista de filmes disponíveis tinha dois Almodóvar e um americano estúpido de um casal que compra um apartamento e tem uma velha doida como vizinha. E um documentário sobre pássaros.

Detive-me neste, depois de ver os Almodóvar e o americano estúpido. Muito bem feito, mostra movimentos migratórios. Gansos selvagens, patos, andorinhas, falcões, pombos, cisnes, araras, papagaios, urubus, ao que parece todos migram, o tempo todo. Voar deve ser bom. Tem um livro aí, consta até que faz algum sucesso, o título diz alguma coisa sobre o que podemos aprender com os gansos. Exceto voar, não creio que possa aprender muito com os gansos. E isso eles não podem me ensinar. Também não acho que tenha muito a ensinar aos gansos. Estamos quites, nós os mamíferos bípedes e eles, os gansos. Uma vez um ganso me atacou num restaurante em Caxambu. Dei-lhe um bico no peito. Estava com meus filhos, que ficaram aterrorizados com aquela gritaria. Transformei-me num herói por tê-los salvado do ganso. Mas não disse a eles que fiquei apavorado, também. Não tenho nada a aprender com gansos, se vierem me ensinar algo, dou-lhes um bico no meio da cara.

Alguém há de me perguntar: e aí, como é a China? Longe pra caralho e não tem piscina, seria minha primeira reação se alguém me perguntasse dez minutos depois do desembarque. Só tem Santana na rua, seria a resposta meia hora depois. Dirigem feito malucos, uma hora mais. E não sei mais o quê.

Cidades grandes impressionam, prédios enormes, espelhados e bem iluminados à noite também, bons restaurantes e um autódromo gigantesco, idem. Mas essas coisas não me pegam mais. Legal, bonito, mas quando é que eu volto? Eu queria ver uma outra China, a China do “Loto Azul” do Tintin. Essa não está em Xangai. Xangai é que nem Hong Kong, tem um quê de Tóquio, algo de Chicago, sei lá, é o Ocidente cheio de chineses, não tem, quase não tem, seria mais justo dizer, aqueles chinesinhos que andam em motonetas muito pequenas e estragadas, com as pernas dobradas, os joelhos voltados para fora, como se fossem losangos. Vi um ou outro, mas Xangai não é a China do Tintin.

É, sim, um monstrengo de concreto e de gente buzinando. E como buzinam. Arranque a buzina do Santana de um chinês e ele não consegue sair de casa. Por que tantos Santanas?, me pergunto. Achei que eram todos feitos no Brasil, aquele modelo novo eu imaginava que só era feito aqui, mas alguém me disse que tem uma fábrica da Volkswagen na China, também, e não consegui descobrir se tem mesmo. Em todo caso, cada vez que eu entrava num Santana me dava vontade de cantarolar “isso aqui ô-ô, é um pouquinho de Brasil iá-iá”, cá estou num veículo made in São Bernardo do Campo.

E guiam mal. No sábado à noite, o motorista da van se perdeu quando saiu do autódromo. Não é permitido a estrangeiros dirigir na China, e por isso estávamos todos à mercê das vans e dos taxistas. O cara se perdeu, não achava Xangai. Porra, Xangai é grande pra caralho, como o cara não achava Xangai? Não achava, conseguimos dizer a ele para voltar ao autódromo, que é tão opulento quanto a Muralha da China, dá para ver da Lua, e o desgraçado não achava o autódromo.

No domingo de manhã, deu-me claustrofobia. Numa van igual, indo para o autódromo, fiquei com medo de o cara se perder também e irmos parar no Vietnã. Tinha um monte de inglês no carro. Todos hospedados no mesmo hotel, o mais barato que nos arrumaram. Escancarei a janela e meti a cara para fora. Reclamaram do vento, mas eu gosto de vento na cara, eles que se fodam. A cara é minha, vocês que se fodam. Sou muito invocado. Os ingleses me xingaram e ficou por isso mesmo, são meus amigos, afinal, que se fodam.

