Arquivo da categoria: Brasil

DE QUEM SERÁ?

SÃO PAULO (uau) – Estamparam uma Ferrari 458 Spider num poste na madrugada de hoje em São Paulo. Um casal ocupava o veículo, mas não se sabe quem eram os pombinhos — que, felizmente, não se machucaram e não machucaram ninguém. No G1, a partir de um testemunho, comenta-se que a mulher dirigia o carro e era “uma figura pública”.

Se fosse um coió de Chevette já saberíamos o nome, endereço, profissão e situação do veículo no Detran.

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AS RESPOSTAS

SÃO PAULO (a luta kontinua, diria Veloz…) – Eu realmente não tenho grande esperança de ver os animais exibicionistas que instalam GoPros em suas motos, carros e caminhões apodrecerem numa cadeia, ou pelo menos terem a vida importunada ad eternum pelas autoridades.

Mas a reação dos civilizados mostra, pelo menos, exatamente o que eles são: covardes.

O Natanael Maia, de Brasília, me contou sobre alguns caras de lá que colocam esses vídeos no ar com seus Porsches, Ferraris e Lamborghinis fazendo atrocidades, tirando fina de ciclistas, cometendo crimes em profusão, enfim. Tais vídeos, alguns deles, foram expostos neste site aqui, o “Pra Quem Pedala“.

É claro que os autores imediatamente tiraram do ar. Têm medo das autoridades (desnecessário) e dos papai (que podem ficar zangados).

Devem ter ficado deprimidos, coitadinhos, porque para quem vão mostrar suas grandes façanhas, sem o YouTube? Agora, além de pintinhos pequenos, eles só têm carrinhos caros na garagem e nada podem fazer com eles, porque se não dá para colocar no YouTube e no “feice”, é como se não existissem.

Coitadinhos.

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A FICHA

SÃO PAULO (eu não estou…) – Curiosa a história publicada hoje no Grande Prêmio sobre a “ficha” de Senna no DEOPS — órgão que na ditadura servia para espionar cidadãos, fichá-los, montar arquivos, prender, torturar. O DEOPS, que também foi DOPS, é uma dessas coisas que tem gente que, ainda hoje, defende. Nunca é demais lembrar que hoje, 1° de abril, faz 49 anos da mentira que foi a “revolução” militar de 1964. O golpe começou no dia 31 de março com as tropas saindo de Minas e foi consolidado ao longo da madrugada, para derrubar João Goulart, presidente constitucional.

E foi a merda que todos conhecemos pelos 21 anos seguintes.

Mesmo depois do fim do regime militar, o DEOPS continuou funcionando. Já não servia para muita coisa, a julgar pela “ficha” de Ayrton. Estou colocando entre aspas porque chega a ser ridículo alguém ser pago pelo Estado, na época, para fazer relatos como esses que se veem na pasta do piloto.

fichasenna

 

Era só comprar os jornais. Não se tratava de nenhuma informação secreta ou levantada em trabalho de campo pelos competentíssimos arapongas semiaposentados do DEOPS. Desse recorte da “Folha” mencionado no informe, com a data de 15 de novembro de 1990, eu lembro bem. Era editor de Esportes do jornal e a gente tinha sido furado alguns dias antes pelo pessoal de Polícia do “Estadão” com a história do sequestro. Assim, mandei um de meus melhores repórteres, Antonio Rocha Filho, para a porta da casa da família Senna na zona norte da cidade. Me traga alguma notícia, pedi.

Rendeu uma capa do caderno, essa matéria aí catalogada na “ficha” de Senna — que era um malufista juramentado, conservador e carola, e por isso mesmo jamais representaria alguma ameaça ao regime militar, muito pelo contrário. Aliás, são raríssimos os esportistas não alinhados a governos ao longo da história, em todos os países. Aqui no Brasil, os atletas contestadores a gente conta nos dedos das mãos. A turma dos esportes, em geral, é politicamente muito sem graça.

Pedi ao Victor Martins para aproveitar o ensejo e procurar minha ficha nos arquivos do DEOPS — que pelo jeito foram liberados. Afinal, nessa época, 1990, eu já tinha 26 anos e trabalhava no maior jornal do país. Cobri greves e áreas importantes, como educação, ciência e tecnologia, além de ter participado de manifestações pelas “Diretas Já” e de ter xingado uma comitiva do presidente Figueiredo na Paulista uma vez. Alguns anos antes, também rasguei um adesivo de “Ame-o ou Deixe-o” quando fui tirar do vidro da Belina do meu pai. Merecia uma ficha, como não?

Martins não encontrou ficha nenhuma com meu nome, uma enorme decepção. Nem para incomodar o DEOPS eu servi.

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BOA CAUSA

SÃO PAULO (aplausos) – Um lindo, maravilhoso Cadillac Fleetwood 1963 foi doado por um colecionador, José Marcílio Nunes, para ajudar a Santa Casa de Belo Horizonte. O carro será sorteado numa rifa que pretende arrecadar até 250 mil reais. Os detalhes estão no link do G1 acima.

Lindo gesto, nobilíssimo destino para o carro. Parabéns ao José Marcílio.

Foto: Sara Antunes/G1

Foto: Sara Antunes/G1

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RICO É UMA MERDA

SÃO PAULO motoristadaferrari(inacreditável) – Adolfo Cardoso de Araújo, o cara que dirigia a Ferrari amarela que atropelou espectadores da exibição de domingo no Aterro, ficou bebendo cerveja das 9h ao meio-dia. Cinco latas. Ele mesmo contou à polícia, mas se recusou a fazer exames.

Adolfo Cardoso de Araújo, de 55 anos, é citado em inquéritos da Polícia Civil em São Paulo por estelionato, falsidade ideológica e otras cositas más.

Uma rápida busca em sites de processos judiciais mostra que Adolfo Cardoso de Araújo é ligado a essas “associações” picaretas que mandam boletos para empresas do Brasil inteiro fazendo cobranças igualmente fantasmas. Elas têm nomes parecidos com entidades verdadeiras, como a centenária Associação Comercial de São Paulo, criada em 1894. Para enganar os incautos, são batizadas como “Associação dos Empresários Brasileiros”, ou “Associação Comercial do Estado de São Paulo”, coisas assim. Vivo recebendo boletos desses escroques. Tente telefonar para uma dessas associações. A de Adolfo Cardoso de Araújo é essa aí em cima, “Associação Comercial do Estado de São Paulo”. O telefone é (11) 3107-0430. Ligue lá. Se alguém atender e te der alguma informação, corto o saco.

Agora coloquem “www.acesp.org.br” no registro.br para sacar o cinismo desses picaretas. Entrem aqui. Vejam a quantidade de domínios registrados sob o mesmo CNPJ. O dono de “www.acesp.org.br” é dono de todos esses. São, possivelmente, “associações” que enviam boletos para o Brasil inteiro. Seus nomes? Sei lá. Nenhum desses sites é ativo. Ou estão sendo usados para roubar alguém, ou esperando para que possam ser usados oportunamente.

O golpe é conhecidíssimo, mas ainda tem gente que cai, por ingenuidade e desconhecimento. O cara abre uma empresa, seus dados vão para a Junta Comercial, e acabam vazando para esses pilantras, que enviam boletos com cobranças para os endereços das firmas. Como os nomes de suas “associações” são solenes e verossímeis, assim como os boletos, que têm impressos brasões imponentes ou mapas estilizados do Estado de São Paulo, com cara de coisa oficial, muita gente paga sem saber exatamente o quê está pagando, com medo de protestos ou multas por atrasos. Imaginam que pode ser algo obrigatório, como um imposto sindical ou algo do gênero. E se de cada 1.000 boletos 100 forem pagos, imaginem o lucro destes canalhas.

Incrivelmente, os bancos brasileiros nada fazem contra esses bandidos filhos da puta. Um banco deveria, no mínimo, verificar a legalidade de uma pessoa jurídica que usa seus serviços para fazer cobranças. Ninguém verifica porra nenhuma. O governo também não. Deixa que ajam livremente.

E, assim, alguém como Adolfo Cardoso de Araújo é capaz de comprar uma Ferrari de quase 2 milhões de reais.

E, assim, alguém como Adolfo Cardoso de Araújo, por ser um dono de uma Ferrari de quase 2 milhões de reais, é convidado pelos representantes da marca no Brasil para participar de um evento no Rio — quem convida é Francisco Longo, sócio da Via Italia, a revendedora oficial de Ferrari e Maserati por aqui, amigo de Massa, piloto e coisa e tal.

E, assim, alguém como Adolfo Cardoso de Araújo se acha no direito de ficar enchendo a cara numa manhã ensolarada no Rio para se exibir com sua Ferrari de quase 2 milhões de reais, dinheiro que veio de suas picaretagens como dono de associação que não existe.