Fui para a China via Amsterdam. O aeroporto se chama Schiphol. Gosto de nomes de aeroportos, e me refiro a eles pelo nome, não pela cidade, é uma forma de arrotar intimidade com essa coisa de viajar muito, fazendo tipo, oh, para mim é tão comum que às vezes nem me dou conta e digo Schiphol em vez de Amsterdam. Digo também La Guardia, Zaventem, O’Hare, Jêi-Éf-Quêi, Charles de Gaulle, Linate, Orly, Heathrow, Malpensa, Mirabel, Gatwick, Barajas, Ezeiza, Dorval, Tegel e Fiumicino. As pessoas não sabem do que se trata e você então, under request, diz a cidade e todos o admiram.

Em Schiphol, a caminho do portão de embarque para mais muitas horas até Xangai, parei para tomar um café e fumar um cigarro. É um aeroporto civilizado, tem lojas boas, museu, banheiras de hidromassagem e lugar para fumar. Ao lado de um café, ótima combinação, serei preso por fazer apologia ao fumo e à cafeína, bem, se for me levem cigarros na prisão, e enquanto tomava o café de dois euros, li na parede uma longa inscrição.

Sou retardado, anotei no meu bloquinho. “Há dois momentos nas viagens em que me sinto totalmente livre. O primeiro é o instante em que o avião mergulha silenciosamente no céu e me vejo no meio daquele azul ou do manto macio das nuvens.” Que merda, manto macio das nuvens. Em frente, falta ainda um momento nessa cantilena. “O outro é antes de embarcar, quando me sento para tomar um café, um hábito que desenvolvi, de solitária alegria, que serve para me lembrar que a melhor parte de uma viagem, a mais saborosa, é quando eu simplesmente paro e olho em volta.” Porra, precisa de tudo isso para me convencer a tomar um café? OK, tomei o café. Quem será que escreveu tamanha merda na parede? Precisa de assinatura. Se tivesse, Ernest Hemingway ou Marco Polo, por exemplo, eu não teria achado uma merda e saborearia meu café empertigado, convencido de que a melhor coisa de uma viagem é olhar em volta tomando café, mesmo pagando dois euros, mas como não tinha assinatura nenhuma, achei mesmo uma merda. Poderiam ter inventado um nome qualquer para meu café ficar mais saboroso. Falta credibilidade a textos apócrifos pintados em paredes.

Gosto também de banheiros de aeroportos. Sempre há algum isolado, em alas que parecem nunca ser usadas, escondidos, amplos e limpos. Quando faço escalas longas, circulo atrás de banheiros isolados. Quero incluí-los no livro de espionagem que nunca escreverei. “Procure por um envelope pardo no forro do teto sobre o terceiro mictório da esquerda para a direita”, dirá o contato alemão oriental por telefone ao espião inglês em Tegel, e as inacreditáveis plantas de um laboratório onde está sendo feita uma bomba capaz de implodir Londres cairão finalmente nas mãos do MI5, o serviço secreto de Sua Majestade. Há uma versão com rolo de microfilme, também, fotos incríveis de um caça que voa a trezentos mil quilômetros por hora capaz de ir de Moscou a Nova York em meio segundo. Seria um grande livro, o meu.

Voltemos à China. Houve um jantar histórico, entrará para meus casos clássicos, será contado cada vez de um jeito diferente, um dia ainda direi que comi cobras e escorpiões, foi na noite em que o cara se perdeu e nós perdemos a hora de achar qualquer restaurante aberto, encontramos um com o cardápio em chinês, e todas as chinesinhas fizeram enorme esforço para explicar o que tinha para comer, e como não entendemos nada, trouxeram o que tinha, enfiaram uma panela enorme sobre um fogareiro encaixado sob a mesa, começaram a jogar uma porção de coisas esquisitas dentro, e ficamos comendo e aprendendo a escrever em chinês em guardanapos.

Vi também na TV o comercial de um impressionante aparelho que se coloca na orelha na hora de dormir e, embora sem entender chinês, foi possível compreender que ele deixa quem o usa de modo apropriado mais inteligente e sem espinhas. Poderia tê-lo descoberto antes, agora não tenho mais espinhas, e quanto a ficar mais inteligente, bem, o cara que me vendeu um relógio na entrada do autódromo deve agradecer aos céus eu nunca ter usado o aparelho na orelha, porque se tivesse não compraria nunca aquela droga que parou de funcionar no dia seguinte. Chinês safado.