Se as autoridades brasileiras, estaduais, municipais, federais, eclesiásticas ou do candomblé tivessem cumprido sua obrigação, de perseguir e encarcerar os filhos da puta que vivem de dar golpes em empresários amedrontados e ingênuos, alguém como Adolfo Cardoso de Araújo teria de trabalhar de verdade para ganhar seu dinheiro. Talvez não conseguisse comprar uma Ferrari. E não estaria no Rio, domingo, convidado por Francisco Longo para exibir seu carrão de quase 2 milhões de reais. E não atropelaria ninguém.

Eu disse aqui, domingo, que os organizadores, no caso a marca de energéticos TNT, não tinham culpa no que aconteceu. Têm, sim. Primeiro, porque deveriam se preocupar com a reputação de seus convidados. Eu não convidaria um suspeito de estelionato para minha festa. Depois, porque não poderiam permitir que bebidas alcoólicas fossem servidas numa muito provável área VIP onde os donos de grandes Ferraris e pequenos pintos esperavam por sua vez de exibir seus brinquedinhos ao populacho.

Rico é uma merda.

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TIOZÃO E CHORÃO

SÃO PAULO – Foi um velho conhecido deste blog, o “Tiozão” das motos, que encontrou o corpo do vocalista Chorão, da banda Charlie Brown Jr. Ele trabalhava para o cantor. A notícia está no G1.

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RIO, MEU RIO

Ainda dá tempo? Ô se dá. Parabéns, meu Rio de Janeiro. Eugen Cohen mandou o vídeo maravilhoso. O Rio vive em mim.

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QUANDO QUER…

SÃO PAULO (…pega, claro) – Vejam o exemplo deste delegado de Vitória, Fabiano Contarato. Um palhaço postou vídeo no YouTube a 180 km/h nas ruas de Vila Velha (nas ruas!) e, depois, a 253 km/h numa estrada local. O delegado viu, mandou identificar o cara e abriu inquérito contra o sujeito. O blogueiro Cleiton Rossa mandou a notícia.

É simples, basta querer. O que contraria as opiniões de muitos advogados que vêm aqui, sempre que mostro esses casos, alegar que “ninguém pode fazer nada, porque vídeo não é prova” etc, etc e etc.

A abertura de inquérito pode não resultar em nada muito grave para o criminoso, o acéfalo provavelmente não será preso por causa do vídeo. M ele terá dor de cabeça, vai precisar contratar advogado, gastar dinheiro, pode perder a carteira, certamente vai pensar antes de fazer merda de novo, o que pode evitar que mate alguém graças à sua estupidez inata.

Parabéns ao delegado. É um exemplo de que quando um servidor público tem a disposição de servir ao público, não é tão difícil assim. Gostaria de cumprimentá-lo pessoalmente. E espero que os promotores capixabas transformem a vida desse sujeito num inferno permanente, chamando-o para depor, marcando audiências todas as semanas, quem sabe levando-o a algum hospital numa madrugada de domingo para ver de perto o que gente como ele costuma causar.

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ONE QUESTION

SÃO PAULO (adivinhem…) – Hoje faz dois anos que o ensandecido Ricardo Neis atropelou dezenas de ciclistas e feriu 17 deles numa manifestação em Porto Alegre. A pergunta: ele está solto, passeando alegremente pelas ruas da capital gaúcha, com seu empreguinho no Banco Central garantidíssimo?

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“PROVA INVÁLIDA”

SÃO PAULO (ridículo) – O loiríssimo Thor Batista, que em março do ano passado atropelou e matou um ciclista numa estrada do Rio, vai recuperar sua carteira de motorista porque o laudo que indicava que estava a 135 km/h, acima do limite daquela rodovia, não vale mais. A defesa alegou que o documento deveria fazer parte do processo desde o início. Mas chegou depois. Os desembargadores aceitaram a alegação e consideraram o laudo uma “prova inválida”.

Quer dizer que por ter chegado depois, é como se o laudo não existisse. Fica eliminado da face da Terra o fato de que o loiríssimo estava acima do limite em sua reluzente Mercedes McLaren.

É de morrer de orgulho dos desembargadores, não? Será que eles também se orgulham dessas decisões?

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ALGUMA ESPERANÇA

SÃO PAULO (e tem muitos outros, ô se tem…) – Aparentemente, o motoqueiro-celebridade-da-internet que, de carro, atropelou e matou um homem no fim de janeiro será indiciado por homicídio culposo e apologia ao crime. Esse último indiciamento, aparentemente, dar-se-á por conta dos vídeos de suas barbaridades postados há meses no YouTube e recebidos com bovina passividade pelas autoridades de trânsito e policiais de São Paulo. Precisou morrer uma pessoa para alguém perceber que esses vídeos nada mais são do que isso, mesmo: apologia ao crime.