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TAMBÉM QUERO!

SÃO PAULO (quase um sonho) – Foi o blogueiro Luis Mendes que avisou, e é pena que não dá mais tempo… Um rali de antigos na Hungria que vai percorrer antigos países comunistas numa aventura de 6 mil km. O barato é o local que escolheram para a foto. Estive aí, um dia.

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AVENTURAS EM 4 ARGOLAS

ZWICKAU (próxima parada…) – Meninos e meninas, eu vi. Vi todas as fábricas da Auto Union, vi onde nasceu a Audi, onde eram feitos os Wanderer e os Horch, vi a maior fábrica de motos do mundo, em Zschopau, de onde saiu a minha 72 anos atrás, vi a casa de August Horch, o museu que conta a história do automóvel em Zwickau, vi a Sachsenring, com o enorme S do capô dos Trabant na fachada, a fábrica vazia agora, sem uso algum, assim como o enorme prédio da administração da Auto Union em Chemnitz, que foi convertido em hospital pelo governo comunista e hoje também está vazio, e o cabeção de Marx, e as ruínas da fábrica da DKW perto de Zschopau, que os russos permitiram que continuasse funcionando por um tempo, e outra que foi transformada em fábrica de geladeiras pelas autoridades da RDA, mergulhei profundamente na história das quatro argolas — que é muito maior do que se imagina, e está viva na memória de muita gente e, principalmente, nas rodas de máquinas maravilhosas que eu só conhecia por fotos e, agora, sei que todos existem.

Vieram carros de toda a Alemanha, além de Bélgica, Suíça, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, Inglaterra, Escócia, Portugal, Luxemburgo, França, Áustria e Itália, quase 300, de todos os modelos que só existiam na minha imaginação. Alguns perfeitos e impecáveis, outros com a pátina do tempo, aqueles pecadinhos do uso frequente, e as motos, as motos!, e a feira de peças… Da década de 30 em diante, tudo, absolutamente tudo, e o auge do encontro com o passeio de 130 km de Zwickau até Zschopau, passando pelas pequenas vilas da Alemanha Oriental, que vai sendo reconstruída aos poucos e apagando seu passado recente.

Passeio feito de DKW, claro, e não era qualquer um, não: um cabriolet 1956 amarelo claro, que não fazia um barulhinho sequer, o motor mais silencioso que de qualquer carro zero, tudo funcionando, a capota abaixada, o sol na moleira, os acenos das pessoas nas estradas, os amigos na Schnellaster recém-restaurada por quem sabe do assunto, meio século no tempo, é isso que senti, que tinha voltado 50 anos no tempo ao olhar para a frente e ver DKWs, para trás, mais DKWs, as estradas coloridas, a navegação precisa (é, tem de ter navegador, ou navegadora, porque tudo começa em comboio, mas o comboio se desfaz depois de dois ou três quilômetros, e aí é cada um por si, com navegação e “roadbook”). E a gente ainda se perde, e volta, e encontra outros DKWs perdidos, e dá risada e segue em frente.

Bem, não vou ficar enchendo vocês com uma interminável descrição de sensações que possivelmente só interessam a mim, nem vou atolar este espaço com as mais de 300 fotos que tirei, porque é coisa demais. Deixo apenas uma pequena galeria para molhar a boca.

E, depois, preciso pegar a estrada de novo porque vou mais para o Leste, a antiga RDA sumiu com os Trabis, as Barkas, os Wartburgs, incrível como eles ficaram raros, então só me resta ir um pouco mais para o Leste, e é para lá que eu vou.

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COPACABANA

RIO DE JANEIRO (vou pra Porto Alegre, tchau) – Saí pela transversal e peguei a Nossa Senhora de Copacabana à direita. Pelo clima, nem parecia o Rio: 22 graus, sol tímido de outono, brisa fresca, céu azul daqueles de doer os olhos.