Desconfio que mais esse processo no rapaz pode complicar sua carreira de cineasta do cotidiano mutcho loko, uma vez que há alguns outros com seu nome na Justiça (os dados são públicos, como qualquer processo que tramita na Justiça, e quem se interessar pode procurar aqui para ter um perfil um pouco mais preciso desse infeliz herói de energúmenos).

Eu, se fosse o delegado, chamaria também a depor a besta quadrada que apresenta esse programa de TV na internet com ele, mais um dos que querem transformar a vítima em culpado. Quanto ao advogado do sujeito, posso apenas me espantar com  a menção a ele na matéria do G1: “O advogado também nega que Kleber faça apologia e afirma que, nos próprios vídeos, o comerciante recomenda que suas práticas não sejam seguidas.”

OK, doutor adevogado. Seu cliente comete todo tipo de atrocidade sobre uma motocicleta numa cidade de 11 milhões de habitantes e recomenda que não façamos igual. Acho que o maníaco do parque também sugere que não estupremos ninguém, e o Chico Picadinho, se entrevistado, dirá: não esquartejem pessoas.

Fico mais tranquilo, agora.

No mais, que a polícia e as autoridades se debrucem, agora, sobre as centenas de vídeos no YouTube com gente fazendo coisa parecida de carro, moto e caminhão. Se quiserem, se vosso departamento de inteligência cibernética estiver meio emperrado, posso passar uma lista de links. Todos os autores se identificam, de alguma maneira. É a coisa mais fácil do mundo encontrá-los e tirá-los de circulação com coisas motorizadas, antes que matem também. O que é, obviamente, apenas uma questão de tempo.

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GÊNIO DA BAHIA

SÃO PAULO (saudades dele) – Conheci Raul Moreira nos anos 90. Ele vivia na Itália e cobria Fórmula 1 para alguns jornais e rádios do Brasil. Quando montei minha agência “Warm Up”, que fazia a cobertura do Mundial para 55 jornais brasileiros, dediquei a ele a primeira coluna daquela nova fase da minha carreira, pós-”Folha”. Imagino que meus novos parceiros devem ter me achado meio louco. “O Baiano” era o título do primeiro texto enviado a eles, que deveria tratar de carros e pilotos…

Posso afirmar que em sei lá quantos anos viajando e convivendo com jornalistas do mundo inteiro, nunca houve alguém como Raul Moreira na F-1. Um cara que nada tinha a ver com aquele mundo, e por isso mesmo sempre foi desconcertante na convivência com seus personagens. Culto, poliglota, libertário, viveu nos autódromos por algum tempo e, obviamente, se mandou quando percebeu que nada mais havia a descobrir por ali e foi fazer outras coisas na vida.

Raul voltou ao Brasil alguns anos atrás e passou a trabalhar com vídeo e cinema na Bahia. Neste Carnaval, fez uma série de cinco programetes para a TVE da Bahia na pele de Charles Molina, o personagem que criou — uma “celebridade” que passou a semana frequentando os camarotes de Salvador sem ter sido convidado para nenhum. Seu desafio era esse: um programa de cinco minutos por dia, durante cinco dias, para mostrar uma face da festa que não é conhecida por quem acompanha tudo pela TV — num formato plastificado e revestido de uma beleza que há anos, eu arriscaria dizer que há uns 15, pelo menos, é artificial, segregacionista e totalmente descolado daquilo que foi, um dia, o verdadeiro Carnaval de rua baiano.

O resultado está aí em cima (na página do primeiro episódio estão os links para os demais). Ver o Raul como ator-cineasta-videomaker e lembrar dele entrevistando pilotos e tentando entender o sentido daquela coisa totalmente despida de razão que é a F-1 me fez ter um orgulho danado do cabra.

Toca Raul. Grande Raul.

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ASSUMAM, AGORA

SÃO PAULO – Foi em 23 de agosto do ano passado que escrevi pela primeira vez sobre o tema, num post intitulado “Zero esperança”. Tinha acabado de ver um dos vídeos de figura tristemente notória na internet, o “Tiozão da Hornet”, ou “Klebão”, com seus quase 500 vídeos cometendo barbaridades de motocicleta pelas ruas da cidade. Reproduzo um trecho, cortando o que não é essencial ao raciocínio:

São 491 vídeos. Nome e sobrenome. Alguns mostram até que o rapaz tem lá suas ideias, alerta contra as drogas, contra o preconceito, contra o crime. Talvez tenha bom coração, família, mulher, filhos, sei lá. Mas um vídeo só, apenas um, esse aí embaixo, deveria ser suficiente para que as autoridades da cidade impedissem-no de dirigir qualquer coisa motorizada. Qualquer coisa. Não estou discutindo caráter, bondade, maldade, nada, nada disso. Não sei quem ele é, não tenho o menor interesse em conhecê-lo, espero apenas nunca cruzar com ele na rua, porque provavelmente vou me assustar, cair da lambreta e me estatelar no asfalto. Somos uma cidade de milhões de cretinos, idiotas, irresponsáveis, egoístas, estúpidos. Alguns deles postam 491 vídeos no YouTube. E fica tudo por isso mesmo. Donde se conclui que cretinos, idiotas, irresponsáveis, egoístas e estúpidos também são facilmente encontráveis entre as autoridades da cidade, medrosas, covardes, patéticas. Se uma polícia de uma cidade como São Paulo é incapaz de fazer algo contra alguém que faz o que esse rapaz faz no trânsito, nas ruas e nas estradas, fazendo o favor de dar nome, sobrenome e endereço para quem quiser encontrá-lo, esqueçam. Isso aqui não tem jeito, mais.

O que mais me espantou à época foi menos  festival de atrocidades no trânsito e mais a quantidade de gente que assistia aos vídeos e vibrava com elas. O blog foi atacado por defensores do “Tiozão”, embora o que ele mostrasse com sua câmera na moto fosse algo claramente indefensável para qualquer pessoa com um mínimo de civilidade. Daí o título, “Zero esperança”.

Não sei se por coincidência, pouco depois de aparecer aqui o protagonista foi alvo de algumas reportagens em canais abertos de TV, que igualmente receberam saraivadas de ofensas por parte dos seguidores do motoqueiro. Mas a estupidez humana é tão ilimitada, que uma certa WNTV, um desses canais de TV pela internet, incorporou o “Tiozão” ao seu quadro de apresentadores, dando a ele um programa semanal, parece.

No último dia 28 de janeiro, recebi uma informação sobre o atropelamento de um senhor de 53 anos na avenida Duque de Caxias, no centro de São Paulo. O homem atravessava a avenida, que tem duas pistas separadas por um canteiro central, na faixa de pedestres, mas com o sinal aberto para os carros. Aproveitou que não vinha ninguém e atravessou. Todos fazemos isso, às vezes. É imprudente. Um carro que estava na pista da direita resolveu passar para a outra aproveitando a interrupção do canteiro central num cruzamento, fazendo uma manobra cujo caráter irregular estava claramente expresso por uma placa de trânsito. O carro atingiu o homem, que foi atirado longe e teve fratura no crânio. As imagens estão no vídeo aí no alto. Ele trabalhava numa loja de autopeças da região.

Oito dia depois, o homem, Antonio Farias, morreu no hospital. Deixou mulher, três filhas, um filho e duas netas.

Quando recebi a informação, surgiu o nome do atropelador: Kleber Atalla, o “Tiozão da Hornet”. Era ele quem dirigia o carro. Minha surpresa se limitou a isso: ele estava dirigindo um carro, uma picape Fiat Strada, e não sua motocicleta. Por tudo que “Klebão” costuma fazer no trânsito, supunha que a probabilidade de seu envolvimento num acidente de trânsito dar-se-ia sobre duas, e não quatro rodas.

Mas era, obviamente, uma questão de tempo para que algo sério viesse a ocorrer. Ocorreu, e uma pessoa perdeu a vida.

Essa vida será, claro, debitada na conta de Kleber Atalla, que fez uma manobra proibida e imprudente, típica dos que se consideram donos das ruas e avenidas e creem na impunidade acima de tudo. Que seja processado, julgado e condenado, e nunca mais dirija nada. Mas deve ser debitada, sobretudo, na conta de todas as autoridades policiais, de trânsito, de governo, de administrações municipais, estaduais e federal que, covarde e inexplicavelmente, fecham os olhos para as centenas de manifestações de insanidade que surgem a cada dia no YouTube e lá ficam à disposição de quem tiver coragem e senso de cidadania para punir seus autores.

Se no dia 23 de agosto, cinco meses atrás, quando escrevi sobre o assunto, ou nas semanas seguintes, quando o triste personagem se tornou célebre para além de seu universo de admiradores através de reportagens de TV e outras mídias, alguma autoridade tivesse tomado a única atitude aceitável para o caso — chamá-lo a prestar depoimento, indiciá-lo e cassar sua carteira de motorista —, ele não estaria dirigindo nem patinete em vias públicas. E o senhor Antonio estaria vivo. Mas o “Tiozão” continuou sem ser incomodado com sua infeliz jornada de colocar a vida dos outros em risco, registrando cada demonstração de escárnio em seus vídeos assistidos por milhões de pessoas.