Tudo como há 35 anos, as calçadas estreitas, gente indo e vindo desordenadamente, lojas coladas umas às outras, botecos nas esquinas, um comércio que já não se vê em qualquer rua, resquício, creio, dos anos do Império, da vocação lusitana pela venda, o Rio é a mais portuguesa das cidades, ao lado da Diesel tem uma casa de secos & molhados, e uma farmácia, e uma vendinha, e um minimercado, e uma óptica, e uma casa de sucos, e uma livraria. Afinal, não faz tanto tempo; Dom João chegou de mala e cuia há 200 anos, é um espirro na história.

Nas calçadas, lembrei de Roma, alguns mulambentos e miseráveis, doentes e aleijados, e a indiferença de quem passa, os grandes centros imperiais sempre atraíram todos os tipos de desgraçados pela vida, Roma é assim, o Rio é assim. Na rua, o barulho infernal dos ônibus e seus motores dianteiros, que ocupam todas as faixas e aceleram o tempo todo. De diferente, apenas as motos, que não havia, e de qualquer forma são em menor número do que onde vivo hoje.

Ninguém estranha quando passa alguém sem camisa e de chinelos, nem as moças de saída de banho. Vou seguindo em direção ao Leme, porque me lembro das direções, o mar é sempre uma ótima referência, e me lembro dos cheiros. É curioso como sempre me lembro dos cheiros, mesmo sem saber dizer do quê são.

Havia uma escadaria, que em meu primeiro vôo-solo, para comprar cigarros para meu pai, Minister, realizei morrendo de medo porque o Carlinhos tinha sido raptado, e eu achava que todos os adultos eram seqüestradores em potencial, mas na época não se usava falar seqüestro, e sim rapto.

Há 35 anos, eu desci a escadaria, virei à esquerda, passei em frente ao Cine Ricamar, comprei o Minister e voltei correndo. Ousadia que só foi possível porque não precisava atravessar a rua, exceto a minha, que era sem saída.

Tudo que eu precisava, agora, era achar a escadaria ao lado do Cine Ricamar, e quando a Nossa Senhora de Copacabana fez uma ligeira curva à esquerda, já dando para ver os fundos do Copacabana Palace, apareceu a escadaria, e eu subi, olhando bem para os lados para não topar com os maconheiros que o meu pai dizia que viviam lá fumando maconha, e eu não entendia porra nenhuma, porque meu pai também fumava, e eu não sabia direito qual era a diferença entre o Minister e a maconha.

Não cruzei com nenhum maconheiro, e notei que o Cine Ricamar já não tem mais esse nome, agora parece ser uma espécie de teatro da Prefeitura. Fui subindo e lá no alto estava a rua de paralelepídedos onde vivi há 35 anos, General Barbosa Lima, e logo à direita, na outra calçada, o prédio baixo de sete andares, Edifício Martha Pinheiro de Lima no letreiro dourado e polido. Logo que me mudei para cá, numa das primeiras semanas de aula, convidei um amiguinho para brincar em casa e quando ele perguntou onde eu morava, eu disse que era no Edifício Martha Pinheiro de Lima, e foi o que ele anotou no caderno para sua mãe levá-lo em casa, mas ele acabou não indo porque era preciso o nome da rua e o número, e eu pensava que o edifício, batizado com o nome de uma mulher tão importante, já deveria ser o suficiente. Não me lembro se tínhamos telefone, só sei que o amiguinho acabou não indo. Bem, o endereço era, é, rua General Barbosa Lima, 95. Apartamento 201. A gente abreviava General como Gal., acho que se faz isso até hoje.

Olhei para a fachada, me pareceu bastante familiar: algumas garagens do lado esquerdo, a entrada de serviço, que tinha à esquerda a lixeira onde caía o lixo que a gente jogava lá de cima, já que os apartamentos tinham lixeiras basculantes, e dava no fim do corredor no apartamento do zelador, o pai do João, vascaíno, e mais à direita a entrada social, revestida de madeira, que a gente nunca usava.

Havia um sujeito sentado na mureta do pequeno jardim e perguntei se era o zelador, ele me respondeu que era mais ou menos, estava cobrindo férias do seu tio, ou sobrinho, sei lá. Não era o pai do João, que já deve ter morrido. Continuei subindo a rua de paralelepípedos de calçadas muito estreitas, aquele pedaço de Copacabana se chamava Morro do Caracol, porque a rua fazia, faz, uma curva à esquerda, morrendo nos fundos do Edifício Martha Pinheiro de Lima.