Vocês, autoridades que se omitiram e nunca fizeram nada, mataram o senhor Antonio Farias, 53 anos. Vocês mataram o marido de dona Rosemeire e pai de Mariane, Bruna, Ana Beatriz e Wellington. Vocês continuarão matando Antonios e Josés e Joões enquanto motoqueiros, motoristas e caminhoneiros seguirem filmando suas façanhas para deleite de milhões de debiloides excitados sem que alguém se dê o trabalho de identificá-los e puni-los.

Parabéns.

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CINISMO E INUTILIDADE

SÃO PAULO – A vida nestes tempos é muito estranha. Há um mundo paralelo, este aqui onde você me lê. Muitos físicos e cientistas defendem que uma outra dimensão espaço-tempo é possível, pode ser descrita com fórmulas complicadas que fogem à compreensão de cérebros mal treinados.

Os fatos de Santa Maria, por sua vez, são de fácil compreensão e bem reais. Uma boate com alegada capacidade para mais de mil pessoas (os bombeiros, baseados na metragem da casa, disseram depois que não deveriam entrar mais de 691) com apenas uma saída estreita e distante de quem não estivesse na porta da rua, sem janelas e revestida de material inflamável e tóxico. Jamais poderia ter sido aberta. Mas foi, porque recebeu um alvará de funcionamento um dia. E também um laudo do corpo de bombeiros, que estava em processo de renovação.

São criminosos aqueles que concederam o alvará e os que assinaram o laudo liberando a casa. Assim como criminosos são o arquiteto que a projetou e o engenheiro que executou a obra. E os proprietários, também. Não consigo entender como tantas pessoas envolvidas com a abertura de uma casa noturna possam ter sido capazes de colocá-la em funcionamento dessa maneira. Uma ratoeira. A casa não atende os requisitos mínimos de segurança que não só a lei exige, como também o bom-senso. Não é possível que ninguém — num grupo que tem um funcionário da Prefeitura que dá o alvará, um bombeiro que assina o laudo, um arquiteto que projeta, um engenheiro que constrói, proprietários que ganham dinheiro com o negócio — tenha, em algum momento, se perguntado: e se acontecer algo? Por onde saem as pessoas? Quais os riscos? Por que não havia iluminação de emergência? Por que os extintores não funcionavam? Por que permitir a entrada de 1.500 pessoas onde cabem 691? Pagou-se propina? A ideia foi economizar? Ignorar as leis, as recomendações? Como, me pergunto, alguém é capaz de conceber um lugar assim e abri-lo, enchê-lo de jovens, com mais do que o dobro de sua capacidade?

A cadeia de pessoas para ser responsabilizada não é pequena. E passa, claro, pela idiotice explícita da banda com seu show pirotécnico. Como é que alguém pode disparar artefatos que produzem fogo, faísca e fagulhas num ambiente fechado, seja ele qual for, tenha ele o tamanho que tiver?

É fácil, pois, descrever as causas do acidente e compreender por que ele aconteceu. Não há muita dificuldade para entender que o descaso, a negligência, a ganância, a burrice, isso tudo junto causou o incêndio e as mortes. Não há como fiscalizar tudo. Não há como fiscalizar a ausência de caráter das pessoas, nem seu grau de imbecilidade. Não são os governos que devem ser culpados nesse caso. São as pessoas, muitas delas abrigadas em governos, que não cumpriram com a obrigação maior de qualquer ser humano: a de ser uma pessoa de bem.

Gente que conhece os caminhos tortuosos da burocracia brasileira, como meu amigo André Barcinski, relata a crueldade do sistema, que acaba levando o mais puro dos monges a perder a paciência para abrir um negócio qualquer — e, em algum momento, a compostura, transformando-se num corruptor. Porque é quase uma regra nacional: o serviço público é contaminado pela corrupção e infestado de corruptos.

Mas há também aqueles que abreviam esses caminhos e fazem ligação direta com a corrupção. Pagam por fora, conseguem seus alvarás, não cumprem lei nenhuma e foda-se. Igualam-se ao pior dos corruptos. Você, certamente, conhece um.

Mas, insisto, não há como fiscalizar o caráter das pessoas. Eu sempre ouvi essas histórias, depoimentos de pessoas que afirmam, com todas as letras, que “se não pagar, não consegue”. Não consegue abrir um bar, um café, uma oficina, uma loja. Mas na minha santa ingenuidade, sempre imaginei antídotos para os corruptos. Eu, por exemplo, se fosse abrir um bar, requisitaria a legislação e cumpriria à risca cada item exigido. No dia da vistoria definitiva, montaria câmeras, contrataria cinegrafistas e acompanharia o fiscal metro a metro em sua fiscalização, com a lei numa mão e um microfone na outra.

Ninguém faz isso. As pessoas se rendem ao que consideram inevitável. Alguém vai me pedir propina. Alguém vai me extorquir. E a roda da putaria não para de girar.

Desviei-me do assunto, eu queria falar destes tempos estranhos. Já vou terminar.

Como muita gente faz hoje em dia, segui os acontecimentos de ontem por todos os meios disponíveis, entre eles as redes sociais — Twitter e Facebook. E é, realmente, estarrecedor como este mundo virtual abriu as portas para que gente nem tão virtual assim exponha o pior do ser humano. Ferramentas geniais — considero todas essas coisas que a internet criou geniais, espantosas —, que poderiam ser tão úteis e ricas, acabam se transformando em megafones propagadores da iniquidade e da demência. O blogueiro Marcel Dias, do “Diário do Nordeste”, escreveu sobre a inutilidade que tomou conta das redes sociais e de como tal inutilidade se mostrou clara ontem. “Seja qual for a rede social, repleta de pessoas, o comportamento do organismo funcionará da mesma forma como funciona aqui, fora dos computadores. O meio virtual apenas ‘digitaliza’ o caráter das pessoas. Por maior que seja o fingimento, o comportamento apresentado é real”, diz Marcel. Na mosca. Quem tiver estômago pode comprovar o que escreve o blogueiro nesta página do Orkut, outra rede social (tomara que já tenham eliminado o link, não é possível que o Google, dono desse negócio, permita que isso se mantenha no ar). Está tudo fora de controle.

Essa contaminação do mundo real pelo mundo virtual, talvez essa nova dimensão espaço-tempo que os cientistas descrevem com equações e algoritmos quando bastaria visitar uma lan-house, se dá em todas as frentes e desconfio que há pessoas que já não concebem mais a vida sem ele. Uma geração que definhará sem uma conexão wi-fi, sem um iPhone, sem um botão de “like”.

E isso é perigoso. Essa geração, hoje, se senta diante de um teclado e comete insanidades como a do perfil do jornal “O Estado de S.Paulo” no Twitter ontem, que em meio à contagem dos mortes conclamava seus seguidores a procurarem perfis das vítimas no Facebook.

Difícil imaginar cinismo maior. Difícil imaginar tamanha desconexão com a realidade. Há quem chame isso de “jornalismo participativo”, ou “interatividade”. O mundo em que tudo se compartilha e se curte.

Acho apenas que estamos ficando todos loucos.

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POBRES JOVENS

Pobres jovens que viramos as madrugadas à espera de notícias. Cheguei. Estou saindo. Deixe seu recado após o sinal. Deixe seu recado após o sinal.

Pobres jovens que precisam de nós. Queremos saber onde vocês estão, meninos e meninas. Que horas vão, que horas vêm. Chegou bem? Está tudo bem?

Deixe seu recado após o sinal. Chegou bem, filho? Chegou bem, filha? Está tudo bem, pai, está tudo bem, mãe.

É bom quando está tudo bem, quando o celular apita. Podemos dormir.

Pobres jovens em busca da felicidade eterna e permanente. Ela não existe.

Por que você fez isso, Deus?

O quê?

Matou esses meninos e meninas.

Não fui eu.

Então foi quem?

Vocês vivem se matando.

Você nos fez assim. Não desvie o assunto. Por que matou esses meninos e meninas?

Não fui eu.

Vou mudar. Jogaram um bebê no lago. Alguém o achou e salvou.

Graças a Deus.

A você?

Sim, a mim.

É o que todos dizem, graças a Deus. Então foi você que salvou o bebê?

Sim, fui eu.

E por que matou esses meninos e meninas?

Não fui eu.

Um pai disse que Deus salvou a filha dele. Foi você?

É o que disse o pai.

Foi?

Fui.

E por que matou os outros?

Você não entende a morte. Você não entende nada.

Não entendo, quero entender. Por que uns sim, outros não?

Porque é assim.

Eles mereciam morrer, é isso?

Uns mereciam viver e outros mereciam morrer?

Responda.

Por que tanto sofrimento, por que tanta dor? Quem merece isso?

A vida que eu dei a vocês é tão ruim assim?

Quando acontecem essas coisas, sim.

Mas acontecem coisas boas, também.

O quê?