Lá atrás, um pequeno play-ground cercado de grades, estas não estavam ali 35 anos atrás, e a breve rampa da garagem subterrânea onde meu pai um dia guardou um Chevette para fazer surpresa para minha mãe, cujo capô foi batizado por mim no dia em que um cachorro louco queria me morder, e eu corri para a garagem e subi no Chevette para escapar da besta-fera.

Eu morava no segundo andar e essa garagem subterrânea, nos fundos do Edifício Martha Pinheiro de Lima, ficava na verdade na altura da porta da cozinha do nosso apartamento. Não havia portão, agora tem. Desci a breve rampa e olhei para a garagem, ela me parecia maior há 35 anos, mas ali estava a porta estreita que dava no pequeno corredor que tinha o elevador à esquerda e no fundo a porta da cozinha, que irrompi com minha Caloi verde-alface em minha primeira experiência ligada à velocidade, e sem rodinhas, quando despenquei pela rampa, entrei pela porta que dava no corredor e só fui parar no armário debaixo da pia, rasgando a canela na lata do porta-corrente. Sangrou muito e minha mãe teve de consertar minha canela na banheira, para não pingar sangue nos tacos.

Ali nos fundos do Edifício Martha Pinheiro de Lima a gente brincava de bicicleta, empinava pipa e jogava futebol. Não lembro dos nomes de muita gente, exceto do João, filho do zelador, e do Serginho, filho do vizinho do primeiro andar. Que era mais velho, uns dois anos mais do que eu, e que um dia acendeu um cigarro na frente de todo mundo, o que me deixou estarrecido e excitado, e isso eu nunca comentei com ninguém. Mas era uma ousadia de tal monta que um dia resolvi que iria fazer o mesmo. Eu colecionava maços e caixas de cigarros que os turistas jogavam na areia, e na coleção tinha uma caixa não totalmente vazia, uma raridade, era de plástico, branca com faixas azuis, vermelhas e douradas, que encontrei na praia, era uma marca italiana, Muratti-alguma-coisa. E numa manhã fui até a pequena salinha que ficava junto ao hall da entrada social, que a gente nunca usava e nem tinha móveis, e escondido até de Deus coloquei o cigarro na boca para ver que gosto tinha. Como estava apagado, não tinha gosto de nada, apenas um aroma meio adocicado, o ato proibido deve ter durado três ou quatro segundos, escondi o cigarro e voltei para meu quarto correndo, apavorado, é verdade, mas sentindo-me já um adulto, quase como o Serginho.

Desci de novo a rua General Barbosa Lima, contornando dois prédios que não existiam em 1973, e tomei coragem. Fui ao interfone e toquei no 201. Atendeu uma moça e eu perguntei se ela morava lá. Ela não entendeu direito, perguntou meu nome não sei bem por quê, acabei descobrindo que era a empregada e os donos do apartamento não estavam. Expliquei, falando rápido e atropelando palavras, que há não sei quantos anos aquela tinha sido minha casa, mas não insisti demais. O zelador apareceu, um sujeito muito simples, e achei desnecessário dizer o que estava fazendo plantado sozinho diante do interfone, esperando uma resposta que não viria. Ele, de qualquer forma, não parecia muito interessado. Fui para o outro lado da rua e a empregada apareceu na janela, não estava com medo de nada, parecia apenas curiosa, deu um sorriso, e eu gritei lá de baixo que estava tudo bem, eu só queria ver meu apartamento de novo, mas sem os donos, sabia que seria inútil insistir. Ela deu outro sorriso, como se dissesse que por ela, tudo bem, mas estava claro que nem eu insistiria, nem ela deixaria, vivíamos um paradoxo monumental, os dois desejando a mesma coisa, eu subir e ela abrir a porta para aquele cara estranho mas inofensivo, e o ato jamais se consumaria pelo inusitado da situação.

Atravessei a rua para me despedir do zelador, que me disse ser da Paraíba, no Rio todos os nordestinos são chamados de paraíbas, e esse era, é, mesmo, e para provar a ele, que não tinha o menor interesse em prova alguma, que realmente tinha morado lá, contei que no primeiro andar vivia, naquela época, o Sérgio Cabral, jornalista conhecido, famoso compositor de sambas, e que o Serginho, aquele que fumava na frente de todo mundo, é hoje o governador do Rio. Ele não pareceu muito impressionado, e aí perguntei se o Sérgio Cabral ainda morava no 101, e ele disse que sim.

Desci a General Barbosa Lima, evitei a escadaria dos maconheiros, e lá embaixo notei que na entrada do Morro do Caracol, onde tem uma curva à esquerda que dá na Barata Ribeiro, há agora um albergue da juventude e uma igreja protestante, bem no trecho plano da rua onde jogávamos futebol e eu era goleiro, o único que gostava de jogar no gol, e usava camisa laranja com faixas pretas nos ombros, calção acolchoado e meias pretas, que nem o Zecão da Portuguesa de 1973, que olhava para mim todas as noites, desde a página de jornal colada na parede. Eu tinha luvas, também, marrons com a borracha vermelha, e passei a usar joelheiras apertadas depois que arrebentei os joelhos deixando meu sangue nos paralelepípedos da General Barbosa Lima num jogo épico contra os meninos que moravam nos prédios lá de baixo.

Fui até a Barata Ribeiro e me sentei na Cafeteria Carioca, de frente para a Praça Cardeal Arcoverde, pedi um café e uma fatia de torta de limão e comecei a pensar nas alternativas que tinha para, afinal, subir no meu apartamento, mesmo que só com a empregada por lá. E não eram poucas. Eu podia ligar para o jornal e pedir o telefone do Sérgio Cabral, contar tudo a ele, talvez se lembrasse da família paulista que foi sua vizinha durante três anos nos tempos do seqüestro do Carlinhos, talvez ele até deixasse seus afazeres de lado por algumas horas e fosse até o Edifício Martha Pinheiro de Lima e me convidasse para subir e tomar um café no 101, ou podia chamar a empregada de novo pelo interfone e pedir o celular de seus patrões, a quem telefonaria para fazer um pedido inesperado e pouco usual, afinal eu tinha muitos elementos para sustentar minha história, poderia descrever o apartamento em detalhes, contaria a ele, ou ela, do acidente com a bicicleta, da lixeira, da ante-sala onde coloquei o cigarro apagado na boca, e da porta pantográfica do elevador que me metia muito medo, porque meu pai dizia que se colocasse a mão ali ela seria arrancada, o que resultou em três anos de absoluto pavor toda vez que pegava aquele elevador, e poderia ir além, diria que costumava jogar bola com meu pai e meus irmãos no corredor comprido que levava aos quartos, um dos gols era a porta do banheiro, até o dia em que quebramos uma xícara de um jogo de chá que tinha sido da minha bisavó e minha mãe chorou porque não dávamos sossego, e lembraria a ele, ou a ela, que guardava memórias decisivas daquele corredor, daqueles quartos e daquela sala, porque um dia meu pai recebeu uma visita de São Paulo, talvez fosse seu chefe, e disse a ele orgulhoso que eu era uma criança muito inteligente que adorava ler e que qualquer coisa que caísse na minha mão, fosse um livro, um jornal ou uma revista, eu parava de fazer o que estivesse fazendo e lia, lia furiosamente, e escutei isso do meu quarto, e para reforçar junto ao chefe aquilo que meu pai disse, armei-me de coragem e de um livro da escola, fui até a sala dizer boa-noite, e imediatamente sentei-me na poltrona puída e disse, alto e bom som, que já que estava com aquele livro na mão, iria aproveitar para ler um pouquinho, o que deve ter deixado o chefe realmente impressionado, a comprovação imediata do que meu pai tinha dito pouco antes. Aquilo, certamente, iria ajudá-lo no emprego. E nunca me esqueci daquele dia, e até hoje tudo que cai na minha mão eu leio, porque se meu pai disse um dia que sou assim, assim sou.