O sorriso de uma criança, o sol que nasce todos os dias.

De que vale o sorriso de uma criança que vai morrer queimada?

Você nos criou?

Sim.

Para quê?

Para buscar em mim sua salvação.

Aqueles meninos e meninas não foram salvos.

Eles virão a mim.

E você dirá o que a eles?

Que estão salvos.

E os pais, as mães, os irmãos, os amigos?

Virão um dia, também.

E o que você dirá a eles? Como vai explicar tanto sofrimento?

Direi que é a vida, que precisam provar seu amor por mim no sofrimento.

Como alguém poderá amá-lo depois disso?

É preciso aceitar, são os desígnios de Deus.

Seus desígnios?

Sim.

Então você matou esses meninos e meninas.

Não fui eu, as coisas acontecem por suas falhas e imperfeições.

Corrija-as.

Por que deveria?

Você não é bom, infalível, piedoso?

Sou.

E onde está sua bondade? Sua piedade?

As guerras, o holocausto, as pragas, os desastres, onde está sua bondade?

Vocês fazem as guerras, vocês causam os desastres.

Vou mudar. Você nos criou?

Sim.

À sua imagem e semelhança?

Sim.

Somos parecidos com você?

Sim.

Pena.

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25 ANOS SEM HENFIL

SÃO PAULO (saindo de novo) – Hoje faz 25 anos da morte do Henfil. Não vi uma linha sequer sobre a efeméride no único jornal que assino, e duvido que qualquer um tenha lembrado a data — correndo o risco, claro, de estar sendo injusto com algum. Numa era de notícias rápidas, instantâneas e mal apuradas, essa deveria ser uma das tarefas dos jornais impressos: refletir sobre pessoas e fatos do passado, aproveitando datas que a gente chama de “redondas”.

Mas pedir reflexão sobre qualquer coisa hoje parece um exagero.

Hemofílico, Henfil contraiu o vírus da AIDS numa transfusão de sangue e morreu com 43 anos. Aqui, uma entrevista publicada pela “Caros Amigos” alguns anos depois de sua morte. É desses caras que o Brasil não produz mais.

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NOSSO HERÓI

Zeca Pagodinho ajudando a vizinhança em Xerém. Foto Cléber Júnior/Extra

SÃO PAULO (ainda com alguns probleminhas) – Não dá para passar em branco a atitude de Zeca Pagodinho depois das enchentes em Xerém, hoje. Ele poderia estar na Barra, como fazem tantos, ou escrevendo no Twitter, ou postando fotos do Réveillon no Facebook. Mas estava lá, na rua, ajudando as pessoas.

Grande Zeca.

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CHIPA TUDO

SÃO PAULO (saco)Mestre Mahar alerta, com argumentos fortes, que a história de “chipar” todos os carros a partir do ano que vem pode ser não só uma ferramenta para tomar mais dinheiro de todo mundo como, também, um atentado à liberdade individual.

Para refletir.

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DICA DO DIA

SÃO PAULO (poucos viram) – Já não sei quem mandou, estava na minha lista de “coisas para ver” há dias. Assisti hoje. Esse documentário da TV Brasil, veiculado no ano passado, deveria ser visto por milhões de pessoas. Tem menos de 30 mil “visualizações”, como se diz, no VocêTubo. A menina fantasma do Silvio Santos já foi vista 21 milhões de vezes. “Ai, se eu te pego”, do filósofo contemporâneo Michel Teló, contabiliza inacreditáveis 466 milhões de acessos. É de suspirar e morrer.

Mas vá lá. O documentário se chama “O dia que durou 21 anos”. É todo baseado em documentos oficiais do Departamento de Estado dos EUA, com gravações incríveis de diálogos entre o embaixador americano no Brasil e os dois presidentes que patrocinaram o golpe militar de 1964.

Não, não há engano nenhum no que escrevi: os EUA patrocinaram o golpe, simplesmente porque não queriam João Goulart no poder e decidiram o que era melhor para nós.

Nos deram de presente 21 anos de atraso, violência, tortura, autoritarismo, iniquidade.

Thanks, brothers.

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É SÓ QUERER

SÃO PAULO (gente sem noção) – A Polícia Rodoviária Federal fez uma operação em Cambuí (MG) no fim de semana que resultou na apreensão de 11 motos e na detenção dos cretinos que as dirigem. Eles fazem parte dessas dezenas de grupos que saem pelas estradas tirando racha e colocando a vida de todo mundo em risco.

Usaram câmeras, helicópteros e, sobretudo, tiveram vontade de cumprir sua obrigação.

É só querer.

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