Contaria também ao patrão, ou à patroa da empregada, que provavelmente graças àquela demonstração instantânea de solidez de nossa estrutura familiar, naquela noite meu pai me levou para jantar com o chefe no Alcazar, que ficava na avenida Atlântica, e ainda fica, e que pela primeira vez comi lagosta na vida, com arroz e manteiga derretida, não deixei cair uma gota da manteiga na camisa de colarinho, meu pai deve ter deixado metade do salário na lagosta para agradar o chefe, e, em resumo, se hoje eu gosto de lagosta com manteiga derretida e leio muito, devo tudo àquele momento único na sala do apartamento 201 do Edifício Martha Pinheiro de Lima, e que só isso já seria suficiente para que ele, ou ela, telefonasse à empregada autorizando que eu subisse, e que ficasse por lá o tempo que quisesse.

Paguei o café e a torta de limão decidido a levar um dos meus dois planos adiante, achar o pai do governador ou telefonar para os patrões da empregada, mas a coragem foi-se esvaindo na medida em que subia o Morro do Caracol até parar diante do prédio de novo, olhar para as amplas janelas, o quarto do meio onde eu dormia, o letreiro em dourado, a entrada de serviço, a madeira revestindo a entrada social, a escadaria que me levaria de volta à vida às minhas costas, e consegui apenas telefonar para meu pai e dizer, adivinhe onde estou?, e ele disse, na rua General Barbosa Lima número 95, e eu disse que era lá mesmo, disfarcei a emoção, ele também, mandei um beijo, virei as costas para o passado e comecei a descer a escadaria, agora já sem medo de nenhum maconheiro ou dos sequestradores do Carlinhos, satisfeito por não ter de deixar mais marca nenhuma na rua General Barbosa Lima além do sangue de meus joelhos ralados nos paralelepípedos, uma marca eterna, muito mais do que seria qualquer lágrima que derramasse naquele apartamento 35 anos depois, lágrimas que correriam dos olhos de alguém que anda espantado com o jeito que o tempo passa.

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Vou sentir saudades

SÃO PAULO (voltei, e de BRA!) – Acabo de chegar de Brasília, pequena trip sobre a qual falo daqui a pouco. Abro o Grande Prêmio e está lá a notícia: Suzuka será substituída por Fuji em 2007.

Como não conheço a pista de Fuji, tenho pouco a falar dela. Mas Suzuka conheço muito bem. Circuito e cidade. Mais do que isso: a vida de Suzuka, onde estive oito vezes, todas elas abrigado na casa de amigos dekasseguis que conhecemos por lá.

Vou sentir saudades de muita coisa, especialmente dos amigos. Do Giba, que todo dia pela manhã me fazia dois monstruosos sanduíches com ovo frito, maionese, queijo, presunto, salada e tomate. Da Miki, sua mulher, e das crianças (puxa, a Hitomi já deve ter uns 15 anos, mas os outros dois continuam crianças). Do David, do Arnaldo, de todos os outros. Dos jantares, dos jogos de futebol society, do clima sempre épico que pareceu revestir cada GP disputado ali.

Vou sentir saudades do trem-bala, das intermináveis conversas na mesinha da cozinha do Fukumoto Inn (escrevi sobre isso num Diário de Viagem, quem tiver paciência é só clicar nesse link).

Vivi grandes momentos por aqueles lados do planeta, deles trouxe muitas fotografias (como não fotografar estando no Japão?), algumas delas estão aí embaixo, todas de 2000.

Vou sentir saudades de Suzuka. Muita saudade mesmo.



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Falando em deserto…

SÃO PAULO (saudades de Beirute) – Falando em Bahrein, eu só fui à primeira corrida lá, em 2004. Neste Diário de Viagem está o relato daquelas desventuras. Para a macacada nova, que está me conhecendo agora pelo blog, Diários de Viagem são colunas esparsas que fiz ao longo dos anos contando minhas andanças por este asteróide que todos chamam de Terra. Esses textos deram origem ao meu livro “O Boto do Reno”, cujo título vem de uma dessas colunas, a que mais gosto.

Alguns leitores, uns dois ou três, reclamam que parei com os Diários. Mas não parei, não. Escrevo um pouco menos, só isso. Aliás, tenho dois escritos do ano passado que ainda não publiquei, mas o farei oportunamente.

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